Os sinais da segunda Reforma: a fenda crescente dentro do Novo Testamento

 

 

 

 

Paulo Brabo

 

 

“Os dogmas de um passado tranquilo são inadequados para o tempestuoso presente. O momento envolve dificuldades altíssimas, e devemos nos mostrar à altura do momento. As circunstâncias são novas, por isso devemos pensar de modo novo e agir de modo novo. Devemos emancipar a nós mesmos, e desse modo salvar o nosso país.” (Abraham Lincoln, Mensagem Anual ao Congresso, 1º de dezembro de 1862)

 

O cristianismo institucional está longe de desconhecer a ruptura. Na verdade, as rupturas existem precisamente porque o cristianismo institucional escolhe definir-se por elas; decide vez após outra que o modo de explicar ao mundo quem realmente é deve ser sua separação formal daquilo com que afirma não poder concordar.

Esse forte desejo pela distinção, esse anseio por não ser contado equivocadamente entre os errados, inspirou tanto a divisão entre Igreja ocidental e Igreja oriental no século XI quanto a Reforma Protestante do século XVI. Essas duas grandes rupturas são mais exemplares do que únicas: antes da Reforma as divisões dentro da Igreja não eram coisa desconhecida; no universo protestante deslanchado pela Reforma tornaram-se a regra.

As facções protestantes e evangélicas, sempre mais numerosas porque mais fragmentadas, existem porque acham coisa fundamental explicar e anunciar ao mundo o que as distingue de todas as outras. O que as une, talvez, é entender que seu anseio por distinguirem-se do catolicismo é maior do que aquele por se distinguirem uma das outras. Creem que todos rompimentos formais devem permanecer válidos, inclusive (ou especialmente) este.

As últimas décadas, no entanto, tem destilado os sinais de uma iminente e formidável Reforma no cristianismo institucional, e uma das muitas curiosidades desses presságios é que assinalam uma ruptura não só dentro dos protestantismos, mas dentro da própria Igreja católica.

O Novo Testamento está se partindo ao meio.

Em termos estritos, no entanto, o que está para quebrar é o movimento protestante-evangélico, e é disso que no momento podemos nos ocupar. Fique claro, portanto, que quando falo em Segunda Reforma não estou falando no sentido positivista ou positivo da coisa, como se um movimento deliberado de restauração (ou, para ser ainda mais retórico, de purificação) da alma protestante fosse coisa desejável, possível, necessária ou edificante. Estou falando simplesmente de uma ruptura que vejo como iminente; o futuro me pareceria mais interessante se esse rompimento não fosse inevitável, mas não tenho fé suficiente para crer nessa possibilidade.

Há diversos modos de se representar simbolicamente a tensão que ameaça rasgar o movimento evangélico-protestante. Alguns líderes explicam que o grande rompimento nascerá entre os que afirmam a inerrância da Bíblia e aqueles que não; outros garantem que a maré se fenderá quando todos os envolvidos se virem forçados a declarar sem subterfúgios se consideram legítimas as uniões homossexuais.

Tratam-se de tensões muito reais e muito inter­li­ga­das, mas eu, de minha parte, prefiro articular a acumulada tensão do seguinte modo: o Novo Testamento está se partindo ao meio. Durante milênios a fresta entre os Testamentos separou cristãos de judeus, mas hoje a casa da cristandade – seu conteúdo simbólico e de significado, por assim dizer – está prestes a se dividir internamente, e como nunca aconteceu. Depois de aplicar sua pressão por cinco séculos, a obsessão protestante com a letra e com o literal está tornando finalmente impossível a convivência de textos que por muito tempo viveram em paz.

Uma nova e enorme falha geológica pode ser vista cortando o Novo Testamento, e divide muito claramente os evangelhos (as quatro biografias que narram a passagem de um Jesus de carne sobre a terra) de todo o resto, em particular das cartas do apóstolo Paulo.

Para desenhar brevemente a situação é preciso lembrar, em primeiro lugar, que quando fala em doutrina e dogma, em teologia e inerrância, o movimento evangélico-protestante está falando essencialmente de Paulo, e este lido com os óculos de Lutero. Pode ser injusto afirmar que Paulo inventou a igreja institucional (eu mesmo sou contado entre os que o isentam dessa culpa), mas é mais difícil negar que a igreja institucional apropriou-se de Paulo desde o início, e que sobrevive ainda nos nossos dias de sugar sua paixão, seu zelo e sua vitalidade.

Que Paulo esteja certo, e que sua interpretação particular de Paulo esteja certa, tornou-se fundamental para toda facção de herança protestante da igreja. Se devemos crer no seu próprio testemunho, Paulo tornou-se para a igreja contemporânea muito mais importante do que sonhou ou do que desejou ser.

