A autoridade da Bíblia

N. T. Wright (Trad. D. Raimundo)

Gostava de ter tempo para traduzir por completo este artigo do N. T. Wright: How Can The Bible Be Authoritative?

É, para mim, uma abordagem esclarecedora, profunda e bíblica acerca do papel que a Bíblia tem na vida do cristão e na vida da Igreja. Não tendo tempo para me dedicar a essa tradução, opto por deixar aqui alguns destaques – linhas condutoras dos argumentos que o N. T. Wright apresenta – desejando que estes excertos sirvam para fornecer uma ideia genérica do artigo e, quem sabe, para encorajar à leitura do artigo completo.

Mesmo tratando-se de um resumo, estes excertos são extensos. Para quem tiver interesse pelo assunto mas, por questões de tempo, preferir uma leitura mais selectiva, sugiro um salto imediato para o ponto 16. Até esse ponto o N. T. Wright discute basicamente o conceito de ‘autoridade’. Afirmando que a Bíblia é composta essencialmente por textos narrativos, lança a questão-base: como é que uma história pode exercer autoridade? A partir do ponto 16 chega-nos a resposta, com uma ajudinha de uma hipotética obra inacabada de Shakespeare, o N. T. Wright cria uma imagem muito prática e, a meu ver, muito bonita do significado da ‘Autoridade’ da Bíblia para a vida Igreja.

David Raimundo

__________________________________________________________

Como pode a Bíblia ser uma autoridade?

Um livro que exerce autoridade? 

1. O significado do termo autoridade varia consideravelmente de acordo com o contexto no qual um determinado discurso tem lugar. É importante reconhecer isto desde já, pois uma das minhas afirmações centrais será a de que nós temos tido a tendência de deixar que o termo ‘autoridade’ seja o ponto fixo e temos ajustado as Escrituras a esse termo, em vez de procedermos ao contrário.

2. A maior parte dos herdeiros da Reforma, entre os quais os Evangélicos, assumem à partida que temos de colocar as Escrituras no centro e que tudo o resto tem de estar alinhado com as Escrituras. Há até uma suposição evangélica, comum em alguns círculos, de que os Evangélicos não têm qualquer tradição. Limitamo-nos a abrir as Escrituras, ler aquilo que está escrito, e aplica-lo a nós próprios: aí termina o assunto e pronto, não temos qualquer “tradição”. (…) Há em nós um positivismo implícito e, de certa forma, injustificado: imaginamos que estamos a ler o Texto de forma objectiva e que se alguém discorda de nós deve ser porque esse alguém, ao contrário de nós, está secretamente a usar pressupostos desta ou daquela natureza. Isto é simplesmentenaive e, na verdade, incrivelmente arrogante e perigoso. Isto alimenta um segundo aspecto que é o facto dos Evangélicos muitas vezes usarem a expressão ‘Autoridade das Escrituras’ quando o que pretendem afirmar é a teologia evangélica ou protestante, uma vez que se parte da suposição de que nós é que somos aqueles que sabem e acreditam naquilo que a Bíblia diz. E apesar de haver mais do que um grão de verdade neste tipo de afirmações, elas não são, de forma alguma, toda a verdade. Imaginar que o são é passar da teologia para a ideologia. Se não tivermos cuidado, a frase ‘autoridade da Escritura’ significará apenas ‘a autoridade da tradição Evangélica ou Protestante’, em contraste com as tradições Católica ou Racionalista.

