Charles Kenny: “Um mundo melhor para as crianças”

 O economista  oferece uma abordagem diferente sobre a pobreza global.

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Desde que os Estados-membros da Organização das Nações Unidas estabeleceram o plano de metas intitulado Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em 2000, uma das prioridades mundiais têm sido a infância. Três dos oito objetivos traçados estão diretamente ligados ao bem-estar das crianças: erradicação da miséria e da fome; ensino básico universal; e redução das taxas de mortalidade infantil em dois terços. A cada ano, bilhões de dólares são gastos anualmente com medidas neste sentido, mas boa parte das crianças do mundo continuam escravas da miséria, da forme e do abandono. O prazo fixado para o cumprimento das metas da ONU é o ano de 2015. A grande dúvida é se, neste ano que resta, dará tempo de conquistar, ao menos, avanços significativos, sobretudo em regiões de pobreza endêmica como a África Subsaariana, o Sul e Sudeste asiáticos e amplas regiões da América Latina.
Há gente otimista e que, apesar de transitar com desenvoltura pelas tabelas e gráficos, não deixa de acreditar que o ser humano, com a ajuda de Deus, pode, sim, mudar o mundo. Charles Kenny, pesquisador sênior do Instituto de Desenvolvimento Global, afirma-se um “economista otimista” e relata indícios convincentes de que o copo da economia global está, pelo menos, meio cheio. Ele tem uma abordagem baseada em dados concretos para o estudo da pobreza mundial, e particularmente, a parte mais fraca afetada por ela: as crianças. Kenny afirma que, mesmo que nem todas as metas do milênio sejam atingidas até lá, o progresso tem sido significativo. Nesta conversa com Timothy C. Morgan, editor sênior de Christianity Today, Kenny aponta para luzes no fim do túnel. E indica caminhos para chegar a elas.

CHRISTIANITY TODAY – Seu livro descreve um declínio histórico da pobreza global. Mas a recessão econômica mundial, agravada com a quebra do sistema habitacional americano e a crise europeia, com todos os seus reflexos na maioria dos países a partir de 2009, não aumentou novamente os índices de pobreza?

CHARLES KENNY – Se eu escrevesse o livro hoje, daria uma resposta mais positiva. O que ficou claro é que o continente africano, a África Subsaariana em particular, está tendo uma de suas melhores décadas. Alguns dos países com crescimento mais rápido do mundo estão na África, e esses países duplicaram seus produtos internos brutos (PIBs) ao longo dos últimos dez anos. É algo realmente impressionante. Como resultado disso, temos visto uma redução muito dramática da pobreza. Se olharmos para a África nos anos 1990, a proporção de africanos que viviam com US$ 1,25 por dia [cerca de 3 reais, renda considerada o limiar da pobreza absoluta] subiu. Mas, a partir de 2000, ela foi caindo de novo. A renda tem melhorado praticamente em todos os lugares ao longo da última década.

Os avanços resistiram à crise, então?

Era de se esperar que, em 2008 e 2009, houvesse uma mudança dramática em andamento em relação à pobreza e renda. De fato, houve uma diminuição. Não caíram tanto quanto no Ocidente, e voltaram ao que eram mais rápido. Nem mesmo a maior crise econômica desde a Grande Depressão [de 1929, nos Estados Unidos, que arruinou boa parte do mundo na época] reverteu o progresso. Em relação à mortalidade infantil, a África teve uma década espetacular. Em um período de quatro ou cinco anos, por exemplo, o Senegal reduziu em dois quintos a taxa de mortalidade infantil. É uma grande queda. Os últimos dez anos mostraram um progresso muito mais rápido na redução da mortalidade infantil. O número de crianças africanas que devem morrer antes de completar cinco anos de idade caiu pela metade. O progresso tem sido historicamente sem precedentes. A África está assumindo a liderança ao longo da última década na redução da mortalidade infantil. É uma história maravilhosa!

Alguns especialistas ainda veem o copo africano meio vazio, sobretudo em regiões assoladas pela guerra.

Existe muito sofrimento desnecessário em todo o mundo. Há miséria de todas as formas, em lugares como o Congo. Não quero soar ridiculamente positivo diante de tanta miséria. No entanto, mesmo no Congo, de acordo com a pesquisa, o índice de mortalidade infantil está caindo. Está caindo de grandes alturas, mas está caindo. Existem pequenos sinais de progresso. As pessoas que vivem em regiões devastadas pela guerra estão mudando comportamentos que estão melhorando vidas, especialmente as de suas crianças. Mesmo no Congo, as taxas de vacinação estão altas, e mais pais estão ensinando seus filhos a lavarem as mãos depois de irem ao banheiro. Isso está reduzindo o tipo de mortalidade que pode ser evitado – causado, por exemplo, por diarreia e cólera. Mesmo em lugares extremamente miseráveis, existem esses pequenos mas significativos avanços.

Há questões culturais envolvidas em certos procedimentos. Muitos povos africanos não fazem a correta higiene dos recém-nascidos por questões rituais. Existem iniciativas de conscientização neste sentido?