Em particular, é importante para o protestante que Paulo, e não Jesus, deva ser entendido literalmente. Inerrante inerrante deve ser Paulo, quando delineia uma hierarquia eclesiástica, quando fornece insumo para a fábrica da predestinação e quando parece condenar com zelo particular os homossexuais. É muito menos importante que o Jesus dos evangelhos seja levado tão a sério. Na verdade, é importante que Jesus não seja entendido literalmente – especialmente quando exige contrassensos e explica por exemplo que as prostitutas entram no céu antes dos carolas, que quem não se desfizer de tudo que possui não tem cacife para ser seu discípulo, que o certo é emprestar sem esperar retorno, que seus seguidores serão reconhecíveis pelo amor e não pela ortodoxia, que certo é perdoar sem trâmites e tratar nossos inimigos como gente querida. Exige-se que os evangelhos sejam inerrantes quando falam de milagres que ratificam a causa e não exigem uma mudança de atitude; que o próprio homem Jesus esteja certo naquilo que explicitamente diz e claramente acreditava… aparentemente não vem ao caso.

(Um dos poucos casos em que se prefere que Paulo não seja entendido literalmente, é claro, é quando ele explica, com a paixão de sempre, que entender literalmente qualquer Escritura é rigorosamente anulá-la: é não entendê-la, é matá-la e ser morto por ela, é recusar-se impiamente a aprender e a ser transformado pela sua mensagem.)

A estratégia da igreja de herança protestante foi desde sempre, portanto, [1] apegar-se a uma interpretação tendenciosa e seletiva de Paulo, escolhendo onde aplicar ênfases e onde anular as ênfases do autor que alegam honrar, e [2] ignorar, para todos os sentidos práticos, as ênfases, as práticas e as exigências do Jesus dos evangelhos.

Na economia protestante os evangelhos têm o papel de reforçar a realidade dos milagres e de fornecer na cruz e na ressurreição o pano de fundo da redenção – e não muito mais do que isso. Entende-se desse modo que tudo que Jesus disse e fez entre o nascimento virginal e a crucificação não tem qualquer implicação para a doutrina e para a conduta de um seguidor seu. “Os evangelhos não têm teologia”, lembrava periodicamente um professor do Seminário Batista mais próximo de mim, e com isso queria dizer várias coisas: que “teologia” é um valor auto­evidente, uma forma de virtude, um verdadeiro imperativo categórico; que a teologia do Novo Testamento, entendida como conteúdo aplicável da revelação, encontra-se sempre nas palavras de Paulo e nunca nas de Jesus; que o conteúdo integral dos evangelhos – seus embates, seus desafios, suas subversões – pode e deve ser ignorado sem maiores problemas pelos que acreditam ser seguidores de Jesus.

A apropriação seletiva de Paulo e o simultâneo escanteamento do Jesus dos evangelhos, como venho dizendo, são tão antigos quanto a igreja institucional e garantem a sua permanência. A igreja de herança evangélico-protestante, em especial, depende desses artifícios e os fomenta. Mas embora se trate de uma demarcação antiga, fatores novos entraram em cena nas últimas décadas que têm acentuado a tensão entre os polos, jogando um contra o outro o Jesus dos evangelhos e o Paulo das cartas. Muitos evangélicos já intuíram que devem escolher entre um e outro: muitos, mesmo sem o saber, já o fizeram.

A primeira novidade é uma imagem revigorada do Jesus dos evangelhos, especialmente (mas não só) dentro da subcultura evangélico-protestante. Não escapou à atenção de certos pensadores cristãos o fato de que, embora o mundo ocidental esteja cada vez mais secular e encare com desconfiança crescente as religiões em geral e o cristianismo em particular, o índice de aprovação do homem Jesus – o gentilíssimo e implacável filho do carpinteiro – permanece em alta mesmo diante de gente não-religiosa. O inclassificável rabi da Galileia – em sua extravagante defesa das minorias, seu intransigente compromisso com a não-violência, seu chamado subversivo à gentileza universal – é o herói não-cantado de praticamente… todo o mundo. O Jesus das narrativas dos evangelhos é tido como arauto e precursor de todo avanço social bom, generoso e inclusivo que estamos começando a ver implantados nos nossos dias, e muitos que reconhecem desse modo a singularidade de Jesus não se dobrariam por nada no mundo diante do Cristo da teologia, o Salvador glorioso sentado imperialmente à direita de Deus.