Autoridade Bíblica: o Problema

3. Quando as pessoas na igreja falam em autoridade, elas estão geralmente a falar de como controlar pessoas e situações. Querem garantir que tudo é regulado de forma adequada, que a igreja não sai fora dos carris em termos doutrinários ou éticos, que ideias e práticas correctas são encorajadas e transmitidas às gerações seguintes. ‘Autoridade’ é o lugar onde vamos para procurar as respostas correctas a perguntas como estas. Esta noção, contudo, fica atolada em problemas quando a aplicamos à Bíblia. É mesmo para isto que a Bíblia serve? Ela existe para controlar a Igreja? Ela está lá simplesmente para procurarmos as respostas correctas para questões que, por algum motivo, já conhecemos? À medida que lemos a Bíblia descobrimos que a resposta a estas questões parece de facto ser ‘Não’. A maior parte da Bíblia não consiste em regras ou regulamentos – listas de ordens que devem ser obedecidas. Nem consiste em credos – listas de coisas nas quais devemos acreditar. (…) Podemos até assumir (num sentido que eu admito ser limitado) que não existe uma doutrina bíblica da Autoridade da Bíblia. Na maior parte do tempo, a Bíblia está muito mais ocupada a tratar de uma série de outros assuntos do que a falar acerca de si mesma.  (…) E a tentativa por parte de muitos evangélicos de propor uma doutrina geral das Escrituras, tendo por base o uso que no Novo Testamento se faz do Antigo Testamento, está condenada ao fracasso precisamente porque a relação entre o Antigo e o Novo Testamento não é a mesma que a relação entre o Novo Testamento e nós próprios.

4. A questão da autoridade da Bíblia não é, portanto, tão simples quanto poderia parecer. De modo a formularmos a própria questão temos de perceber que ela é uma sub-questão de questões muito mais gerais: (1) Como é que pode um qualquer texto funcionar como autoridade? (2) Como é que pode um texto antigo funcionar como autoridade? (…) De facto, é mais fácil compreender isto em relação ao Talmude do que em relação à Bíblia, porque o Talmude está desenhado de forma muito específica para ser um livro de regras para seres humanos comprometidos com a vida num contexto comunitário muito particular. Mas muito daquilo a que chamamos a Bíblia – o Antigo e o Novo Testamento – não é um livro de regras; é texto narrativo. Isso levanta uma outra questão: (3) Como pode um texto narrativo antigo funcionar como autoridade? Por exemplo, como é que o livro de Juízes ou o livro de Actos podem exercer autoridade? Uma coisa é ires ao posto de comando pela manhã e receberes uma série de ordens do teu superior. Mas o que é que farias se, ao invés, ele começasse com “Era uma vez…”?

5. Estas questões pressionam a igreja de forma tão aguda que, ao longo dos séculos, a igreja tem tentado de todas as formas dar-lhes a volta, e, desse modo, tem tornado aquele conteúdo da Bíblia que é aparentemente mais teimoso em conteúdo que possa ser mais facilmente usado como ‘autoritário’ no sentido exigido por um ou outro período da história. Eu quero abordar três dos métodos utilizados para tal e sugerir que cada um deles, à sua maneira, acaba por desvalorizar a Bíblia, revelando assim, na prática, uma fraca doutrina da Bíblia, mesmo que em teoria se defenda o contrário.

6.  Uma resposta habitual às questões levantadas passa por dizer que a Bíblia é um repositório de verdades intemporais. Isto é verdade sob algumas perspectivas. Mas na perspectiva em que é normalmente feita a afirmação não é certamente verdade. A Bíblia inteira, de Génesis ao Apocalipse, está culturalmente condicionada. Está toda escrita com a linguagem de tempos específicos, e evoca as culturas nas quais foi escrita. (…)

7. Recentemente temos visto tentativas da parte de muitos académicos de tornar este texto tão difícil num texto autoritário sugerindo que a sua autoridade reside no facto de ser testemunha de eventos primários. (…) Uma variação desta tentativa ocorre quando as pessoas dizem que a Bíblia (ou o Novo Testamento) tem autoridade porque é testemunha da experiência dos cristãos primitivos. (…) A Bíblia então torna-se autoridade porque permite-nos entrar naquilo que significava ser um cristão primitivo – e é a experiência cristã primitiva que é então tratada como a autoridade real, a verdadeira norma. Em ambas estas variantes a autoridade passou da Bíblia em si mesma para o evento ou a experiência que ela permite reconstruir historicamente. Assim, não estamos de forma alguma a afirmar a autoridade de Bíblia.

