William L.Craig e Fiódor Dostoiévski: sobre os argumentos do sofrimento

Humberto Ferreira

Em 2008, o mundo ficou escandalizado ao saber dos crimes horríveis de Josef  Fritzl de Amstetten, na Áustria. Em 1984, Fritzl atraiu a filha adolescente, Elisabeth, a quem ele já havia violentado sexualmente em ocasiões anteriores, ao porão da casa da família. O que Elisabeth não sabia era que seu pai havia convertido o porão em um calabouço, no qual Elisabeth seria mantida cativa pelos próximos 24 anos.

Durante este período, Fritzl violentou sua filha em inúmeras ocasiões, e Elizabeth deu à luz sete crianças: uma morreu ainda bebê e foi incinerada por Fritz, três foram criadas por Fritzl e sua esposa, as outras três permaneceram no calabouço com Elizabeth, sem terem visto a luz do sol até o dia em que a filha mais velha de Elizabeth, Kerstin, foi levada a um hospital local para tratamento médico, o que levou à descoberta das perversidades de Fritzl.

Por que isto aconteceu? Um secularista diria que Josef  Fritzl era um homem vil e repugnante, e que usou sua autoridade como chefe de família para atingir um dos mais insidiosos objetivos. O fato de alguns humanos serem capazes de comportamento tão sórdido  é uma interessante e importante questão de um ponto de vista biológico e antropológico, mas os eventos trágicos não precisam ser investidos de qualquer significado cósmico.

Mas como poderia um apologista cristão como William Lane Craig explicar a situação de Elisabeth Fritzl e seus filhos? Se Deus, conforme a concepção teísta clássica, é sumamente bom, onisciente e onipotente, por que isto aconteceu? Craig possui somente duas opções de resposta. Ou ele pode dizer que o sofrimento da família Fritzl foi absurdo, o que é problemático, já que, se não havia uma razão necessária para sua ocorrência, não existe uma razão necessária para que Deus tenha permitido que acontecesse; ou ele pode dizer que Deus possui algum objetivo para o sofrimento dos Fritzl,  um objetivo que, presumivelmente, seres humanos são incapazes de discernir, pois os caminhos do Senhor são misteriosos. Na verdade, Craig está habituado a explicar as tragédias desta última forma.

Em seu livro “Deus? Um debate entre um ateu e um cristão”, publicado em 2004 em co-autoria com Walter Sinnot-Armstrong (que defendeu a posição ateísta), Craig escreveu:

“Pode muito bem ser o caso de que os males naturais e morais fazem parte dos meios que Deus usa para atrair as pessoas para Seu Reino … Estima-se que 20 milhões de chineses perderam a vida durante a Revolução Cultural de Mao. Cristãos permaneceram firmes no que foi provavelmente a mais abrangente e severa perseguição que a Igreja já experimentou. A perseguição purificou e autoctonizou a Igreja. Desde 1977, o crescimento da Igreja na China não tem paralelos na história. Os pesquisadores estimaram que havia entre 30 e 75 milhões de cristãos em 1990. [Craig não indica como estes dados foram compilados embora em suas notas de rodapé haja referências a Patrick Johnstone e Operation World. De qualquer forma, a ampla margem de erro destes números é um indício contra sua confiabilidade]. Mao Zedong involuntariamente se tornou o maior evangelista da história.” [1]

Esta alegação, é óbvio, levanta uma importante questão: se o objetivo de Deus era expandir a comunidade cristã na China, poderia ele, em sua onipotência, ter atingido tal finalidade sem as mortes de tantos milhões?

Mas Craig tem uma resposta. No debate com Sinnott-Armstrong, ele escreveu:

 ”Nós, como filósofos, somos chamados, não apenas para expressar nossos sentimentos sobre determinado tema, mas para refletir rigorosa e desapaixonadamente sobre o tema. E apesar do inegável impacto emocional do problema do sofrimento, eu estou convencido de que como um problema estritamente racional, intelectual, o problema do mal não constitui uma refutação da existência de Deus. Assim, será útil distinguir entre o problema intelectual do sofrimento e o problema emocional do sofrimento. O problema intelectual diz respeito a como explicar racionalmente a co-existência de Deus e do sofrimento. O problema emocional diz respeito a como suprimir a repugnância emocional que as pessoas dirigem a um Deus que permitiria tal sofrimento. O problema intelectual encontra-se na província do filósofo, o problema emocional compete ao psicoterapeuta.” [2]

Sob uma leitura o mais indulgente possível, a definição de Craig do que ele chama de “problema emocional do mal” aparentemente implica que qualquer pessoa revoltada com a idéia de que Deus tem de permitir o assassinato brutal de 20 milhões de chineses para alcançar seus objetivos simplesmente precisa de terapia.

