Sionismo evangélico?

 

Marcos Amado

 

 

O salão de conferências do Hotel Intercontinental de Belém, a cidade onde Jesus nasceu, fervilhava com cerca de 500 cristãos provenientes de mais de 20 países. E ali estava eu, em uma das mais importantes cidades da Cisjordânia (incrustada no Estado de Israel e com uma população maioritariamente muçulmana), participando de um transcendente encontro organizado pela milenar, outrora grande, mas hoje pequena, igreja palestina. Era o segundo dia da Conferência e ainda estava tentando digerir tudo o que estava vendo e escutando.

Lá fora, barreiras foram levantadas e jovens palestinos arremessavam pedras contra soldados israelenses, que respondiam lançando granadas de gás lacrimogênio. Pediram que não saíssemos até que a situação se acalmasse, o que demorou de acontecer. Neste meio tempo, uma destas granadas explodiu numa das janelas do hotel em que estávamos hospedados, quase ferindo um dos hóspedes com os estilhaços.

A escassos três quilômetros dali, aparentemente indiferente a toda esta agitação, a Igreja da Natividade continuava recebendo os milhares de turistas que por ela passam diariamente para ver o lugar tradicionalmente conhecido como o local de nascimento do Príncipe da Paz. O Campo dos Pastores, onde os anjos apareceram a alguns humildes campesinos numa determinada noite, há dois mil anos, para anunciar paz na terra e o nascimento do Rei Jesus, permanecia impassível, como se convicto de que, talvez não agora, mas, um dia, a paz chegaria.

À medida que a conferência se desenvolvia, algo ia ficando muito claro na minha mente: a igreja evangélica ocidental (a) talvez seja parcialmente responsável pelo sofrimento que os cristãos palestinos vivem há mais de cinco décadas e (b) está contribuindo para criar barreiras para a comunicação do amor de Cristo aos muçulmanos da Palestina e de todo o mundo.

É provável que em um primeiro momento esta afirmação possa parecer muito radical, mas, nas próximas linhas, tentarei explicar por que estou fazendo estas afirmações.

Quando o Estado de Israel foi formado, em 1948, milhares de palestinos árabes (muçulmanos e cristãos) foram expulsos das terras onde eles e seus ancestrais viviam há mais de mil anos. Isto fez com que campos de refugiados palestinos (volto a insistir: compostos por muçulmanos e cristãos) fossem formados em diferentes países do Oriente Médio e na própria Palestina. Estes campos existem até hoje. As pessoas que neles vivem são consideradas cidadãs de segunda classe, sem esperança e sem perspectiva de um futuro melhor. Milhares de árabes palestinos, assim como de judeus, já morreram como resultado das tensões causadas por esta situação. A cada semana, mais mortos (e famílias dilaceradas) são adicionados à lista.

Esta realidade faz com que os muçulmanos em geral, mas particularmente os que vivem no Oriente Médio e Norte da África, alimentem uma forte animosidade contra os judeus e cristãos de todo o mundo.

É claro que, independentemente da nossa posição teológica, não é difícil entender a razão de tanta animosidade em relação aos judeus. Porém, por que esta animosidade (para não dizer ódio) se estende aos cristãos? Em parte por causa das convicções e ações de cristãos evangélicos sionistas.

Para entendermos melhor o que isto significa, é importante primeiramente definirmos dois termos:

Sionismo: é “o movimento nacional para o retorno do povo judeu à sua pátria e a retomada da soberania judia na Terra de Israel. Desde o seu início o sionismo advogou objetivos tangíveis e espirituais. Judeus de todas as tendências – esquerda, direita, religiosa e secular – formaram o movimento sionista e, juntos, trabalharam para alcançar os objetivos traçados.” [1]

Sionismo Cristão Evangélico: é o apoio dos cristãos evangélicos “à causa sionista… Alguns cristãos creem que o retorno dos judeus a Israel está em consonância com a profecia bíblica.” [2] É importante salientar que para tais cristãos Deus continua a tratar o povo de Israel como “a menina dos seus olhos”. A formação do Estado de Israel (com a extensão geográfica mencionada no Antigo Testamento) e a reconstrução do Templo em Jerusalém, são condições sine qua non para a volta de Cristo.

Portanto, o Sionismo Cristão Evangélico é um sistema teológico que não apenas reconhece o direito dos judeus de terem uma pátria (creio que a maioria de nós, cristãos, reconhece este direito), mas que vai além e adiciona a isto uma complexa interpretação literal das profecias do Antigo Testamento, aplicadas ao moderno Estado de Israel.

