Karen Armstrong e os perigos da fé

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 Entrevista de Reinaldo José Lopes para A FOLHA em 9/5/13

A violência e a intolerância não são elementos inevitáveis no “DNA cultural” das religiões, mas sim efeitos colaterais da aliança entre fé e política, para os quais as tradições religiosas são capazes de desenvolver antídotos. É o que afirma a escritora britânica Karen Armstrong, 68, que falou ao público brasileiro nos dias 6 e 8 deste mês, respectivamente em Porto Alegre e São Paulo, durante o ciclo Fronteiras do Pensamento. Ex-freira, Armstrong estudou literatura inglesa na Universidade de Oxford e passou as últimas décadas produzindo documentários e escrevendo livros (como “Jerusalém” e “Maomé”) que investigam e celebram a história das grandes tradições religiosas do mundo, em especial as que adoram o Deus único da Bíblia e do Corão (judaísmo, cristianismo e islamismo). “A ética da compaixão é o centro de todas essas grandes tradições, e é preciso retomá-la”, afirma Armstrong. “As pessoas é que são violentas, e não as abstracções que chamamos de religiões.”

Em entrevista à Folha, Armstrong disse que o ateísmo radical é um produto do fundamentalismo religioso e afirmou estar “encorajada” com os sinais de humildade do papa Francisco, embora não espere grandes mudanças dele. Confira a conversa.
Folha – É comum ouvir dizer que, ao longo da história, o monoteísmo acabou dando impulso à violência e à intolerância porque ele tende a ser exclusivista — supõe-se que seria mais difícil ser fundamentalista ou intolerante quando você aceita a existência de muitos deuses. A sra. concorda? 
Karen Armstrong – Não, não concordo. Existem fundamentalistas entre os hindus, budistas e seguidores do confucionismo. Estou escrevendo um livro sobre religião e violência no momento, e a ideia de que o monoteísmo sempre foi uma força que impulsiona a violência é infundada. A história mostra que nenhuma fé consegue se transformar numa “religião mundial” se não for adotada por um Estado ou império dinâmico e em expansão. Como os Estados são inerentemente violentos (nenhum Estado, por mais pacífico que seja, pode se dar ao luxo de acabar com seus exércitos), as religiões acabam adquirindo uma ideologia “imperial” que, portanto, é violenta. Mas os monoteísmos, assim como todas as fés de alcance mundial, também desenvolveram uma alternativa contracultural que é não violenta e pacífica, tal como fizeram os budistas e os hindus. As pessoas é que são violentas, e não as abstrações que nós chamamos de “religiões”.
O que significa ser um monoteísta “freelance”, como a sra. se definiu certa vez? É possível transcender as raízes históricas distintas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo e ainda assim se considerar monoteísta?
Esse é um termo que usei de forma casual uma vez e que tem me perseguido desde então. Eu simplesmente quis dizer que era capaz de obter sustento espiritual de todas as três fés abraâmicas [referência ao patriarca bíblico Abraão, que seria ancestral dos judeus e dos árabes], e que não conseguia ver nenhuma delas como superior às outras. Cada uma delas tem seu próprio gênio e cada uma delas tem suas fraquezas e falhas. Depois que afirmei isso, no entanto, estudei as religiões orientais não teísticas [que não acreditam em um deus, como o budismo], e sou capaz de encontrar igual inspiração nelas também. O termo que normalmente aplico a mim mesma hoje em dia é o de “convalescente”. Estou em “fase de recuperação” depois de ter uma experiência religiosa ruim quando era moça [Armstrong tornou-se noviça num convento católico britânico no fim da adolescência e conta ter sofrido maus-tratos lá].
Ao ler seus livros, a impressão é que a sra. fala de Deus como um conceito importante e belo, mas que não necessariamente teria uma base real “fora” da mente humana. Se Deus não tem existência objetiva, por que se importar com Ele?
Nossas mentes possuem uma predisposição natural para a transcendência, ou seja, temos ideias e experiências que estão além do alcance de nossa compreensão. Todos nós buscamos momentos de “êxtase”, nos quais “ficamos de fora” (em grego, “ex-stasis”) do nosso eu. Se não encontrarmos isso na religião, vamos buscar tal sensação na arte, na música, na natureza, até mesmo no esporte. Nesses momentos, sentimos que habitamos nossa humanidade de um jeito mais pleno, somos tocados profundamente dentro de nós, elevados momentaneamente para além de nós mesmos. “Deus” é um símbolo que, se usado de maneira apropriada, traz essa experiência e faz com que sintamos que nossa vida tem sentido e valor.
Como a sra. enxerga o movimento dos Novos Ateus, que defende que os não crentes tenham uma participação mais ativa e contestadora na sociedade, combatendo as ideias religiosas? Acha que é um sinal de um futuro cada vez mais secular no Ocidente e em outros países?
O Novo Ateísmo é, em grande medida, um produto do fundamentalismo religioso, o qual tentou domesticar a transcendência de “Deus” e acabou por transformá-lo em algo inacreditável. Mas, ao longo da história, os monoteístas, por exemplo, insistiram que “Deus” não é um outro ser [necessariamente separado do homem] e que não podemos dizer que “ele” existe, porque nossa noção do que é a existência é limitada demais. Na verdade, as pessoas estão ficando enjoadas de [Richard] Dawkins [zoólogo britânico], [Sam] Harris [neurocientista americano; ambos são expoentes dos Novos Ateus] etc. porque eles são agressivos e intolerantes demais. Acho que a Europa está de fato destinada a seguir o caminho do secularismo, mas os EUA continuam sendo um país muito religioso.
Quais são suas primeiras impressões sobre o papa Francisco?
Achei muito encorajador quando fiquei sabendo que ele abandonou seu palácio e adotou um estilo de vida mais simples. Mas ele ainda é conservador do ponto de vista teológico e ético, então não espere muitas mudanças!
Vários papas, diante da pressão para que o sacerdócio de mulheres fosse permitido na Igreja Católica, afirmaram que teologicamente isso seria impossível, já que Jesus escolheu como apóstolos apenas homens, e os sacerdotes atuais são os sucessores desses apóstolos. A ordenação de mulheres seria contrariar a decisão soberana de Jesus. Esse raciocínio é válido, na sua opinião?
Eu acho que Jesus ficaria surpreso ao ver qualquer tipo de sacerdócio no “cristianismo”, para começo de conversa! Ele não instituiu uma forma de sacerdócio. Os primeiros cristãos achavam que os sacerdotes só existiam no paganismo e no judaísmo; o modelo deles era mais igualitário. Não havia “sacerdotes”, ao menos não nos termos que nós poderíamos defini-los, até o século 3o da Era Cristã.

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