Uns poucos mas influentes escritores de herança evangélica, em especial Philip Yancey, decidiram pasmar deliberadamente diante desse mistério. Em obras como O Jesus que eu nunca conheci, Yancey articula o paradoxo da singularidade do Jesus homem para um público que por milênios o ignorou: os declarados seguidores do Cristo de glória. Lendo Yancey, muitos cristãos evangélicos viram-se obrigados a pesar pela primeira vez o que implica acreditarem ter no céu um Salvador que na terra foi homem tão indomável e singular.

Outro fator que tem mostrado seu peso é, dentro da mesma sub­cultura evangélica, um renovado interesse e uma nova ênfase sobre a graça.

Curioso é que quem originalmente vislumbrou na pessoa de Jesus e explicou ao mundo a ideia de graça – a postura divina de aceitar e de amar com base no seu próprio cavalheirismo (e não, como fazemos os homens, com base no mérito ou demérito de quem está sendo amado) – foi nada menos do que o apóstolo Paulo. Durante milênios, no entanto, os teólogos mantiveram a graça acorrentada às cartas do apóstolo, onde sob o rótulo arbitrário de “teologia” conseguiam conter o estrago que a ideia podia fazer em seus dogmas e instituições.

Ao longo das últimas décadas gente tão diversa quanto H. G. Wells, Paul Tournier, Caio Fábio, Brennan Manning e J. Harold Ellens têm contribuído para libertar a graça dessas correntes, deixando-a correr como uma criancinha ao abraço de sua origem: as palavras, as ênfases, a postura e as histórias do Jesus dos evangelhos.

“Graça” deixou de ser um conceito teológico ou um ingrediente da fórmula da redenção, e passou a ser entendida como a verdadeira definição do caráter do Deus de Jesus – o Deus de quem Jesus falava e cuja celebração ele vivia. Ao contrário de qualquer outra divindade desenhada ou descrita pelos homens, o Deus de Jesus é absolutamente apaixonado pelo homem comum, o pecador ambíguo e sem ficha limpa que não moveu um dedo para barganhar ou merecer a divina atenção. Esse Deus intransigente em sua generosidade é o Deus que Jesus encarnava: um Deus que, por ser tão irresistivelmente humano, tão graciosamente humano, todo homem deveria ser capaz de desejar.

O terceiro e decisivo fator a entrar em cena é mais difícil de classificar. Podemos chamá-lo provisoriamente de crise de relevância das porções do Novo Testamento tida como normativas.

Quando falam da Bíblia como sua “única regra de fé e de conduta” protestantes e evangélicos estão falando da Bíblia inteira, do Velho ao Novo Testamento, com uma única e notável exceção: os próprios evangelhos. Como observaram H. G. Wells, H. P. Lovecraft, Bernard Shaw e Soren Kierkegaard, nenhuma nação, nenhuma igreja – nenhuma instituição humana – ousou embasar seus princípios e sua conduta sobre as palavras e sobre a postura de Jesus, o rabi de pés empoeirados que não tinha onde reclinar a cabeça. E se não o fizeram foi porque o Jesus dos evangelhos simplesmente não pode ser sequestrado, não se dobra por nada neste mundo às exigências normativas de uma instituição. Nenhuma instituição, nenhum discurso ou ideologia, nenhuma teologia sobrevive ao Sermão do Monte.

A solução protestante para esse embaraço foi tomar como normativas as porções do Novo Testamento não tocadas pela subversão de Jesus, e encontraram nas cartas de Paulo um lastro perfeito para suas ambições ideológicas.

A igreja de matiz evangélico-protestante sobrevive, desse modo, de dividir ideologicamente o Novo Testamento em duas porções: de um lado os quatro evangelhos, do outro todo o resto. Jesus, o subversivo professor itinerante, é mantido prisioneiro nos evangelhos, de onde não pode fazer mal a ninguém.

Na prática, as coisas funcionam assim: tudo que Jesus diz é declarado contingente; tudo que Paulo diz é considerado normativo. Jesus não quer nos ensinar nada, Paulo quer nos ensinar tudo. Quando Jesus diz a seus discípulos que se desfaçam de seus bens, aquilo só se aplica àqueles ouvintes naquelas circunstâncias; quando Paulo diz o que quer que seja, o que ele diz se aplica a todos os ouvintes em quaisquer circunstâncias. O que Jesus diz pode ser ignorado, as instruções de Paulo são ensino eterno.

Esse regime funcionou por muito tempo, até que, recentemente, o mundo começou simplesmente a mudar depressa demais. Finalmente, parte da igreja sentiu-se pressionada a deixar de fingir que os dilemas de que pesavam sobre Paulo dois mil anos atrás são os dilemas que pesam sobre nós hoje.

