A oração

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 José Brissos-Lino

 (Da obra “O Grito da Semente”, Ed. Edium, 2010)

 

 

 “Não oramos para liquidar problemas de forma mágica. Oração é a prática da paciência. Situações difíceis, às vezes, não se resolvem, mas quando oramos somos transformados. Nós nos consagramos a Deus e somos santificados de modo que, em certas ocasiões, não é a circunstância que muda, mas o nosso olhar.”
(Osmar Ludovico)

A prática e o sentido da oração estão hoje largamente pervertidos em diversos campos do mundo cristão.

Hoje em dia a oração é uma ferramenta que serve para tudo. Entre outros estranhos desígnios, serve para dar ordens a Deus, assim como também serve para amaldiçoar o próximo.

A oração como processo reivindicativo

É frequente ouvirmos que Deus “tem que” responder num determinado sentido porque está ligado à sua Palavra, isto é, às suas promessas. E assim passamos alegremente de simples criaturas a criadores, soberanos, de dedo espetado em direcção a Deus.

Este tipo de oração é o favorito dos crentes de tipo reivindicativo, pessoas que na vida cristã sobrevalorizam os direitos, esquecendo muitas vezes os deveres, e que são igualmente lestos a esquecer que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).

A oração como arma ofensiva espiritual

Se em Cristo “somos mais do que vencedores” (Romanos 8:37), então os crentes podem utilizar a arma da oração para lutar pelos fins que perseguem. Mas há limites a esta premissa.

Desde logo porque devemos alinhar os objectivos da nossa oração com a vontade de Deus. Ela sim, soberana. Depois porque devemos usar a arma da oração com sabedoria e eficácia, e não como quem espadeira no ar (I Coríntios 9:26).

A oração como factor de maldição

Amaldiçoar a vida ou o ministério de alguém não tem qualquer suporte bíblico ou teológico, já que os filhos de Deus são chamados para abençoar, desde os tempos de Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Génesis 12:3). Todavia há quem se iluda a praticar uma espécie de “magia negra” de suposta inspiração bíblica, mas à qual as Escrituras são completamente alheias.

Amaldiçoar o semelhante é abusivo e revelador de falta de misericórdia, que é o ADN do Evangelho. Não se trata, em caso algum, de uma prática cristã, antes pelo contrário, tal acção vai ao arrepio de todo o contexto do Novo Testamento e do exemplo, ensino e mensagem de Jesus Cristo.

A oração como ladainha ou mantra

Orar para “encher chouriços”, do tipo “oração a metro” tem mais que ver com concepções religiosas retrógradas, as tais vãs repetições de que nos fala Jesus no Sermão do Monte (S. Mateus 6:7), e a sua eficácia é nula. Estará mais ligada à ideia do sacrifício pessoal feito com a intenção de obter o favor de Deus.

Palavras e frases repetidas a esmo, vezes sem conta, perdem sentido, conteúdo, e até o nosso respeito. As palavras são como as pessoas, devemos lidar com elas com parcimónia, mas nunca usá-las a despropósito.
Deus não está à procura de palradores, mas sim de adoradores (S. João 4:23).
Por razões idênticas, a oração também não deve ser uma espécie de mantra, repetido até à exaustão, de modo a provocar estados alterados de consciência. Não estão na génese do Cristianismo tais práticas ou filosofia, embora a tentação esteja muitas vezes presente, em certos círculos cristãos, tanto através da prática de orações como de cânticos.

A oração como sacrifício redentor

Há quem encare a prática da oração como se de um sacrifício se tratasse. Mede-se a espiritualidade de uma pessoa pelo tempo que passa em oração. Se orar de joelhos será tanto mais espiritual do que aquele que ora de pé ou sentado. Pura patetice.

As Escrituras não permitem suportar tal ideia. Apenas nos incitam a orar “sem cessar”, isto é, a levar uma vida regular de oração.

A oração como mensagem indirecta

Em comunidade, há quem utilize a oração em voz alta para enviar recados a terceiras pessoas, presentes na reunião, dar testemunho público ou manifestar discordância com alguma decisão ou orientação eclesial.
Deus deve gostar muito pouco de ser usado como pretexto para acerto de contas entre os pobres seres humanos.

A oração como passe de mágica

Alguns encaram a oração como uma magia, extremamente simbolizada, como uma espécie de palavra-passe cristã, do tipo “abracadabra” ou “abre-te, Sésamo”.

A oração não é uma espécie de magia branca, como se quer fazer crer nos meios neopentecostais. Não há palavras-chave que abram portas especiais no mundo espiritual. Não se trata de uma questão semântica. A ideia da magia procede dos cultos pagãos, sendo completamente estranha ao Cristianismo bíblico.

A oração como via para o êxtase sensorial

Frederick Buechner, no livro “O que eles disseram sobre oração”, põe o dedo na ferida: “Acho que a oração é análoga ao sexo. A maioria das pessoas tem queixas da sua vida sexual, poucos se dão realmente bem. O sexo e a oração são relacionamentos íntimos e excessivamente glamourizados. Somos todos levados a crer que, na hora do sexo e da oração, devemos atingir a estratosfera. Isso cria uma expectativa falsa e destrói a intimidade.”

A ideia de alcançar um êxtase dos sentidos por via da oração já é, só por si, uma falácia. Sejamos claros: Jesus nunca encorajou tal ideia. O que a Bíblia ensina é que, quando acontece não sabermos como orar, o Espírito faz qualquer coisa de especial, “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26), que é coisa bem diferente. Os cristãos “emocionais” podem até encontrar uma satisfação particular dos sentidos através de uma intensa prática de oração, mas não é para isso que a oração serve, nem foi para isso que o Mestre ensinou como orar ou para que orar.

A oração limitada por condicionantes físicas

Há quem pense que a sua oração será mais rapidamente ouvida ou respondida se for para a montanha, de madrugada. Creio que o Deus da montanha é exactamente o mesmo Deus do vale, e o da madrugada o mesmo do dia ou da noite, da tempestade ou da bonança, do ruído ou do silêncio.
Definitivamente, não são as condições físicas que determinam a eficácia da oração, nem faria qualquer sentido que assim fosse.

A base escriturística da oração

A oração que Jesus Cristo ensinou aos discípulos, a chamada oração do “Pai Nosso”, constitui a base bíblica mais segura de estudo sobre esta importante dimensão da praxis cristã. Estudar os elementos presentes nesse modelo de oração é o caminho mais seguro para fazer dela um acto relevante e eficaz, em especial na nossa própria vida.

Conclusão

De facto, muitas vezes não são as circunstâncias envolventes que mudam através da prática da oração, somos nós. Tal como num processo psicoterapêutico. Somos mudados ou transformados interiormente, de forma que é o nosso olhar, a nossa perspectiva e o nosso sentir que mudam. E é por isso que as referidas circunstâncias, a partir de certo momento, deixam de nos provocar desconforto ou sofrimento.

Como escreveu Henri Nouwen (Transforma Meu Pranto em Dança, Textus, p. 33): “Só a oração nos permite ouvirmos outra voz, ser sensíveis a maiores possibilidades, encontrar um caminho para fora de nossa necessidade de ordem e controle.” Numa palavra, só a oração possibilita que superemos a condição humana.

 

 

 

 

 

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