Isto é bastante irônico, considerando que Craig frequentemente afirma que Deus é o fundamento de valores morais objetivos. Em um debate com Michael Tooley da University of Colorado at Boulder em 1994, Craig declara de maneira inequívoca: “Deus proporciona a melhor explicação para a existência de valores morais objetivos no mundo. Se Deus não existe, então valores morais objetivos não existem.” [3] Ele ainda diz que “os comandos de Deus não são arbitrários, mas enraizados em sua própria natureza moral. De maneira que tais comandos fluem necessariamente de sua própria natureza…” [4]

Alguém mais gostaria de perguntar ao Dr. Craig: a morte de 20 milhões de chineses diz algo sobre a natureza de Deus? Ficamos com a impressão de que tal Deus é limitado ou cruel.

Craig faz comentários similares sobre a situação em El Salvador. Aqui, passo a pena a Michael Martin:

“De acordo com Craig, sofrimento intenso provoca a aceitação de Deus. Isso explica porque Deus permite que as pessoas sofram. A alegação de Craig é baseada em exemplos de nações contemporâneas, tais como El Salvador, onde, segundo Craig, sofrimento intenso correlaciona-se com o crescimento no cristianismo evangélico.

No entanto, dificilmente isto constitui evidência adequada para a sua afirmação factual generalizada. Em primeiro lugar a amostra de Craig é muito pequena. Para se ter alguma confiança na sua hipótese alguém teria que examinar muitos casos históricos de intenso sofrimento em diferentes períodos históricos e em diferentes culturas e ver se a correlação postulada se mantém. A amostragem teria que incluir, por exemplo, o sofrimento durante a Peste na Idade Média, o sofrimento infligido sobre os índios americanos pelos colonizadores brancos e pelo Governo dos EUA, e o sofrimento dos judeus durante o Holocausto. Nestes casos, é difícil ver como as hipóteses de Craig poderiam ser confirmadas ou até mesmo o que a confirmação significaria.” [5]

A distinção que Craig faz entre o problema intelectual e o emocional é gravemente defeituosa. A razão para isso é que emoções podem possuir conteúdo cognitivo. Para ilustrar este ponto, imagine que sou convidado a avaliar a vermelhidão de um objeto, mas sou completamente daltônico. Em tal caso, simplesmente não possuo a competência para avaliar corretamente. De maneira similar, para chegar a uma estimativa do significado do sofrimento, devo ter acesso a um tipo particular de dados. Neste caso, não são os dados derivados da ação de fótons sobre os cones e bastonetes de meus olhos, mas o tipo de compreensão empática que nunca pode ser entendido pela razão fria sozinha, desprovida de conteúdo emocional.

O papel das emoções na tomada de decisões confiáveis foi reconhecido até mesmo nos tribunais. Em seu livro Poetic Justice, Martha Nussbaum elucida o papel do que ela chama de “espectador judicioso.” Em seu capítulo intitulado “Emoções racionais”, Nussbaum cita um caso, Woodson v. North Carolina, “[que] havia estabelecido a importância da… emoção simpática de forma eloqüente, insistindo na ligação entre a simpatia e ser tratado como uma pessoa única, com uma história existencial própria.” [6]

Nussbaum, em seguida, cita o acórdão do caso, que envolveu uma potencial sentença de morte, e declara:

“Um processo que não atribui nenhum significado a aspectos relevantes do caráter e aos antecedentes do réu ou às circunstâncias do delito, exclui da consideração, ao fixar a pena de morte definitiva, a possibilidade de atuação de fatores compassivos ou atenuantes decorrentes das diversas fragilidades da humanidade. Ele trata todas as pessoas condenadas por um determinado delito não como seres humanos individuais, mas como elementos de uma massa sem rosto indiferenciada a serem sujeitadas à imposição cega da pena de morte.” [7]

Como podemos ver, há boas razões retóricas para Craig fazer essa distinção, porque inúmeros casos de sofrimento humano – o caso de Josef Fritzl é apenas um exemplo – são realmente terríveis, e se a sabedoria do coração está autorizada a trabalhar combinada com o conhecimento do cérebro, alguém certamente irá encontrar tais ocorrências desprovidas de qualquer significado global, e terminará concluindo que não há justificação para elas. O próprio Craig escreve: “É importante manter esta distinção [entre os problemas intelectuais e emocionais do mal] clara porque a solução para o problema intelectual tende a parecer árida, insensível e desconfortável para quem está passando por sofrimento.” [8 ]

De fato. Craig nos vê à humanidade como “membros de uma massa anônima e indiferenciada”.