Com toda a relutância e não sem controvérsia, parte da igreja protestante rompeu recentemente com o paradigma “Jesus é contingente, Paulo é normativo”. Nos Estados Unidos, a igreja presbiteriana, a igreja evangélica luterana e a igreja episcopal já aprovaram, cada uma a seu tempo, a ordenação de pastores homossexuais, e esse exemplo deve bastar. Em decisões como essa, a igreja professa que o parecer do Apóstolo sobre um assunto importante era, numa palavra, condicionado: limitado pela sua posição na sua própria época, da mesma forma que sua postura sobre a escravidão e sobre o papel da mulher.

Depois de tanto tempo sustentando o contrário, essa é uma confissão especialmente custosa para a igreja fornecer. Equivale a confessar: “as posições do apóstolo Paulo em suas cartas foram determinadas pelas circunstâncias em que as cartas foram escritas. Suas exaltações são legítimas, mas seus pareceres não têm necessariamente vocação para a eternidade. As porções do Novo Testamento que críamos normativas na verdade não são. As circunstâncias são novas, por isso devemos pensar de modo novo e agir de modo novo.”

Estou convicto de que o apóstolo assinaria em baixo de cada palavra dessa confissão, mas ela exige a simultânea destruição do santuário que construímos e temos estado cultivando para o ídolo de Paulo – santuário que Paulo, que imitava Jesus também em não querer o primeiro lugar, por certo apaixonadamente reprovaria.

O verdadeiramente trágico, no entanto, não é que a igreja protestante tenha decidido (sem a permissão dele) que Paulo é normativo, e sinta nos nossos dias o peso de ter de rever ou não essa posição. O trágico é que ela tenha decidido que Jesus não é normativo, e que esteja muito longe de reconsiderar essa posição.

É trágico porque as porções do Novo Testamento que a igreja tomou por normativas têm pouco a dizer sobre os dilemas que verdadeiramente torturam neste momento o nosso mundo. Essa é sua crise de relevância. Paulo tem pouco ou nada a dizer sobre o consumismo, sobre a esquizofrenia do acúmulo de honras e de riquezas, sobre os abusos do capitalismo, sobre os méritos da frugalidade e da singeleza, sobre o milagre de deslumbrar diante do pequeno e do casual e do belo, sobre o valor de contar histórias, sobre justiça social, sobre os desfiguramentos da luta pelo poder, sobre a acolhida dos marginalizados, sobre os méritos e os riscos de amar e de ter amigos, sobre o desafio da gentileza universal, sobre as armadilhas das instituições, sobre as profundezas da humildade, sobre o júbilo de existir e de repartir, sobre as enormidades da não-violência. Dessas e outras causas, que destroçam a alma e determinam o presente de todos e o futuro do nosso mundo, ocupa-se o Jesus irritadiço e paciente que aguarda nos evangelhos. E enquanto aguarda ocorre a ele ocasionalmente repetir: “Porque vocês me chamam de ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?”

Essa é a Reforma/Ruptura de que estou falando: aquela que já existe, e que finalmente se rasgará, entre os de herança protestante que confessam que partes do Novo Testamento que consideramos normativas não necessariamente são, e os que se recusarão a confessar que as partes do Novo Testamento que não consideramos normativas deveriam ser. Falo do abismo que já existe entre os que creem que a salvação reside numa letra ou num espírito, num código ou num caminho, numa lista fechada de legislações ou na obra cada vez mais exigente e sempre inconclusa do amor.

Essa, pode ser necessário repetir, não é uma discussão entre Jesus e Paulo, que que eu saiba nunca deixaram de estar de acordo. Reformar é romper, e se achamos necessário romper é sempre por uma questão de autoridade e de identidade. Ou seja: de poder. A poeira vai levantar e vai descer, e os seguidores de Jesus, que muitas vezes não o conhecem por esse nome, que não ignoram que a letra mata e o espírito confere vida, que sabem que graça também se diz gentileza e que gentileza é outro nome para relevância, que tomam por normativo o amor e que provavelmente discordam entre si sobre todas as outras coisas, vão continuar fazendo o que sempre fizeram.

No final Paulo parece ter estado certo o tempo todo, e Deus continua usando o método da insensatez, de dar preferência à solução que os homens consideram mais improvável. A igreja apostou que as sementes do Novo Testamento que tinham vocação de brotar para a eternidade nasceriam das alturas da teologia e do palácio que construímos para manter Jesus no céu, para onde queremos subir mas de onde não esperamos que o seu reino venha. As sementes que acabaram brotando subiram do solo árido da Judeia e da Galileia; desta terra em que o Filho do Homem que encarnou o Amor caminhou, morreu e – se tudo der certo – vive.

 

Fonte: Bacia das Almas.

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