Um estudo analisou intervenções nas comunidades humildes. A ideia de que recém-nascidos são impuros era predominante em muitas dessas comunidades. Os recém-nascidos não eram lavados nas primeiras 24 horas após o parto, o que aumentava drasticamente o índice de mortalidade neonatal. Os pais, então, foram incentivados a utilizar práticas de parto mais seguras, e foram então capazes de reduzir bastante as mortes. Devemos nos preocupar com o paternalismo. No entanto, neste caso em particular, acredito que não deveríamos nos preocupar tanto. Essas técnicas estão claramente ajudando a salvar crianças, algo que é do interesse de todos. Há abordagens que envolvem algumas maneiras de convencimento – incentivos para as pessoas seguirem pelo caminho correto, e não se comportarem de uma determinada maneira.

Que tipo de incentivo?

Um bom exemplo são as vacinas. A criação de um campo de vacina é bastante complicada. Se apenas um terço dos pais levarem seus filhos para serem vacinados, o resultado não será tão eficaz. Portanto, os agentes de saúde davam um saco de lentilhas aos pais que vacinavam seus filhos. Esse pequeno incentivo aumentou significativamente o número de pais e crianças que compareceram.

Quem deve receber a maior parte do crédito pela redução da pobreza?

As pessoas. Por trás disso tudo, estão os pais que decidiram fazer escolhas diferentes. É maravilhoso construir uma escola, mas se os pais não quiserem que os filhos frequentem as aulas, é muito difícil convencê-los. O que está elevando as taxas de matrícula? São os pais, que decidem mandar seus filhos à escola. O que está elevando as taxas de vacinação? De novo os pais, que resolvem vacinar seus filhos. Depois das pessoas, há ainda muito crédito a ser distribuído por toda parte – a começar pelas ONGs e a sociedade civil, os governos e as Nações Unidas. A redução pela metade das taxas de mortalidade infantil ao longo de 25 anos mostra que existe realmente muito crédito a ser dado a essas pessoas.

A questão da fé está sendo particularmente eficaz na melhoria da vida das crianças?

Organizações religiosas e ONGs têm a reputação de não estarem nesse tipo de missão para benefício próprio. Eles são mais inclinados a mudarem as regras do que o governo ou agências locais. Por isso, é muito mais razoável que organizações religiosas e ONGs tenham mais credibilidade para trabalhar nessas questões do que os governos locais. Se as organizações religiosas encontram lugares onde podem aproveitar o impacto do seu dinheiro, gastando-o com um número menor de pessoas, elas criam mudanças ao longo do tempo que se espalham para o resto. Então, é um papel muito importante. Quem encontra uma maneira de aumentar o número de pessoas presentes nos campos de vacinação? As organizações religiosas e as não governamentais. Há um monte de intervenções básicas na saúde infantil, em particular, mas também intervenções educacionais, onde queremos uma cobertura geral. Queremos que todas as crianças tenham acesso a isso. A melhor maneira de fazê-lo, em longo prazo, certamente envolve o governo – mas isso não significa, necessariamente, que o poder público tem que fazer tudo isso. Alguns dos maiores avanços na prestação de serviços de forma sustentável e mais eficiente vêm de instituições religiosas e de organizações não governamentais.

O senhor tem alguma dúvida acerca do modelo básico de apadrinhamento de crianças?

Alguns desses programas não funcionam tão bem quanto outros. Isso tem a ver com um monitoramento cuidadoso e a certificação de que são as crianças que recebem os benefícios, e não outras pessoas. Isso, aliás, se aplica a qualquer programa de desenvolvimento. A ligação individual, especialmentre se a criança está escrevendo para seu padrinho, dá a ele a possibilidade de verificar se seu dinheiro está realmente sendo usado para fazer o bem. Também me preocupo com a questão da rentabilidade. Mas junto com essa preocupação vem um tipo de choque de realidade – de que essas pessoas poderiam não estar dando dinheiro algum se não tivessem tido uma ligação pessoal com alguém. Se tiver que escolher entre um programa muito eficaz sem financiamento e um programa um pouco menos eficaz com financiamento, escolho o segundo. Temos que ser realistas. É um debate difícil. Temos que fazer o cálculo moral, sempre que possível, da rentabilidade na saúde. Também temos que estar cientes de que a quantia de dinheiro muda dependendo da quantidade de pessoas que desejam que esse dinheiro exista em primeiro lugar. Estou bastante disposto a acreditar que existem mais programas eficazes para melhorar a vida das crianças no mundo em desenvolvimento do que os programas de apadrinhamento de crianças. Mas, ainda assim, eu preferiria o programa menos eficaz com dinheiro.

A propaganda negativa em torno dos avanços sociais na África não prejudicam a atração de novos investidores sociais?

Sim. Um problema que tenho com a atual estratégia de marketing dominante de muitas ONGs e até mesmo de algumas organizações religiosas é que elas dizem que tudo é uma miséria na África. Isso dá às pessoas uma saída moral. Se tudo é miserável na África, e sempre foi miserável, apesar de tudo o que fizemos para tentar ajudar, então o seu dinheiro será desperdiçado se você quiser gastá-lo lá. Então, você não gasta. Você pode ter um dever moral teórico de ajudar aqueles que estão em situações piores que você. Mas, se você não pode de fato ajudá-los – isto é, se ouve dizer que todos os esforços nada adiantam –, é melhor gastar o dinheiro com um novo iPad.

O senhor acha que o mundo melhorou?

Eu acho que o mundo está melhorando. Isso está em parte ligado ao trabalho de ONGs, organizações religiosas, governos, dinheiro de contribuintes, tudo isso. O que significa que, na verdade, todos nós temos uma responsabilidade moral com tudo isso.

 

Fonte: Timothy C. Morgan, Christianity Today.

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