Convertido à mão de Deus

    

© João Tomaz Parreira

 

Os sonetos de Antero de Quental são biográficos e cíclicos.  Contam-nos – escrevia Oliveira Martins- “as tempestades do espírito do poeta açoriano”.

Os poetas como Antero de Quental (Açores, 1842-1894) que ligaram experiência existencial ao próprio acto criador de um poema, não foi por terem feito a transição do romantismo para o modernismo, não foi por terem passado antes do tempo do século XIX para o XX – sem nunca a este terem aportado como Quental -, foi com certeza por uma outra e mais profunda razão, uma daquelas que vão até aos arcanos inatingíveis da alma humana. Onde a sinceridade anda e não existem ateísmos, porque o único espectador é o próprio Ser e o desígnio do Divino.

José Régio, numa breve sinopse da obra de Quental, escrevia em 1967, que “os Sonetos são a verdadeira biografia do poeta”. Nesses Sonetos e em outros poemas confessionais, não podemos colocar de lado a confiança quanto às manifestações de religiosidade, de  interioridade religiosa, dos mesmos.

Escreveu-se canonicamente acerca desses poemas que eram o produto do pessimismo do poeta, e foi naturalmente, também se disse, com bastante injustiça, que terá sido “um desvairo do poeta”.

Mas “o sentimento pessimista vai sempre unido – escreveria António Sérgio (Damão, 1883-1969) – como é natural, ao anelo de nos evadirmos para além do que existe, de nos foragirmos das condições que nos causam  mágoa”.

Em Antero de Quental foi uma viagem – pena que tenha acabado mal – do soneto “O Convertido” ao “Na Mão de Deus” e outros textos do interior da alma como uma evasão do espírito e de quem aspira ao divino. António Sérgio anotaria numa edição de “Sonetos” (1) que “o pressentir da existência de Deus” é “um facto universal, antigo, larguissimamente humano”.

Assim, sinceridade e transcendentalismo lêem-se neste ciclo, diríamos para simplificar religioso, dos Sonetos de Quental. Sempre como um “além-da-realidade”. Do mais profundamente filósofico (“Transcendentalismo: Na esfera do invisível, do inatingível,/Sobre desertos, vácuo, soledade,/ Voa e paira o espírito impassível”) ao simplesmente salmódico (“Salmo: Esperemos em Deus! Ele há tomado/Em suas mãos a massa inerte e fria/ Da matéria impotente e, num só dia,/ Luz, movimento, acção, tudo lhe há dado.”)

Nos sonetos que são uma parte do pensamento de Antero, mais se acentua a sua busca do divino, pela razão do que  escreveu sobre o “abandono desolado”, mas, também, sobre a “eterna pátria” que deseja.

“Abandono desolado” ou sossego “depois de tanta luta”. Sem dúvida, descanso. Nesse soneto cujo título parece submetido à filosofia, à metafísica, “Transcendentalismo”, já referido, Antero expõe-se e escreve: “ Já sossega, depois de tanta luta, / já me descansa em paz o coração”. Não era ainda a morte que procurava, mas “a esfera do invisível”, do “inatingível, sobre desertos”. Visto à luz actual do estudo, na psicopatologia, dos estados depressivos sintomáticos, da psicanálise também, era um pedido de auxílio em forma de poesia.

Para um agnóstico agora, que perdera a fé, a fé religiosa em que fora educado, o salto  (para cima, para baixo, descendo da Ilusão?) era contudo poder descansar o coração “na mão de Deus”:  “Na mão de Deus, na sua mão direita, /Descansou afinal meu coração. / Do palácio encantado da Ilusão/ Desci a passo e passo a escada estreita”.  Anseio por salvação?  “Dorme o teu sono, coração liberto, / Dorme na mão de Deus eternamente!”  Beleza de estética evangélica, de facto, diríamos mas sem perder de vista o pessimismo reinante da alma de Antero. Este soneto é a entrega da individualidade do poeta, renunciando ao indivíduo natural, no mistério da mão de Deus, e se é a imagem da necessidade religiosa, é também a imagem do descanso eterno – onde parece transluzir mais a Morte do que a Vida. Antero admirava aqui a Mão divina, mas tal como perguntava Malebranche (“O que admiras na divindade se tu não a conheces?”), não a conhecendo embora sob a dádiva da Fé.

Ao lermos o soneto que se segue, que precisaria de um artigo independente, não poderemos jamais duvidar da conversão, evangélica, teológica, à simplicidade do crente, mística com certeza, de Antero, embora todos os termos acima possam não resistir a uma análise profunda do ponto de vista da Teologia Sistemática Evangélica:

 

O CONVERTIDO

Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza…
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento…
Só me falta saber se Deus existe!

Antero não deu forma à sua conversão, e lamentamos,  porque a Forma segundo ele era filha da Ilusão. Por isso não vimos a práxis desse converso que acabou por se suicidar.

____________________________

 (1)- Quental, Antero, Sonetos, Sá da Costa, 5ª Edição, 1976

 

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