Do Menino de Virgílio ao Homem de John Milton

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© João Tomaz Parreira

 

Quando o apóstolo Paulo explica às igrejas da Galácia que Jesus Cristo nascido de mulher, veio na plenitude dos tempos, no grego plêrôma tou khronou, com a expressão deu-nos a ideia de completude, digamos de uma taça de tempo que encheu do ponto de vista divino, e, assim, resume o trajecto da Eternidade ao Mundo do Filho de Deus.

Há na expressão “nascido de mulher” uma circunstância da teologia e uma circunscrição à acção biológica, na verdade é uma expressão simples que se traduz sem outras conotações por nascimento ou Natal e que denota a viagem de Jesus Cristo do eterno ao tempo.

A literatura clássica não pôde fugir da fundacionalidade desse nascimento nem dos textos bíblicos que o referem, antecipam ou noticiam, como um rio não pode cortar-se do fio de água da nascente.

Hegel, no século XIX, dizia, no sentido da arquitectura clássica dos templos indo já a caminho da estética da Poesia, que tal arquitectura exigia um “deus que a habitasse”.

Deus, contrariamente ao que o ateísmo célebre pensou e a grande crise da fé e da teologia que surgiu no século XVIII duvidou, habita em alguns templos do classicismo literário, senão com o Seu Nome explicitamente, pelo menos através de alusões, metáforas, figuras de linguagem, sempre através da expressão do Belo.

O Belo é, para início, o que alguns salmos nos mostram como “exemplos clássicos do verdadeiro sublime”, e esta não é uma opinião de um teólogo mas do filósofo Hegel. “Para todos os tempos, são eles um modelo em que se exprime, com brilhante e poderosa elevação, aquilo que o homem encontra na sua representação religiosa de Deus” ( “Estética –A Arte Simbólica”, Guimarães Editores, 1956, pág. 142)

Mas esta ideia do sublime no Nascimento de Jesus está explícita tanto no Velho como no Novo Testamento, na poética-profecia de Isaías e na diegese de Lucas que nos introduzem na beleza do Natal.

O texto bíblico lucano leva-nos á beleza circunstancialmente humana e natural (a noite, os pastores, os rebanhos nas colinas), e à beleza reflectida da Estética divina com a Estrela, os anjos e o nascimento do Menino Jesus, o Cristo.

A estética da teologia da Salvação, com a “glória do Senhor” que cercou os pastores de resplendor de que só as “novas de grande alegria” se revestem. Lucas sublinha a beleza da teologia, descrevendo: “E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais” porque tinha nascido “o Salvador, que é Cristo o Senhor” – dizia a voz branca e celeste do anjo.

Paralelamente, o simbolismo de alguns trechos clássicos também representa na história da Humanidade esse encontro de Deus com o Indivíduo Humano

 

BUCÓLICA QUARTA, DE VIRGÍLIO (70 – 19 a.C) 

A substância da história e a dedicatória nestes versos do Poeta latino, autor da Eneida, são dirigidas a alguém que inspirou o poema, mas viu-se no metatexto (para lá do texto ou nas entrelinhas) uma profecia subliminar que o Cristianismo primitivo adoptou para si.

“Eis que chega / aquele fim de idade que predisse / Cumas outrora, renascendo assim / a grande ordem de século após século. / Protege tu, Lucina, este menino / que, primeiro, verá a férrea idade / sumir do mundo logo vindo a de ouro / Com ele mesmo ao Céu erguido e governando a Terra / em paz pela virtude de seu pai.” (Obras de Virgílio, Temas & Debates, 1999)

Este trecho da bucólica vai para além do estilo e do conteúdo característicos desse género literário; não fala nem de pastores, rebanhos e idílios / amores felizes, tão-pouco de mitologia do bucolismo. O colorido aqui é outro e subliminarmente profético, nem o próprio Virgílio saberia a metahistória do que dedicou a um personagem salvífico, que seria o filho do cônsul Polião (?), nem que tal o colocaria na posição dos profetas.

O eminente padre Raymond E. Brown (Nova-Iorque, 1928-1998), membro da Comissão Bíblica Pontifical, o primeiro professor católico num seminário protestante, explica a valia desta bucólica nº 4: “Embora Virgílio tenha vivido um século antes dos evangelistas, esse poema, composto em 40 a.C., menciona uma Virgem (verso 6) e um Menino (verso 49) diante do qual toda a terra estremecerá em reverência (verso 50), em uma idade de ouro de paz (versos 9 e 17), quando os “vestígios de culpa” remanescentes vão desaparecer (versos 13 e 14). Não é de admirar que os cristãos vissem na Quarta Bucólica uma profecia do nascimento virginal de Jesus, o Messias, que tirou o pecado original.”

 

PARAÍSO PERDIDO, JOHN MILTON

Com uma mística claramente cristã,  o poeta inglês John Milton (Londres, 1608-1674), compôs um Poema universal (em dez Cantos) muito mais evangélico do que a Divina Comédia, de Dante. Embora em ambos a essência permanente, o conteúdo poético e espiritual seja a religião.

Esteticamente, o “Paraíso Perdido” trata da visão cristã da origem do homem, da rebelião e queda dos anjos, da tentação por Satã, da promessa da Redenção futura.

A proposta inicial, o chamado argumento do Canto I, é bíblico: a desobediência de Adão e Eva personalisados e universalisados em “o homem primeiro” da qual resulta a Queda e a perda do Paraíso.

“Do homem primeiro canta, empírea Musa / A rebeldia – e o fruto, que, vedado,/ Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo / A morte e todo o mal na perda do Éden” (IV, 1-4)

Nada nestes versos está longe da teologia bíblica, diria mesmo que obedece ao pensamento paulino sobre o pecado e a morte, e sobre o homem pelo qual ambos entraram no mundo,  no sentido que o apóstolo escreve aos Romanos, cap. 5.  Uma síntese poética da chamada doutrina bíblica dos dois Homens. 

Opondo-se ao pecado e à morte e trazendo a redenção, na mística cristã formulada no próprio Poema, Milton faz a descrição do sublime do redentor, a quem chama “Vencedor potente”:

“Até que Homem maior pôde remir-nos / E a dita celestial dar-nos de novo”. (IV, 5-6)

Ao deslocar o lugar terrenal do Éden para uma concepção espiritual,  que refere como “dita celestial”, ou seja, ventura, boa fortuna, felicidade,  John Milton coloca num dístico poético todo o sublime da Redenção, que no próprio livro do Genésis – afinal invocado em todo o Primeiro Canto do poema épico – se revela na expressão divina, dirigida à serpente (Satã): “ E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente: esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn, 3:15).

 

 

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