8. Uma outra vertente na qual a Bíblia tem sido usada, com a afirmação frequente de que é neste vertente que a sua autoridade reside, consiste nas funções intemporais que se considera que ela tem. Para Bultmann, o Novo Testamento funciona (entre outras coisas) como um apelo intemporal à decisão. Para Inácio e outros que ensinaram espiritualidade Jesuíta, a Bíblia pode ser usada num sentido intemporal na prática pastoral. Isto não está a milhas de distância de algumas coisas que eu vou sugerir mais adiante nesta palestra como uso apropriado da Escritura. Mas ao nível teórico é vital que digamos, mais uma vez, que este uso, em si mesmo, não é o que pretendemos afirmar quando dizemos que a Bíblia tem autoritade. (…) Todos os 3 métodos que esbocei envolvem um certo procedimento que, em última análise, parece ilegítimo: há a tentativa de extrair certas verdades intemporais, modelos ou desafios, para uma espécie de reino etéreo que não tem nada a ver com a realidade espaço-tempo… (…)

9. O problema em relação a estas soluções da questão de como usar a Bíblia é que elas reduzem a Bíblia e exaltem outras coisas. Basicamente, elas têm como consequência – e isto é o que eu pretendo dizer quando digo que elas oferecem uma visão demasiado fraca das escrituras – que Deus deu-nos, afinal, o tipo de livro errado e que é nosso trabalho torná-lo no tipo de livro certo através destas manobras hermenêuticas, procedimentos de tradução, o que seja. (…) A minha conclusão, portanto, é esta: que as habituais concepções da escritura e da sua autoridade, encontradas não apenas fora mas também dentro do evangelicalismo, não fazem justiça àquilo que a Bíblia realmente é – um livro, um livro antigo, um livro antigo narrativo. Elas tornam esse livro noutra coisa diferente, implicando, assim, que Deus deu-nos, afinal de contas, o tipo de livro errado. Esta é uma doutrina da inspiração muito fraca, mesmo que digamos o contrário, mesmo que usemos muitas palavras começadas por ‘in-‘ para a caracterizar. Eu proponho que aquilo que precisamos é de reexaminar o próprio conceito de autoridade e ver se não conseguimos fazer algo melhor com ele.

A Bíblia e a Autoridade Bíblica:

10. Em segundo lugar nesta palestra, quero sugerir que a forma como a Escritura encara a Autoridade foca-se na Autoridade do próprio Deus. (Recordo-me de um conhecido palestrante insistir uma vez que ‘não pode existir nenhuma autoridade para além da escritura’, e insistiu tanto que eu tive vontade de perguntar ‘mas então e Deus?’) Se pensarmos por um momento no que é que queremos realmente dizer quando usamos a expressão ‘Autoridade da Escritura’, iremos certamente reconhecer que esta expressão é uma forma abreviada de dizer que, apesar da autoridade pertencer a Deus, Deus investiu de alguma forma essa autoridade na escritura. E esta é uma afirmação complexa. Não é óbvia. Quando as pessoas usam a frase ‘Autoridade da Escritura’ elas muitas vezes não se apercebem disso. Pior: muitas vezes tratam a palavra ‘Autoridade’ como o absoluto, o ponto fixo, enquanto a palavra ‘Escritura’ é o elemento que se move em torno desse ponto tentando encaixar-se nele. Noutras palavras, as pessoas pensam que sabem o que é ‘Autoridade’ e então dizem que as Escrituras são ‘Autoridade’. Quero sugerir que devemos tentar o procedimento oposto. (…) precisamos, talvez, de renegar as nossas ideias pré-concebidas acerca da ‘Autoridade’ e deixar que essas ideias sejam re-moldadas à luz da própria escritura – não apenas à luz das frases bíblicas relativas à autoridade, mas à luz da Bíblia inteira, ou de todo o Novo Testamento.