E qual é o resultado prático desta interpretação literal? Um apoio incondicional de milhões de cristãos evangélicos ocidentais a praticamente todas as decisões e ações políticas do governo israelense.

Isto não deveria nos surpreender, já que é um desenrolar lógico do Sionismo Cristão Evangélico. Se o Estado de Israel tem o mandato divino de controlar toda a Palestina e reconstruir o Templo em Jerusalém, e com isto criar as condições necessárias para a volta de Cristo, então devemos dar todo o apoio necessário para o governo israelense. Se nós apoiarmos o Povo de Deus (i.e., Israel), nós seremos abençoados!

Com isto:

O que às vezes se assemelha a uma limpeza étnica de árabes palestinos (muçulmanos e cristãos) é interpretado como se fosse a implementação da vontade de Deus e o cumprimento de profecias.

O muro de cerca de 10 metros de altura e de quilômetros de extensão, que separa Belém e outras cidades da Cisjordânia de Israel, e que traz consequências políticas, econômicas e sociais irreparáveis para os árabes palestinos (muçulmanos e cristãos), é visto como um mal necessário.

Cristãos sionistas de todo o mundo enviam milhões de dólares anualmente para Israel, para sustentar a criação de assentamentos considerados ilegais pelas Nações Unidas, acirrando a violência entre árabes e judeus.

Igrejas evangélicas no ocidente desenvolvem liturgias com aparatosos componentes do judaísmo vetero-testamentário, produzindo uma quase idolatria aos costumes e tradições judaicas.

Poderosas organizações cristãs ocidentais fazem um forte lobby junto aos seus governos para que aceitem a violenta repressão que o governo israelense faz sobre os árabes palestinos (muçulmanos e cristãos).

Estas mesmas organizações cristãs apoiam os esforços de grupos ortodoxos radicais judeus para a reconstrução do Templo em Jerusalém, o que implicaria na destruição da Mesquita de Omar e o Domo da Rocha, com resultados catastróficos.

É bem possível que à esta altura alguns já estejam se perguntando: por que repetir tantas vezes a expressão “muçulmanos e cristãos”? A razão é simples: geralmente nos esquecemos que, diferentemente do que acontece em alguns países muçulmanos, na Palestina existe uma igreja oficial e historicamente reconhecida e os cristãos palestinos também estão sofrendo como resultado das ações do Estado de Israel. Há uma igreja ancestral na “Terra Santa”, que está minguando não necessariamente por causa da perseguição dos muçulmanos, mas, principalmente, como resultado da política israelense, que tem o apoio de milhões de cristãos ocidentais.

Além disso, muçulmanos de todo o mundo estão acompanhando o desenrolar destes acontecimentos e chegam à conclusão de que há uma nova Cruzada sendo desencadeada contra os seguidores de Maomé. Isto traz um acirramento e polarização das posições, fazendo com que seja cada vez mais difícil para um cristão apresentar-se a um muçulmano e dizer que está trazendo as Boas Novas do amor de Deus em Cristo Jesus.

No “Compromisso da Cidade do Cabo” do Movimento de Lausanne, vemos que um dos aspectos mais importantes da Missão do Povo de Deus no século XXI é proclamar a Paz de Cristo a um mundo ferido e dividido.

Será que o Sionismo Cristão Evangélico está nos ajudando na tarefa de anunciar ao mundo, e particularmente aos muçulmanos, que Cristo é a nossa paz? Será que com o apoio incondicional que muitos de nós têm dado ao Estado de Israel, não estamos construindo enormes barreiras para que os muçulmanos entendam que a mensagem que Cristo trouxe com a Nova Aliança é uma mensagem de reconciliação? Será que, como cristãos, não podemos amar o povo judeu e orar pela paz de Jerusalém, sem que isto nos leve a sermos condescendentes com os abusos cometidos pelo governo israelense?

Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade. Ele veio e anunciou paz a vocês que estavam longe e paz aos que estavam perto, pois por meio dele tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito. (Ef. 2.14-18).

 

NB: O autor participa ativamente do trabalho de várias organizações missionárias brasileiras e internacionais. Porém, as ideias expressadas neste artigo são de sua exclusiva responsabilidade e não representam, necessariamente, o posicionamento teológico das organizações com as quais ele está envolvido.

 

[1] http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Zionism/zionism.html

[2] http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Zionism/christianzionism.html

 

Fonte: GNotícias.

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