Jonas: a vocação de anti-evangelista e anti-herói

 

 

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© João Tomaz Parreira

 

A responsabilização de Jonas, tornou-se dupla ao entrar no navio para Társis.

A responsabilidade estava inteira nas suas mãos: “Dispõe-te (a melhor versão da JFA na Bíblia Scofield) ou “Levanta-te”, era a solicitação divina para o exercício de Jonas, com a consciência da sua própria liberdade. Foi esse impulso mal concluído, que responsabilizou duplamente o profeta.

De profeta/evangelista passou a viajante, dir-se-ia clandestino por força da missão que renegou e escondeu. Nas suas mãos passou a deter os destinos não apenas de Nínive a que fugia, mas também da embarcação e da comunidade de marinheiros em que entrara.

É neste aspecto duplo que a Bíblia Sagrada antecipa, no Livro de Jonas, as literaturas universais que tratam de navegações e de naufrágios, de homens com vocação para as grandes missões da humanidade e de marinheiros, com chamada para profeta ou para a sensibilidade literária (como Jonas, o próprio autor)

Jonas e a sua viagem, que supôs antecipadamente calma, no remansoso  grande mar Mediterrâneo, a passear no convés com o rosto ao encontro do sol meridional, apreciando o trabalho dos homens do mar, leva-me a pensar na personagem do romance “Lobo do Mar”, do norte-americano Jack London (1876-1916), o intelectual Van Weyden que lembrava a “exaltação plácida com que me fui instalar no convés superior da frente, mesmo por baixo da cabine do piloto, e deixei que o mistério do nevoeiro se apossasse da minha imaginação” (1).

Podemos imaginar Jonas aqui. A pensar no mistério de uma terra distante, a provável Cádiz ainda por haver, na antevisão de um porto longínquo dos problemas do seu semelhante, impenitente e pagão de Nínive – uma “grande cidade” com mais de cento e vinte mil problemas.

“Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela” (Jonas, 1,2)

Podemos idear um homem do chão firme e com uma missão que não exigia transporte marítimo, uma missão terrestre, ainda que pudesse molhar os seus pés nas águas do Tigre. Esse homem que se levanta, mas para “fugir de diante da face do Senhor para Tarsis” (1,3)

Como o outro anti-herói capitão Ahab, do romance “Moby Dick”, que vai à procura do perigo naturalizado na força da lendária baleia branca, o Leviatã de Herman Melville, Jonas vai psicologicamente no sentido inverso, vai em demanda da tranquilidade. A referência não é descabida, porque no próprio romance citado lemos esta passagem: “o padre Mapple profere um sermão acerca do profeta Jonas. (…) Onde está Cádiz, irmãos? Cádiz está em Espanha; tão longe por via marítima de Jope como Jonas podias ter navegado naqueles remotos dias”.

As longas viagens marítimas poderiam mergulhar os viajantes em imprevisíveis tempestades. Naquele tempo, como hoje, o mar envolvia os náufragos com “o abraço da Morte” – escreveu Jack London. Jonas, contra toda a sua previsão, encontrou-se no meio de uma tempestade assim. O calado dos navios de Társis conferia segurança, eram navios sólidos e faziam caravanas no mar (Ezq 27:25). Todavia, o mar e os ventos trocavam as voltas aos marinheiros e abatiam, por vezes, o orgulho da frota mercante dos reis.

As tempestades na viagem de Jonas

A partir do versículo 4 começa diegese clássica de uma tempestade e de um naufrágio iminente, com uma personagem que evidenciava a tranquilidade do corpo e da consciência dormentes. “Jonas porém desceu aos lugares do porão e se deitou, e dormia um profundo sono” (1:5).

A dialogia que se estabelece na narrativa, entre o mestre do navio e Jonas e os diálogos endo-narrativos (narrativa interior) dos marinheiros que o autor partilha connosco (1: 7-12), são de molde a colocar o leitor dentro do realismo da acção. E junta-se à tragédia quase a suceder a dramaticidade de um confronto: – “Que tens, dormente? Levanta-te, invoca o teu Deus; talvez assim Deus se lembre de nós para que não pereçamos” (1:6)

Tal como as obras citadas acima, o Livro de Jonas tem a universalidade da aventura e da transculturalidade, mas no sentido teológico e profético da obra missionária que visa levar o conhecimento da Palavra de Deus a pagãos ou homens de religião diversa.

Jonas não foi anti-herói de ficção

Mas Jonas não era um homem de ficção, evidenciava mesmo já alguns dos problemas do homem moderno, foi um raro nacionalista e tinha problemas de xenofobismo, pior do que isso, mostrava ter uma ideologia religiosa que marcou a sua consciência. Jonas era um liberal (o laissez faire laissez passé) no sentido de que achava que o homem não tinha que se imiscuir no modo como Deus trataria ou não com os pecados alheios. O que tivesse que acontecer a Nínive, acabaria por acontecer.

Reconhecia, no entanto, a bondade de Deus para com povos adversários de Israel, fazendo-o de um modo “politicamente correcto” (3, 9-10 e 4,1 “Mas desgostou-se Jonas extremamente disso, e ficou todo ressentido”), e, portanto, não abdicava do seu prisma exclusivista. Todo o conteúdo do seu Livro sublinha essas realidades: Jonas era real, tão real como os cento e vinte mil homens e mulheres da capital da Assíria.

Todavia, a pregar a um povo ribeirinho (rio Tigre), Jonas preferiu o rumor do mar para silenciar a sua consciência.

Jonas foi um profeta insensível? Não, foi apenas um homem a quem Deus chamou, mas um homem que vegetalizou o amor, agapé ou storgé, no seu coração: “Tiveste compaixão da aboboreira, na qual não trabalhaste, nem a fizeste crescer” – disse-lhe o Senhor. E dos homens e das mulheres de Nínive não.

 

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