A sacralização do Salmo 137 em Juan de la Cruz

© João Tomaz Parreira

 

Este poeta religioso e homem da Igreja Católica Romana, mas de pensamento autónomo, fez da teologia, da sua teologia do matrimónio espiritual com Deus e Cristo após a caminhada da noite escura da alma, toda uma poética sacra, toda ela inspiradora como as razões da Fé Evangélica do século XVI puderam fazer, apesar da Contra-Reforma.

Juan de la Cruz, frade carmelita e místico, escreveu duas obras fundamentais da literatura religiosa ibérica do Século XVI, “Cântico Espiritual” e “A Noite Escura da Alma”.

A primeira, segundo texto comentário da época, 1584, foi declarada como “canções  que tratam do exercício do amor entre a alma e o Esposo Cristo no qual se tocam e declaram alguns pontos e efeitos de oração”.

Esta reprodução anexa ao Cântico faz notar que se trataria não apenas de um poema ao estilo de Cantares de Salmão, mas de um conjunto de orações, de experiência mística. Se quisermos, veremos nele uma releitura de Cantares, mesmo apenas reduzida a dois protagonistas “esposa” e “esposo” no sentido espiritual e sem alegorias e, muito menos, tipologias.

A linguagem e a estrutura do discurso poético são semelhantes, embora por vezes distantes das expressões usadas no Cântico dos Cânticos.

Começa com uma pergunta ferida pela saudade, num tom de desespero :

“Adonde te escondiste,

Amado, y me dejaste com gemido?

Como el ciervo huiste,

 habiéndome  herido”

Poderíamos numerar referências paralelas a alguns versos de Cantares, como estes, por exemplo: “ Vuélvete, paloma” (vd.CC., 2,14); ou “Cazadnos las raposas/ que está ya florescida nuestra viña” (Vd. CC, 2, 15).

A segunda obra acima citada, é uma declaração poética, metafórica, simbólica, da maneira como a alma faz um caminho espiritual através da noite escura dos sentidos para chegar a união perfeita com Deus. O termo “Noite Escura (da alma)” –escreveu alguém – “é usado no cristianismo para referir-se à crise espiritual na jornada rumo à união com Deus, como a que é descrita por São João da Cruz.

Contudo, é num poema autónomo, fora dos considerados poemas maiores já referidos “Noche Escura”, “Cántico Espiritual” e, também, “Llama de Amor Viva”, o “Super Flumina Babilonis” que encontramos a paráfrase ao Salmo 137, que também já Camões glosara.

Todavia, não existe nesse poema ou “romance” apenas a exclusividade do  hebraísmo do referido Salmo que alguns traduções da Bíblia referenciam como o cântico dos cativos.

Exemplarmente, porque escrito por um cristão, o poema termina com uma referência neotestamentária, tipológica, a Cristo como Pedra. Mas não podemos supor mais cristianismo do que judaísmo neste poema, num estricto sentido teológico de ambas as religiões da Bíblia Sagrada, nem tão-pouco apenas uma reescrita de um celebrizado salmo mais do que um poema confessional,  com um Eu poético na primeira pessoa.  Senão, vejamos.

Os quatro primeiros versos dão-nos não só a nota da tristeza de um exílio que seria colectivo, mas a confissão de uma alma que não quer estar longe de Deus, usando os meios histórico-geográficos “correntes (rios) da Babilónia”  A reescrita, por assim dizer ensaisticamente, não elimina as partes fortes do sentimento do início do Salmo 137, mas começa a introduzir uma nota confessionalista, que no Salmo davídico (?) existe mas colectiva, como uma epopeia-acção.

Encima de las corrientes

que en Babilonia hallava

allí me senté llorando

allí la tierra regava

acordándome de ti

¡o Sión! a quien amava

era dulce tu memoria,

y con ella más llorava.

A partir daqui introduz uma mudança que torna o poema/romance confessional.

Escrito na primeira pessoa, traduz um lamento que se origina num exílio, não físico, geográfico, mas vivido como uma experiência radicalmente espiritual e, por isso mesmo, solitária.

A escrita sanjuanista, neste caso, intercala vinte e quatro versos entre a reescrita dos versículos 1 a 3 do salmo canónico (“Às margens dos rios da Babilónia nós nos assentávamos e chorávamos (…)” ) Constituem uma larga descrição do exílio, não tanto como a experiência do povo de Deus na Babilónia, senão como uma metáfora de uma excisão do místico a quem o mundo parece separar do seu Deus, mas que resiste à vida mundana: “ Dexé los traxes de fiesta / los de trabaxo tomava”

Não se trata de uma reescrita revisionista do salmo, como agora se diz, mas de uma sublimação que qualquer crente pode subscrever, neste exemplo que deixo ao finalizar este artigo.

Dexé los traxes de fiesta

los de trabaxo tomava

y en ti solo respirava

en mí por ti me moría

y por ti resucitava

que la memoria de ti

daba vida y la quitava.

(…)

Mas o poeta místico não pôde desviar-se do poema-salmo precursor. E o confronto dos exilados de Sião com os pagãos religiosos da Babilónia marcou tanto o salmista como Juan de la Cruz.

Gozábanse los estraños

entre quien cautivo estava.

Preguntávanme cantares

de lo que en Sión cantava

Canta de Sión un hynno

veamos cómo sonava.

Dezid, ¿cómo en tierra ajena

donde por Sión llorava

cantaré yo la alegría

que en Sión se me quedava?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s