O naufrágio clássico do Apóstolo Paulo

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© João Tomaz Parreira

 

Num estilo pouco habitual de se apresentar, o apóstolo Paulo sente-se obrigado a evidenciar, pela sua própria mão, os naufrágios que teve.

As contextualizações verosímeis que possamos fazer, dirigir-se-ão para  trechos relativos ao e da autoria do apóstolo, onde podem estar irrevelados desastres marítimos, em navegações de cabotagem. (Act 13,4; 18,18 e Gal 1,21).

Aqueles que Paulo quantificou: “três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;” (Tris errabdisthên apax elithasthên tris enaugêsa nukhthêmeron en tô buthô pepoieka) (2 Cor 11: 25, Nestle-Aland)

Como podemos, por fim, caracterizar a expressão forte, o “abismo” (do grego buthô, buthós, mar aberto/alto mar), senão como a metáfora abissal, em que se pressente o apóstolo em situação limite a nadar, após o naufrágio, ou a vogar salvo em bote salva-vidas?

Seja como for, o percurso de Paulo no Evangelho, sabemo-lo, começou com o drama de Damasco, as dificuldades da cegueira, e terá terminado nos anos sombrios de 60-70 da era cristã, após a morte de Nero e na “ditadura” não menos louca de Calígula.

Porém, estava-lhe reservado o derradeiro naufrágio, que só o evangelista-médico Lucas pode descrever em letra de forma, com uma diegese perfeita e de escrita clássica, contendo uma epicidade que ombreia com textos do género, como a Odisseia, por exemplo.

Lucas reconstituiu, de memória obviamente, mas memória de quem passou pelos factos, a última viagem de Paulo para morrer em Roma.

Paulo nunca teve um monte da transfiguração, ou melhor, teve-o com a transformação dos seus olhos em olhos cegos e o seu corpo despojado no chão desse caminho para Damasco. A sua vida e o seu superior ministério apostólico provam-no. Paulo encontrou-se com Deus na voz de Jesus Cristo, escreveu um dia um teólogo alemão (Karl H.Rengstorf).

Paulo fez derrocar algumas das estruturas religiosas pagãs da antiga Ásia Menor. Os dois episódios que Lucas narra: os exorcistas e os devotos do templo de Artémis, em Éfeso. No final do século I, o próprio Clemente Romano escreve sobre as peripécias, os “obstáculos e azares que caíram sobre” Paulo no seu longo e profícuo apostolado. “Sete vezes preso, expulso, lapidado, arauto no Oriente e no Ocidente, recebeu a glória celebrada da sua fé” (Carta de Clemente Romano aos Coríntios)

Deus para Paulo nunca foi um Deus fácil, foi Fiel, mas não facilitador. “A minha graça te basta” – dizia o Senhor ao apóstolo.

 

“E, embarcando nós em um navio adramitino…” 

Esta viagem com um naufrágio antes de aportar a Malta, não está no campo das hipóteses, foi real. A narrativa de Lucas na primeira pessoa do plural indica genuinamente que ia no navio com o Apóstolo. O ano está dentro da década de 60 A.D. Teria de percorrer mais de três mil quilómetros de Cesareia a Roma, incluindo os ventos. A viagem estaria a ocorrer no início da estação mais perigosa para a navegação (vs.9), entre Setembro e Outubro, cessando depois por causa do inverno. A data constata-se na referência que é feita ao Dia da Expiação (vs. 9 – “o jejum”, no grego nêsteian)

“No inverno”, diz a The International Standard Bible Encyclopedia, “as condições atmosféricas são muito menos estáveis, e ciclones poderosos se movem em direção ao leste, atravessando o Mediterrâneo e trazendo com eles ventos fortes”. A respeito do relato da viagem e do naufrágio, o autor de “The Voyage and Shipwreck of St. Paul (A Viagem e o Naufrágio de S. Paulo), Londres, 1866, p. 85 n”), James Smith escreve: “É interessante observar como cada acréscimo ao nosso conhecimento da cena da narrativa confirma a sua autenticidade e exatidão.”

De facto, na diegese de Lucas há uma veracidade historicista ligada à língua literária do autor, não apenas enquanto evangelista, mas também como exímio historiador. Como se determinou que havíamos de navegar para a Itália” (vs. 1); “E, como por muitos dias navegássemos vagarosamente” (vs 7); “Passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação” (vs 9)  E existe também a poética da tragédia. “E, soprando o vento sul brandamente” (vs.13) 

As qualidades evidentes de boa parte de obras clássicas como Odisseia e Ilíada, descobrem-se, com algum pormenor, em equivalentes construtivos da frase, no texto bíblico dos Actos dos Apóstolos.

No pormenor do estilo da narrativa poética daquelas obras, existem efeitos expressivos, que aparecem de igual modo na própria sintaxe dos Actos, por exemplo, a construção de orações coordenadas: “e… e…. e…”.

Alguns exemplos:

E, tendo atravessado o mar (vs 5); E, como por muitos dias navegássemos vagarosamente (vs.7); E, soprando o sul brandamente (vs.13); E, sendo o navio arrebatado, e não podendo navegar contra o vento ( vs 15); E, andando nós agitados por uma veemente tempestade (vs 18)

Estas ligações não são detalhes, são a vida a decorrer, e conferem ao texto uma realidade que envolve o leitor nos sucessos, um efeito tranquilo na narração. Lemos isto no tom diegético (narrativo) do desastre no cap. 27 dos Actos; a crónica, chamemos-lhe assim, vai subindo os degraus da escada da expectativa do leitor.

No texto lucano, o Evangelista coloca a narrativa dentro da própria moldura da História e da biografia do Apóstolo Paulo. De tal modo o consegue, que a narrativa do naufrágio até aos nossos dias permanece como um dos mais importantes documentos sobre a antiga arte de navegar.

 

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