O festim de Belsazar

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© João Tomaz Parreira

Quando a grande arte pictórica pode trazer-nos, emotivamente, impressionantes passagens bíblicas, apenas se está perante a humildade da percepção e da interpretação criativa, dos artistas que se submetem à Arte como elemento do Belo divino.

Desse Belo, o homem pode aproveitar para deleite ou aviso, e também da rendição dessa mesma Arte às Sagradas Escrituras.

“O rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus grandes, e bebeu vinho na presença dos mil. Enquanto Belsazar bebia e apreciava o vinho, mandou trazer os utensílios de ouro e de prata, que Nabucodonosor, seu pai, tirara do templo que estava em Jerusalém, para que neles bebessem o rei, e os seus grandes, as suas mulheres e concubinas”. (Dn. 5:1,2)

Estamos perante uma narrativa da história, na mais perfeita antecipação do reconhecimento aristotélico do que é um historiador. Narrativa com uma intriga ou enredo: ”e bebeu vinho na presença dos mil”, “com suas mulheres e concubinas”,  o que reforça e dramatiza a narração.

Daniel é um historiador, factual e escatológico, do século VI a.C no Velho Testamento e o seu livro (Daniel) é um “livro de reis e reinos, de tronos e domínios” – conforme a introdução ao livro na Bíblia Anotada de Scofield.

É também um intérprete de sonhos, na acepção bíblica daquele a quem foi dada a capacidade mística de revelar o que se esconde nos sonhos, nas visões, de acordo com o que o próprio escreve na terceira pessoa: “… a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos” (1, 17).

Daniel narra o evento dramático de Belsazar e dá-nos assim do mesmo duas dimensões: a histórica e a teológica.

A história escrita de Daniel tem efeitos do fantástico e cria um suspense no leitor que a aborde, ainda que seja apenas como texto histórico, embora esteja nele inscrita toda uma semântica divina que leva à teologia do respeito às coisas divinas e espirituais, no relacionamento com Deus.

A teologia da relação respeitosa com o Sagrado, com o Senhor Deus foi quebrada e trouxe efeitos funestos ao rei e ao seu reino, e na diegese do facto histórico Daniel não dispensa, literariamente até, a carga metafórica utilizada em “Pesado foste na balança” (5,27).

Como facilmente se percebe, estamos diante de uma tragédia que começa com uma farsa inaudita para um rei que profana os utensílios do Templo. O clima dramático do texto bíblico, transfere-se para as artes plásticas na obra barroca de Rembrandt. Este reaviva e reescreve como uma Bíblia ilustrada com iluminuras todo o ambiente das cenas bíblicas que pinta.

O QUE DIZ REMBRANDT NO ÓLEO S/TELA “O FESTIM DE BELSAZAR”

Rembrandt não só pinta como pensa. Goethe chamou-lhe “Rembrandt, o pensador” a propósito de um outro quadro/ gravação “O bom samaritano”. Mas a tela a óleo “O Festim de Belsazar” é de outra dimensão, a do medo dramatizado, e com a intenção de também infundir medo ao espectador do quadro. Não é o pintor ele próprio que pensa, pelo contrário, é Belsazar a pensar estupefacto. Rembrandt dramatiza sobre o que se apoderou do espírito, e das emoções contrárias ao momento festivo e inesperadas do filho de Nabucodonosor.

Rembrandt fez na tela a narrativa do espanto da impotência de um rei perante o desconhecido, o medo do que não podia dominar. Os Sfumato e Chiaroscuro que caracterizam as obras do pintor flamengo, dão-nos essa dimensão do terror perante o que se desconhece, as sombras do flamejante Eu de Belsazar no colorido de uma festa. A tela em análise é ela própria uma visão. O caminho do fim de Belsazar no efusivo ambiente de um festim com vinho, concubinas e a profanação dos vasos sagrados do Templo de Jerusalém. As pinceladas carregadas de cor aurífica e também de escuros (sfumatos) aumentam a intensidade da tragédia estampada no rosto de Belsazar.

É evidente, diria um historiador de arte, que a intenção do pintor “é dramatizar ainda mais a acção das figuras”, chamando assim à atenção do espectador sobre as expressões emocionais das personagens, dos jogos das mãos, do cálice entornado. A leitura da sucinta narrativa que Daniel faz, da cena vivida há mais de dois milénios, também nos dá uma perspectiva completa de como o estado psicológico de Belsazar, sobretudo, se desmoronou. Daniel que interpretou, sobretudo, a linguística escrita da visão do rei, declarou ao mesmo a procedência da mão que escrevia palavras a fogo da justiça divina.

O pintor não nos distancia do drama, com a representação das diferentes texturas, dos metais, tecidos e pele dos corpos pode-se ver o uso intensivo do impaste de tinta, típico do artista. O que nos importa, porém, é que o pintor coloca-nos no centro do drama, com a dimensão da figura focada, em primeiro plano, do rei que olha impotente para a parede. Tudo está lá, na tela, suspenso, os próprios sentimentos do protagonista do quadro, que é, segundo a Bíblia Sagrada, o único que vê “a mão” e o que ela escreve indecifravelmente na parede do salão da festa.

Um dia, o filósofo Jean-Paul Sartre escreveu que “um texto olha-nos”, neste caso olha-nos o quadro de Rembrandt, como um aviso, mas muito melhor se aplicarmos a frase à Bíblia Sagrada.

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