A Semiótica, antecipada pelo Apóstolo Paulo

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© João Tomaz Parreira

 

 

Filósofos da linguagem tiveram razão ao determinar nos inícios do século passado, que seria inconcebível a vida social sem a existência de signos de comunicação. O entendimento humano não se faz sem esses sinais da linguagem, compreensivelmente simples, as palavras.

Por uma razão cultural aplicada à espiritualidade manifestada nos dons espirituais na Igreja, Paulo antecipou-se a tais estudos e escreveu aos Coríntios (14,10) uma frase cheia de sabedoria e da futura ciência linguística: “ Há sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo, nenhum deles, contudo, sem sentido.”

A tradução de O Livro (a Bíblia para Hoje) entreabre a contextualização da época em que pouco se saberia sobre as línguas e os povos: “Suponho que haverá centenas de línguas diferentes neste mundo”. Hoje, sabe-se muito das escritas ideográficas e silábicas da Mesopotâmia, signos-palavras, escrita original e obscura, dos milénios antes de Cristo, no entanto de invenção tardia. “Uma vez que a escrita não satisfaz uma necessidade elementar da vida do homem” (“A Escrita”, Marcel Cohen), as mensagens começaram por ser, obvia e comprovadamente, verbais.

A versão da “God News Bible”, das Sociedades Bíblicas britânica e americana, de 1976, apresenta um esclarecedor termo para ajudar a entender a metáfora “vozes”: “There are many diferente languages in the world” e nenhuma linguagem está desprovida de significado.

Curiosa versão é, de igual modo, a tradução em português moderno do “Novo Testamento”, da nossa Sociedade Bíblica”, 1978: “Existem não sei quantas línguas no mundo e todas têm o seu significado.”

Assim confirmamos que o autor da Carta aos Coríntios tinha a certeza de que era preciso saber o sentido daquilo que se dizia, isto é, era inconcebível e infrutífero não perceber a linguagem do falante interlocutor.

E estava lançada a ideia da futura semiologia. Cada vez que há comunicação, pronuncia-se uma mensagem, na ciência da linguística cabe à semiologia descrever um a um cada aspecto estrutural e funcional da mesma.

A semiologia ou semiótica é, de um modo geral, o estudo dos signos da linguagem; o próprio grego do Novo Testamento regista este vocábulo, “semêion”, signo, sinal, com os quais há comunicação. Se os não entendermos, não compreenderemos a mensagem. Exemplo comummente conhecido? O sinal de trânsito ou signo universal “Stop”, que tem uma significação precisa: a obrigação de parar.

Tantos géneros de vozes

[14,10] TOSAUTA EI TUKHOI GENÊ PHÔNÔN EISIN EN KOSMÔ KAI OUDEN APHÔNON [14,11] EAN OUN MÊ EIDÔ TÊN DUNAMIN TÊS PHÔNÊS ESOMAI TÔ LALOUNTI BARBAROS KAI O LALÔN EN EMOI BARBAROS. (a transliteração dos versículos da língua grega do NT)

Todo o capítulo 14, de que esta porção bíblica faz parte, é um texto epistolar teológico porque desvenda revelações de Deus para a Sua Igreja, doutrinário porque ensina a ordem mesmo no exercício dos dons espirituais, estabelece regras para uma verdadeira comunidade pentecostal, e não deixa de aflorar, de um modo simples, a ciência da linguagem, que ainda não se chamava linguística. Só na segunda década do século XX, em Praga, se começou a fazer reflexões sobre a linguagem.

Porém o apóstolo já distinguia que os fonemas eram sinais linguísticos que estavam para lá da acústica dos sons, tinham que ter um sentido para que houvesse verdadeira comunicação e, assim, mensagem. Sempre sem perder a visão de que o aspecto pragmático da actividade linguística é a conversação.

Paulo é peremptório e claro quanto à compreensão das línguas por um “indouto”, como lhe chamava no sentido de estrangeiro que não entenderia uma língua “local”.

Com efeito, Paulo escreve aos crentes de Corinto um princípio básico da semiótica: “Se eu pois ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e, ele, estrangeiro para mim.” (Iª. 14,11).

Não deixa de ser interessante o vocábulo grego utilizado: “dunamin”, que conhecemos espiritualmente na linguagem bíblica como “poder”, mas que quer dizer também “significação”, “sentido expressivo”, a capacidade de comunicar.

Paulo entendia e ensinava que as línguas estranhas (a glossolalia) não interagiam socialmente, na comunidade eclesial, se não houvesse quem interpretasse. Com base nestes versículos da Carta aos Coríntios, o ensino hoje sobre esta matéria deve ser o mesmo do Apóstolo há vinte séculos atrás.

 

(Aveiro, entre 1 e 8 de Setembro de 2014)                                                                                           

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