11. Começando pelas evidências explícitas das Escrituras relativas à Autoridade, depressa concluímos – é algo óbvio, mas muitas vezes ignorado – que toda a autoridade pertence de facto a Deus. (…) Deus exerce autoridade em grandes eventos dinâmicos: no Êxodo, no Exílio e no Retorno). No Novo Testamento, descobrimos que a autoridade é, em última análise, dada a Cristo: ‘toda a autoridade me foi dada no céu e na terra’. Em seguida, talvez para nossa surpresa, a autoridade é dada aos apóstolos: Paulo escreveu cartas inteiras com o objectivo de deixar este ponto bem claro. Percebemos que esta autoridade tem que ver com o Espírito Santo. E à Igreja é então, dessa forma, dada autoridade para trabalhar no mundo criado por Deus como o seu agente oficial. Num sumário excessivamente rápido, seremos forçados a dizer: a autoridade, de acordo com a própria Bíblia, pertence ao próprio Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

12. (…) E a noção de autoridade de Deus, que temos de entender antes de tentarmos entender o que significa a autoridade da Escritura, é baseada no facto de que este Deus é o Deus de amor, sábio, criador e redentor. A sua autoridade reside no exercício soberano desses poderes. O que é que Ele está a fazer? Ele não está simplesmente a organizar o mundo. Ele está, como vemos e conhecemos em Cristo e pelo Espírito, a julgar e a refazer o mundo. (…) Autoridade não é o poder para controlar pessoas, e para as esmagar, e mantê-las encaixotadas. A igreja tenta muitas vezes fazer isso – arrumar as pessoas. A Bíblia também não é, enquanto veículo da autoridade de Deus, um conjunto de informações para o legalista. (…) Pelo contrário, a autoridade de Deus que está presente na Escritura tem como propósito, assim como toda a autoridade de Deus, a libertação de seres humanos, julgando e condenando o mal e o pecado do mundo de forma a tornar as pessoas livres e plenamente humanas. Isto é o que Deus está a fazer. É para isto que a sua autoridade serve. E quando usamos uma frase de atalho como ‘Autoridade da Escritura’ é isso que devemos pretender dizer. Trata-se de uma autoridade com este formato e este carácter, este propósito e este objectivo.

13. Então, temos de nos perguntar, se pretendemos chegar à autoridade da Escritura: como é que Deus exerce essa autoridade? Uma e outra vez, na própria história bíblica nós percebemos que ele fá-lo através de agentes humanos ungidos e equipados pelo Espírito Santo. E isto é em si mesmo uma expressão de amor, porque ele não deseja, simplesmente, entrar no mundo num flash de luz ofuscante e, assim, fazer desaparecer toda a oposição. Ele deseja revelar-se a si próprio de uma forma significativa no universo espaço/tempo, não apenas tocando-o de forma tangencial; revelar-se a ele próprio em justiça e em misericórdia de uma forma que possa salvar pessoas. Assim, temos os profetas. Temos os escritores obedientes do Antigo Testamento, não apenas os profetas mas também aqueles que escreveram os Salmos e por aí fora. Como clímax da história, temos o próprio Jesus, o grande profeta, mas muito mais que um profeta. E, depois, temos o povo de Jesus como os ungidos. (…) Foi assim que Deus trouxe a sua autoridade para Israel: não pela revelação de um conjunto de verdades intemporais, mas pela delegação da sua autoridade a homens obedientes através de quem ele trouxe julgamento e salvação a Israel e a o mundo.

14. E quanto mais temos de dizer acerca de Jesus. Jesus o grande profeta; Jesus que governa a partir da cruz em julgamento e em amor; Jesus que diz: toda a autoridade me foi dada a mim, por isso vocês agora vão e continuem o trabalho. Espero que a ironia disto não vos tenha escapado. Também em Actos 1, encontramos: Deus tem toda a autoridade… para que vocês recebam poder. Outra vez a ironia. Como resolver esta ironia? Agarrando com firmeza aquilo que o Novo Testamento nos dá, que é a forte teologia da autoridade do Espírito Santo. As pessoas de Jesus são aquelas que são ungidas através das quais Deus continua a exercer autoridade. E então, de forma a que a igreja seja a igreja – o povo de Deus para o mundo – Deus, pelo mesmo Espírito Santo, equipa homens na primeira geração para escrever o documento da nova aliança. (…) Portanto, é através da autoridade falada e escrita de seres humanos escolhidos que Deus traz a sua autoridade para o seu povo e o seu mundo. Até agora, vimos o que é que a Bíblia diz acerca de como a Deus exerce a sua autoridade. E isto inclui (o ponto a partir do qual partimos) a delegação da sua autoridade, num certo sentido, para determinados escritos. Mas isto leva-nos a mais questões.