E, de fato, o sofrimento de milhões de pessoas é difícil de compreender. Se podemos ficar aturdidos com o sofrimento de alguém – digamos, o sofrimento de uma criança inocente – o problema do sofrimento realmente se instalou em nosso íntimo.

Fiódor Dostoiévski provoca este efeito de forma bastante eficaz em seu grande romance Os irmãos Karamazov, e vários dos adversários que debateram com Craig usaram o romance de Dostoiévski como exemplo; o próprio Craig declarou que, em Dostoiévski “o problema do mal é apresentado … poderosamente.” [9 ] No décimo capítulo do livro, o ateu Ivan discute a existência do mal com seu pio irmão caçula, Aliocha. Ivan relata histórias de abusos horríveis, talvez tão medonhos como o caso de Josef Fritzl. Por exemplo, ele narra o conto sombrio de:

“Uma pobre menina de cinco anos [que foi submetida por seus pais educados] à todas as possíveis torturas. Eles bateram nela, açoitaram-na, chutaram-na, sem saber por quê, até que todo o seu corpo não fosse nada além de contusões; finalmente, atingiram o ápice da sutileza: no frio congelante, eles a trancaram por toda a noite na casinha, porque ela não iria “pedir para se levantar … [Para se aliviar …] no meio da noite (como se uma criança de cinco anos dormindo seu sono angelical pudesse ter aprendido a perguntar naquela idade) – por isso eles lambuzaram seu rosto com suas fezes e fizeram ingerir seus os excrementos, e foi sua mãe, sua mãe, que o fez! E essa mãe pôde dormir enquanto sua pobre filhinha gemia a noite toda naquele lugar vil! Você consegue entender que uma pequena criatura, que nem sequer compreende o que lhe está sendo feito, em um lugar vil, no escuro e no frio, bata no seu peito pequeno e tenso com suas mãozinhas e derrame lágrimas angustiadas, suaves, mansas para ‘querido Deus’ para protegê-la, você pode entender tal absurdo?”  [10]

Aliocha, é claro, foi incapaz de responder à pergunta. Mas, e Craig? No debate com Tooley, Craig disse:

“Nós não estamos em uma boa posição para avaliar a probabilidade de que essa premissa [que Deus não possui razões moralmente suficientes para permitir o mal] seja verdadeira. Tome uma analogia da teoria do caos. Na teoria do caos, os cientistas nos dizem que, mesmo a vibração das asas de uma borboleta pode desencadear processos que poriam em movimento causas que produziriam um furacão sobre o Oceano Atlântico. E, no entanto olhando para aquela palpitante borboleta em um galho, é impossível, em princípio, predizer o resultado desse evento. Do mesmo modo, um mal no mundo, digamos, uma criança morrendo de câncer ou o assassinato brutal de um homem, poderia desencadear uma cascata de efeitos na história tal que a razão moralmente suficiente pela qual Deus o permitiu que não possa surgir até que séculos tenham se passado, ou em outro país.”  [11]

Então a menina trancada no depósito, ou, no caso, Elisabeth Fritzl, trancada em seu calabouço e estuprada repetidas vezes pelo próprio pai, tais eventos podem produzir um bem de magnitude suficiente para justificar estas atrocidades? Deixando de lado sua frieza e insensibilidade (e isso nos lembra novamente por Craig tenta separar o intelectual do emocional no problema do mal), esses argumentos não fazem sentido quando estamos falando de um Deus onipotente. Pois, se o bater de asas de uma borboleta pode iniciar um furacão – um vínculo causal que, embora misterioso para o homem, deve ser clara e evidente para Deus – não pode a Divindade alcançar seus propósitos através de outros meios que não o horrível abuso de crianças? Craig chega muito perto de dizer que o sofrimento de tipo descrito acima é necessário. Mas não coloca esta afirmação uma limitação à onipotência divina?

Em seu livro Fé Racional: Verdade Cristã e Apologética, Craig afirma que “se Deus não existe, então a nossa vida não é qualitativamente diferente da de um cão.” Mas que tipo de ser consentiria em tratar um cão da forma descrita acima?

