Babilónia religiosa: nem tudo está perdido

Encontro das águas entre o Rio Negro e o Solimões
Embora a Babilônia religiosa exerça, hoje, forte predominância no meio cristão, não podemos ter a atitude de enterrar a cabeça na areia, qual avestruz, para não enxergar a triste realidade ao nosso redor. Não é próprio, também, pensar que, pelo andar da carruagem, não há nada mais que possa ser feito. Tudo está perdido. Mas não é bem assim. Se fosse este o caso, o sacrifício de Cristo na cruz teria sido em vão e seria melhor, então, tomarmos o caminho de volta para Emaús. Talvez até fosse uma boa estratégia, pois no meio da estrada o Senhor nos apareceria para dizer: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!”
A verdade é que em meio a esse caos, os lírios ainda florescem! O próprio Jesus, ao mesmo tempo em que fez a pergunta retórica, se o Filho do homem, quando voltasse, acharia fé na terra, também admitiu na mesma parábola que Deus faria justiça aos seus escolhidos. Em outras palavras, mesmo diante das coisas mais absurdas feitas em nome de Cristo, haveria milhares que não se curvariam e nem se curvarão aos deuses erigidos nos templos dos que introduziram o antropocentrismo na prática da fé cristã. Não nos deixemos sucumbir pela síndrome de Elias! Você não está sozinho. Há outros na mesma trincheira em defesa do Evangelho puro e simples.
Mas a bem do que expressa o Novo Testamento de ponta a ponta, não creio num avivamento final, que varrerá o mundo e produzirá conversões em massa, quase cheirando a universalismo, se bem que muitos defensores da tese assim acreditam. Mas não é o que lemos na Escritura e o que vemos acontecer no mundo. Ao contrário, como diz a Bíblia sobre o fim dos tempos, cada vez mais cristãos estão sendo “encurralados”, perseguidos e expostos à execração pública por expressarem princípios que não se submetem à cultura mundana. Não precisamos ir longe. Vivemos já esse quadro em nosso país. Não desconheço que ao falar sobre a ação do Espírito, o Senhor usou como analogia o vento, que “assopra onde quer”, mas isso não corrobora de forma alguma qualquer ideia de universallização da salvação mediante um avivamento transmundial.
É provável que a esta altura você me pergunte: Em que tipo de avivamento então o irmão crê? A minha resposta é simples e direta. Creio no avivamento bíblico. Essa foi a oração de Habacuque, nos anos que antecederam ao exílio dos judeus em Babilônia. O profeta não podia concordar com a rebelião e a apostasia do povo contra Deus, mas também não compreendia que ele usasse um império pagão para trazer severo juízo sobre a nação judaica. Parecia uma contradição à sua santidade. Foi então que se lembrou dos feitos divinos no passado em favor de seu povo e orou com a alma compungida, usando expressões poéticas carregadas de figuras de linguagem, onde a ênfase é para que Deus avive a sua obra (não a do homem), ou seja, realize de novo os seus grandes feitos, revitalize a vida de fé mediante o uso da sua misiericórdia em tempos de ira, para então concluir dizendo que, mesmo se estivesse em condições de terra arrasada (“ainda que a figueira não floresça”), continuaria a alegrar-se no Deus da sua salvação. É a fé viva contra todas as circunstâncias! Isso é avivamento.
Mas esses avivamentos do reteté, do cair no espírito sob o efeito do paletó, dos rodopios pela nave do templo, da gritaria histérica, desenfreada e babélica, dos “corredores de fogo”, onde, ao final, se bebe um “cálice de água ungida”, dos “recados proféticos” que se contradizem entre si, das curas prometidas que não acontecem e frustram a fé das pessoas, tudo isso em flagrante contraste com o ensino de Paulo em 1 Coríntios 12, 13 e 14, nada têm a ver com a ação ativa de Deus e não promovem nenhuma mudança de coração. São apenas espetáculo que exalta os “ungidos”, sem nenhuma piedade, e os leva a usar o mecanismo para submeter o povo à opressão religiosa para lhe arrancar a preciosa lã. Quero distância desses movimentos. Quanto mais longe estiver, mais o meu coração estará livre para o verdadeiro avivamento.
À luz do que acabei de escrever, percebo que, apesar do caos, o verdadeiro avivamento está à mão dos que creem e pode ser visto entre aqueles que não cederam às pressões do panteão ególatra. É só tirarmos a nossa cabeça de dentro da areia e olharmos em volta que veremos os seus resultados. Não é algo que está no terreno do abstracionismo, mas é visível para quem acredita que Deus continua a realizar os seus feitos no mundo contemporâneo. Como costuma afirmar Hernandes Dias Lopes: “Ainda que tudo possa parecer fora de controle, Deus está no absoluto controle de todas as coisas”.
Vejo, por exemplo, entre os jovens cristãos um florescimento acentuado pelo estudo da Palavra de Deus. Eles estão cansados de comer algodão doce, que só enfraquece o organismo. Já não se satisfazem com pregações inflamadas, cheias de frases de efeito, que torcem o texto bíblico a belprazer do pregador, sem consistência doutrinária alguma, além das canções “gospéis” que já não lhes atraem a alma. Por quê? Por descobrirem que estão famintos e só a Palavra de Deus os alimenta, quando os seus nutrientes são metabolizados. É prazerozo vê-los querendo saber, perguntando, trocando ideias e até mesmo debatendo de forma saudável em busca das verdades da Escritura. Tenho experimentado essa realidade em minhas viagens. Nesse avivamento eu creio!
Vale ressaltar que, quando Josias começou a reinar em Jerusalém, o Livro da Lei estava perdido na Casa do Senhor. É aí que ele precisa ser resgatado. E se isso ocorre, o avivamento chega, não como obra de homem, com hora e dia agendados, mas como obra de Deus, sem qualquer manipulação humana, sem apelos psicológicos, a partir do resgate da Escritura na vida da igreja e de cada um em particular. O resultado não poderia ser outro, senão arrependimento, confissão de pecados, perdões mútuos – não da boca para fora, mas do coração – fortalecimento da comunhão uns com os outros, onde a necessidade do próximo é mais importante do que a nossa, vivência fervente da fé, desejo apaixonado em proclamar o evangelho onde quer que seja, aqui ou além mar, para que os perdidos ouçam e sejam chamados à salvação, enfim, o ápice do verdadeiro avivamento é a ardente paixão de amar a Deus sobre todas as coisas.
A Babilônia religiosa aí está, fazendo os seus estragos. Mas em paralelo, o remanescente fiel não entregou os pontos. Tal qual o encontro das águas do Rio Negro e do Solimões, no Amazonas, fllui entre eles,ao lado do caos babilônico, a graça da vida avivada, cujo fim primeiro e último será sempre a glória de Deus.
Geremias do Couto
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