15. (…) Os escritos destas pessoas, assim orientados pelo Espírito, não são na sua maioria, como vimos, o tipo de coisas que nós consideraríamos como ‘autoridade’. São sobretudo narrativa; e já tínhamos dado de caras com o problema de como é que uma história, uma narrativa, pode exercer autoridade? De alguma forma, a autoridade que Deus investiu neste livro é uma autoridade que é manejada e exercida pela forma como o povo de Deus conta e reconta a sua história como a história do mundo, anunciando a história da aliança como a verdadeira história da criação. De alguma forma, esta autoridade também é manejada pela forma como o seu povo canta salmos. De alguma forma, é manejada (assim parece) em particular pela forma como o povo de Deus anuncia a história de Jesus. Temos então de abordar a questão das histórias. Que tipo de autoridade elas podem ter?

A Autoridade de uma História: 

16. Há diversas formas segundo as quais podemos pensar que as histórias podem ter autoridade. Às vezes uma história é partilhada de forma a que as acções das suas personagens possam ser imitadas. Era por terem tal impressão que alguns dos Pais da Igreja, constrangidos pela possibilidades inerentes a uma tal leitura do Antigo Testamento, insistiram numa exegese alegórica. De forma mais subtil, uma história pode ser partilhada tendo em vista a criação de um ethos generalizado que depois seja perpetuado de um ou outro modo. O problema de tais modelos, por mais populares que sejam na leitura cristã das escrituras, é que eles são demasiado vagos: constituem uma salada hermenêutica ou um saco de rifas hermenêutico. Em sentido contrário, sugiro que as histórias em geral, e certamente a história bíblica, têm um design e um propósito que têm de ser analisados e aos quais deve ser dada resposta apropriada. Mas a que é que se assemelhará tal resposta?

17. Deixem-me oferecer-lhes um possível modelo, que não é apenas uma simples ilustração mas corresponde de facto, como irei argumentar, a algumas importantes características da histórica bíblica. Suponhamos que existe uma peça de Shakespeare cujo quinto se perdeu. Os primeiros quatro actos fornecem-nos, vamos supor, uma caracterização tão rica, um enrendo com um crescendo tão entusiasmante, que a opinião geral é que a peça tem de ser encenada. No entanto, parece impróprio escrever um quinto acto definitivo: iria congelar a peça dando-lhe um formato definido e atribuir a Shakespeare a responsabilidade por um trabalho que não era realmente dele. Talvez nos parecesse que a melhor coisa a fazer era dar as pontos-chave a actores que fossem altamente treinados e com sensibilidade e experiência em peças de Shakespeare, que poderiam mergulhar nos primeiros quatros actos, na língua e na cultura de Shakespeare e do seu tempo, e a quem depois seria pedido que desenvolvessem um quinto acto por si próprios.

18. Consideremos o resultado. Os primeiros quatro actos, originais, seriam sem dúvida a autoridade para a tarefa em mãos. Isto é, qualquer pessoa poderia opor-se à nova improvisação tendo por base que este ou aquele personagem estava agora a comportar-se de forma inconsistente, ou que este ou aquele sub-plot ou tema, esboçado anteriormente, não estava a atingir a sua resolução adequada. Esta ‘autoridade’ dos quatro primeiros actos não consistiria em ordens implícitas segundo as quais os autores teriam de repetir as primeiras partes da peça vez após vez. Consistiria sim no facto de se tratar de um drama ainda não terminado, que continha o seu próprio ímpeto, o seu próprio movimento para diante, que exigia uma conclusão apropriada e requeria da parte dos actores uma participação responsável na história, de modo a que se entendesse, primeiro, como é que os assuntos da peça poderiam ser adequadamente relacionados, e em seguida se colocasse esse entendimento em prática falando e representando tanto com inovação como com consistência.