No mesmo livro, em uma seção sobre o valor da vida, Craig escreve:

“O horror de um mundo desprovido de valor [Craig afirma que deve ser o caso se não há Deus] atingiu-me com nova intensidade há alguns anos, quando assisti a um documentário de televisão da BBC chamado “A colheita”. Tratava-se do reencontro de sobreviventes do Holocausto em Jerusalém, onde redescobriram amizades perdidas e compartilharam suas experiências. Uma mulher prisioneira, enfermeira, contou como fizeram dela a ginecologista de Auschwitz. Ela observou que as mulheres grávidas eram agrupadas por soldados sob a direção do Dr. Mengele e abrigadas nos mesmos barracões. Algum tempo se passou, e ela notou que não via mais nenhuma daquelas mulheres. Ela fez perguntas. “Onde estão as mulheres grávidas que foram colocadas naqueles barracões?” “Você não ouviu?” veio a resposta. “O Dr. Mengele as usou para vivisseção”.

Craig continua:

“Outra mulher contou como Mengele tinha ligado seus seios para que não pudesse amamentar seu bebê. O médico queria saber quanto tempo um bebê sobreviveria sem alimento. Desesperada, essa pobre mulher tentou manter seu bebê vivo dando-lhe pedaços de pão molhados no café, mas sem sucesso. A cada dia ele perdia peso, fato que era ansiosamente monitorado pelo Dr. Mengele. Então uma enfermeira veio em segredo dizer a essa mulher e lhe disse: “Eu tenho um jeito de você sair daqui, mas você não pode levar seu bebê com você. Eu trouxe uma injeção de morfina que você pode dar ao seu filho para acabar com sua vida. ” Quando a mulher protestou, a enfermeira foi insistente: “Veja, seu bebê vai morrer de qualquer jeito. Pelo menos, salve você mesma.” E assim aquela mãe tirou a vida de seu próprio bebê. O Dr. Mengele ficou furioso quando soube disto porque perdera sua cobaia, e procurou entre os cadáveres até achar o corpinho descartado do bebê para que ele pudesse realizar uma última pesagem.” [12]

Tal horror quase desafia nossa capacidade de descrição. E mais uma vez, Craig é forçado a dizer que isso aconteceu com um propósito ou sem propósito. Ele quer dizer que Deus é capaz de trabalhar um bem maior até mesmo através de um tão indizível mal. Mas, novamente, nós simplesmente perguntamos: se Deus é onipotente, ele não poderia ter trabalhado o seu propósito oculto de alguma outra forma?

Craig frequentemente afirma que o propósito da vida humana não é a felicidade neste mundo, mas “conhecimento de Deus, que acabará por produzir verdadeira e duradoura felicidade.”

Ele continua: “O que isto significa é que muitos males que ocorrem nesta vida podem ser completamente inúteis no que diz respeito à produção de felicidade humana. Mas eles podem não ser inúteis no que diz respeito à produção do conhecimento sobre Deus.”  [13]

Aqui, somos novamente lembrados por Dostoiévski:

“Você consegue entender por que esse absurdo é necessário e foi criado? Sem isso, dizem eles, o homem não poderia mesmo ter vivido na Terra, pois ele não teria conhecido o bem e o mal [nem teria conhecido a Deus, presumivelmente]. Quem quer conhecer estes malditos bem e mal a tal preço? Um mundo inteiro de conhecimentos não vale a pena pelas lágrimas que aquela criança derramou para seu “querido Papai do Céu”. Eu não estou falando sobre o sofrimento de adultos, eles comeram a maçã e para o inferno com eles, deixe que o diabo os leve a todos, mas estes pequeninos!” [14]

Na verdade, a idéia de que Deus iria exigir o sofrimento de uma menina a fim de promover o conhecimento de si mesmo é um absurdo, e esse Deus não seria o ser benevolente no qual Craig afirma acreditar.

Em um debate de 1998 com Craig, o professor Edwin Curley, discutindo o exemplo de Dostoiévski, apontou outro problema. Se alguém argumentar que menina de Dostoiévski teve de sofrer (ela é um personagem fictício, mas muito possivelmente baseado em uma pessoa real, e, em qualquer caso, poderíamos facilmente substitui-la por Elisabeth Fritzl), a fim de produzir um bem maior, um problema de justiça surge. Concedendo para fins da discussão que a liberdade humana é um bem maior que justifica uma grande quantidade de sofrimento, Professor Curley declarou:

“Para que o pai tenha a oportunidade de demonstrar a bondade moral, Deus deve dar-lhe a oportunidade de escolher o mal. Você não pode ter a oportunidade de um sem a do outro. E a oportunidade de o pai demonstrar a bondade moral é um bem tão grande que compensa o fato de que ele escolhe mal.

