O Menino maravilhoso de Isaías e Virgílio

   © João Tomaz Parreira

 

 

Isaías estava preparado para abrir a sua boca e dos seus lábios aptos sairia a notícia, a Boa Nova do Advento.

Porque um menino nos nasceu, // um filho se nos deu; // e o principado está sobre os seus ombros”.

Mas é na descrição poética de um mundo em trevas, uma metonímia para a escuridão da morte, onde as sombras se prolongavam dos olhos do povo, de ambos os reinos de Judá e de Israel, que Isaías embeleza o seu escrito, a fim de trazer a esse «povo que andava em trevas» o Messias. E novamente aqui as incontornáveis figuras de linguagem, de novo a metáfora e a símile, a fim de iluminar o silêncio profético desse período entre os dois Testamentos.

«O povo que andava em trevas // viu uma grande luz, // e sobre os que habitavam // na região da sombra de morte resplandeceu a luz. // Tu multiplicaste este povo e a alegria lhe aumentaste».

A primeira nomeação que Isaías usa para qualificar esse Filho Messiânico, que viria alterar toda a estrutura desse texto de Escritura Sagrada para um texto poético, é um termo epopeico: Maravilhoso, Maravilhoso Conselheiro, que re-ensinará a Moral, a Ética, a Sabedoria a um povo de entendimento entenebrecido, pela negra miséria do cativeiro na sua própria terra e do exílio.

Do mesmo modo, sete séculos depois o poeta latino Virgílio diria poeticamente de um menino que iria “partilhar vida dos deuses”. Por esse cântico poético, depois na Idade Média, o autor do épico “Eneida” foi recuperado para o Cristianismo com a categoria de profeta pagão.

Ao poeta foram “atribuídos dotes sobrenaturais de profeta e de mago” – diz-nos qualquer História da Literatura Latina. Mas não foi por ter “conduzido” como guia espiritual Dante, em viagem pelo Inferno, na monumental obra que é a Divina Comédia.

Sobretudo e exclusivamente foi porque escreveu nos derradeiros anos (42-39) antes de Cristo que um menino maravilhoso iria nascer. E esse escrito é até hoje não só inexplicável, mas também inelutável.

Há milénios que a crítica gostaria de poder identificar esse menino. O nome, ninguém até hoje sabe, embora haja quem o personifique num favor poético quer Virgílio teria de fazer a certo personagem influente, Polião, pelo nascimento do filho deste; mas quando lemos que o menino será maravilhoso, porque será portador de uma nova Idade de Ouro, não será num mero nome que se deve presumir, pelo contrário, deve-se pensar na condição social e no carácter, na interioridade e na projecção moral, de tal criança, na sua superioridade inabalável, e assim olhar com o auxílio da hermenêutica literária e histórica.

No fundo, como uma questão de contexto, na qual as promessas proféticas sobre Jesus Cristo podem também ocupar um lugar de relevância.

Bucólicas IV

Nesta écloga, Virgilio utiliza alegorias para glorificar alguns dos seus protectores em Roma. O intuito deste entrecho bucólico, que não vem cantar pastores, nem os prados verdejantes para os rebanhos, é de outra ordem. É mítico e profético, trata do fim de um tempo e começo doutro novo, fala da criação do mundo, do Paraíso sem a serpente.

Eis que chega aquele fim da idade que predisse Cumas outrora, renascendo assim a grande ordem de século após século”. 

Especialmente esta Bucólica parece conter uma profecia messiânica feita pela Sibila – sendo isto apropriado pelos primeiros cristãos. Por esta razão, durante a Idade Média a Sibila de Cumas e Virgílio foram considerados profetas da vinda de Cristo.

Este menino que, primeiro, verá a férrea idade sumir do mundo logo vindo a de ouro”.

O primeiro imperador já considerado cristão, Constantino ( “bispo do exterior” como gostava de se chamar), quando disse a sua mensagem para o I Concílio de Niceia interpretou esta passagem das Éclogas como uma referência à primeira vinda de Jesus.

O autor da “Eneida” classificava esse tempo como “ Esta era nova ”, esse menino lado a lado com os heróis – escreve Virgílio – estaria na origem da Paz: “ com ele mesmo ao Céu erguido e governando a Terra em paz pela virtude de seu pai.”

Existe de igual modo um acento narrativo que nos lembra Isaías, no que concerne ao milenarismo / milenismo do profeta do Velho Testamento. “As cabrinhas por si trarão aos lares / tetas cheias de leite e dos leões / rebanho algum terá receio “, “ Serpente morrerá e morrerá / toda a pérfida planta venenosa“.

O profeta Isaías profetizou acerca do reinado do Messias com uma linguagem imagética, temporal porque se trata da letra, mas inspirada pelo Espírito Santo que lhe mostrou o Advento do Menino.

O futuro na profecia de Isaías está numa Pessoa, nenhum outro profeta elevou perante os olhos do Mundo Antigo a Pessoa de Jesus Cristo ligado a elementos naturais da vida dos homens: nascer e morrer, de modo distinto e único.

Profecia retrospectiva, a de Isaías, porque “ como o passado e o futuro procedem igualmente da essência de Deus , uma inspirada penetração no passado dá a entender uma penetração no futuro e vice-versa”- Comentário de La Bíblia, Jamieson et alli.

E fê-lo de forma poética, ornando a exaltação do Messias de nomes da esfera celeste perante a miséria negra do cativeiro, em todo o belíssimo capítulo 9 do seu Livro. É como se aos três magos que foram a Belém, à humilde estrebaria, levar os simbólicos artefactos da sua riqueza ao Menino, Isaías estivesse presente como o quarto levando não ouro, incenso ou mirra, mas Nomes. As características essenciais do Menino.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros: e o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz.” 

 

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