19. Podemos levar este modelo ainda mais longe; ele oferece de facto muitas possibilidades. Entre as aplicações mais detalhadas que este modelo torna possível está a possibilidade de ver os cinco actos da seguinte forma: (1) Criação; (2) Queda; (3) Israel; (4) Jesus. O Novo Testamento iria então formar a primeira cena do quinto acto, dando-nos ainda pistas de como a história irá terminar. A Igreja estaria então sob a ‘Autoridade’ da história já existente, sendo-lhe pedido que oferecesse algo que reside entre uma improvisação e uma performance real do acto final. (…)

20. Este modelo permite-nos desde já adicionar uma nota de rodapé, que é, ainda assim, uma nota muito importante. Começamos a ver de forma mais clara que o Antigo Testamento não é o livro do povo da aliança de Deus em Cristo no mesmo sentido que o Novo Testamento o é. O Novo Testamento foi escrito de modo a ser a carta para o povo do Deus criador no tempo que decorre entre a primeira e a segunda vinda de Jesus; o Antigo Testamento constitui a história dos actos anteriores, que são vitais para entendermos porque é que o Acto 4, e, portanto, também o Acto 5, são como são, mas não é apropriado para pegarmos nele e o empurrarmos para dentro do Acto 5 sem mais delongas. O Antigo Testamento tem a autoridade que um Acto inicial da peça teria, nem mais, nem menos. Isto origina, pois claro, a obrigação de estudar de forma cuidadosa a forma como o Antigo Testamento é e/ou não é ‘Autoridade’ para a vida da igreja; (…)

21. Assim, há algo difícil que tem de ser dito aqui, que é o seguinte: de certa forma o Antigo Testamento não é o livro da igreja da mesma forma que o Novo Testamento é o livro da igreja. Por favor não me entendam mal. O Antigo Testamento é em todos os sentidos importantes reafirmado por Paulo e por Jesus e por aí fora: é também o livro do povo de Deus, o livro de Deus, a palavra de Deus, etc. Mas o Antigo Testamento declara-se a si próprio como sendo o início da história que atingiu agora o seu clímax em Jesus; e, como diz a Carta aos Hebreus, ‘aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer’, referindo-se ao templo. Mas está também a referir-se a todas as partes do Antigo Testamento que eram boas mas existiram para um tempo específico, como Paulo argumento de forma muito convincente em Gálatas 3. O Novo Testamento, baseando-se naquilo que Deus fez no Velho, é agora a carta-aliança para o povo de Deus. Nós não temos um templo, não temos sacrifícios – pelo menos não temos estas coisas com o mesmo significado que os Judeus tinham. Ambas são traduzidas em novos significados no Novo Testamento. Não temos leis kosher. Não temos a obrigatoriedade da circuncisão das crianças de sexo masculino como meio para pertencerem ao povo de Deus. Não mantemos o sétimo dia da semana como o Sabbath. Estes eram os marcos de fronteira que o Antigo Testamento providenciou para um tempo em que o povo de Deus era uma nação, uma entidade geográfica, com uma identidade racial e cultural. Agora que o evangelho se espalhou por todo o mundo, nós podemos ainda agradecer a Deus por ter preparado o caminho da forma que ele fez; mas é o Novo Testamento que serve de guia para a igreja.

(…)

22. A Bíblia, então, foi desenhada para actuar através de seres humanos, através da igreja, através de pessoas que, vivendo pelo Espírito, têm as suas vidas moldadas por este livro inspirado pelo Espírito. Para quê? Bem, como Jesus disse em João 20, ‘Como o Pai me enviou a mim, eu vos envio a vós’. Ele envia a igreja para o mundo para que ela seja e faça pelo mundo o que ele era e fez por Israel. (…) E essa agenda passa pela mesma confrontação com o mundo que Jesus teve com Israel, uma confrontação envolvendo julgamento e graça. É uma confrontação paradoxal pois é feita sob a autoridade de Deus. Não é feita com a autoridade que tão facilmente tentamos alcançar, uma autoridade que irá manipular, esmagar, controlar, ou meramente dar informação sobre o mundo. (…) O mundo está sempre a tentar atrair a igreja para que ela jogue o jogo segundo as suas próprias regras. E a igreja está demasiadas vezes ansiosa para o fazer, muitas vezes através da ideia de ‘Autoridade das escrituras’ como forma de controlar as pessoas, força-las a viver encaixotadas. Essas pequenas caixas muitas vezes têm mais que ver com condicionamento cultural desta ou daquela forma do que com as escrituras enquanto revelação de um Deus amoroso, criador e redentor.

23. Autoridade da igreja significa, então, a autoridade que a igreja possui para, com as escrituras nas mãos e nos corações, falar e agir em nome Deus no mundo. Não é simplesmente para que possamos dizer na igreja, ‘É permitido fazer isto ou aquilo?’ ‘Onde estão as linhas para delimitar os nossos comportamentos?’ ou, ‘Temos de acreditar nestas 17 doutrinas de modo a termos uma fé mesmo sólida?’… Deus quer que a igreja levante os olhos e veja os campos prontos para a colheita e que a igreja saia para o mundo armada com a ‘autoridade das escrituras’; não apenas para que as pessoas tenham uma vida íntegra dentro de um ghetto cristão, mas para que usem a autoridade das escritures de modo a declarar ao mundo que Jesus é Senhor. (…) A frase ‘Autoridade da Escritura’ é, portanto, uma espécie de abreviatura para o facto de que o Deus criador usa este livro como forma de equipar e chamar a igreja para estas tarefas. E este é, acredito, o contexto realmente bíblico para a doutrina da autoridade da Bíblia (…)

24. Porque é que a ‘autoridade’ funciona deste forma? Porque é que tem de ser assim? Porque Deus (como em Actos 1 e Mateus 28) quer envolver os seres humanos no trabalho que ele está a fazer. E enquanto estamos envolvidos nesse trabalho, estamos também a ser transformados. (…) Deus não quer colocar as pessoas em pequenas caixas para mantê-las seguras e sólidas e ilesas. É possível, no fim de contas, ser achado tão seguro que se está, na verdade, a dormir. (…) Lemos as escrituras não para evitar vida e crescimento. Deus nos perdoe por termos feito isso em algumas das nossas tradições. Também não lemos as escrituras de modo a evitarmos reflexão e acção, ou de modo a sermos esmagados, ou apertados, ou confinados a um formato desumanizante, mas de modo a morrermos e ressuscitarmos novamente nas nossas mentes. Porque, uma e outra vez, percebemos que, ao nos submetermos às escrituras, quando lutamos com as partes que não fazem sentido para nós, e quando somos conduzidos a um novo significado que não tínhamos vislumbrado antes, é como se Deus soprasse nas nossas narinas o seu próprio sopro – o sopro da vida. E tornamo-nos de facto seres vivos – uma igreja recriada à Sua imagem, mais plenamente humana, seres pensantes e plenamente vivos.

25. Essa é, acredito, uma das razões pelas quais Deus nos deu tanta história, tanta narrativa nas escrituras. A autoridade de uma história, como Jesus bem sabia, é a autoridade que realmente dá resultados. Atire-se um livro de regras à cabeça das pessoas, ou dê-se-lhes uma lista de doutrinas, e elas poderão fintar ou evitar essas regras, ou simplesmente discordar e irem às suas vidas. Mas conte-se uma história às pessoas e é como um convite para que elas entrem num mundo diferente; é um convite para partilhar uma cosmovisão ou, melhor, a ‘visão de Deus’. É isso que as parábolas fazem. Elas oferecem, como todos os contos de histórias cristãos fazem, uma cosmovisão que, quando alguém a encontra e percebe quão convincente ela é, silenciosamente desfaz a cosmovisão prévia da pessoa. As histórias determinam como as pessoas se vêem a si mesmas e como vêem o mundo. As histórias determinam como as pessoas se relacionam com Deus, com o mundo, consigo próprias, com os outros. Os grandes movimentos revolucionários contaram histórias sobre o passado, o presente e o futuro. Elas convidam as pessoas para que se vejam a si mesmas sob a luz dessas histórias, e as vidas das pessoas têm mudado como resultado disso. Se tal acontecesse a um nível meramente humano, quanto mais quando é o próprio Deus, o criador, a soprar uma História através da sua palavra.

(…)

Fonte: Dear Sir, I Am.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s