Mas note quem obtém o bem aqui. É o pai. E notem quem sofre o mal. É a menina. Admitamos, para efeito de argumentação, que o benefício compensa o custo. A liberdade é um bem muito grande. Ainda faz alguma diferença quem paga o custo. A liberdade pode ser um grande bem, mesmo um bem tão grande que compensaria o sofrimento realmente horrível. Mas a justiça requer alguma atenção, não apenas para o montante líquido do bem, após a subtração do mal, mas também à maneira como os bens e os males são distribuídos. Algumas distribuições simplesmente não são justas.” [15]

Presumivelmente, Craig não se impressiona com isso. Em um debate com o Dr. Kai Nielsen, Craig disse: “o sofrimento humano inocente provê uma ocasião para aprofundar a dependência e confiança em Deus, tanto da parte de quem padece ou, talvez, daqueles que o rodeiam.”  [16]

O que Craig diz aqui apresenta um grande problema. Com efeito, ele argumenta que a menina de Dostoiévski ou Elisabeth Fritzl tiveram de sofrer para desencadear uma decisão livre em alguém para a versão de Craig do Deus cristão.

Mas isso se conforma a qualquer teoria da justiça? Certamente, podemos perguntar: deveria Elisabeth Fritzl ter sido confinada em um calabouço por mais de duas décadas? Deveria ela ter sido estuprada por seu pai para aproximar alguma pessoa desconhecida de Deus? Será que a mãe que sobreviveu ao Holocausto, mas que teve que matar seu próprio filho realmente deveria suportar tal angústia para trazer alguém para a posição de Craig? De todas as teodicéias, esta parece ser a mais egoísta e a mais abominável.

Craig afirma com frequência que o sofrimento é bom para o sofredor, _ essencialmente, que a dor constrói o caráter (isto é, por vezes referido como a teodicéia do aprimoramento espiritual). Por exemplo, ele escreve:

“O fato é que em muitos casos, nós permitimos que a dor e o sofrimento ocorram na vida de uma pessoa, a fim de trazer algum bem maior, ou porque temos alguma razão suficiente para permiti-lo [é claro, nós não somos onipotentes]. Todo pai sabe disso. Chega um ponto em que um pai não pode mais proteger uma criança de cada percalço, e há outros momentos em que a disciplina deve ser infligida sobre a criança, a fim de ensiná-lo a se tornar um adulto responsável. Da mesma forma, Deus pode permitir algum sofrimento em nossas vidas a fim de nos construir ou para nos testar, ou para construir e testar os outros, ou a atingir algum outro fim primário.” [17]

Embora seja verdade que alguma medida de dor pode, no contexto adequado, levar à melhoria – pense nos membros de um time de futebol suportando dor durante o treinamento no acampamento que depois irá ajudá-los para a ganhar um campeonato – existem outras formas de dor e sofrimento que, aparentemente, não levam a nada de bom. Alguém estaria sendo pouco mais do que insensível se sugerisse que de alguma forma Elisabeth Fritzl, ou sua mãe, no caso, estaria em melhor situação em seu calvário.

Em outra parte, Craig argumenta:

“Se o livre-arbítrio libertário é possível, não é necessariamente verdade que um Deus onipotente pode criar qualquer mundo possível que deseje … Deus ser onipotente não significa que ele pode fazer impossibilidades lógicas, como fazer um quadrado redondo ou fazer alguém escolher livremente fazer alguma coisa. Pois se alguém leva uma pessoa a fazer uma escolha específica, então a escolha já não é livre no sentido libertário. Assim, se Deus concede às pessoas a liberdade genuína de escolher como querem, então é-lhe impossível garantir quais serão suas escolhas livres. Tudo o que ele pode fazer é criar as circunstâncias em que uma pessoa é capaz de fazer uma escolha livre e, em seguida, por assim dizer, recuar e deixar a pessoa fazer essa escolha. Agora, isso implica que existem mundos que são possíveis em si mesmos, mas que Deus é incapaz de criar … Suponha-se, então, que, em cada mundo possível, onde Deus cria criaturas livres algumas dessas criaturas livremente optam por fazer o mal. Nesse caso, são as próprias criaturas que trazem o mal, e Deus não pode fazer nada para impedi-las, além de se recusar a criar qualquer de tais mundos. Assim, é possível que todo mundo possível para Deus, que contém criaturas livres é um mundo com o pecado e o mal. “ [18]

(Note-se que, na mesma obra, Craig, seguindo Alvin Plantinga, afirma que “males naturais” – terremotos, tsunamis, e similares – poderiam ser o resultado de atividade demoníaca. Na medida em que tal superstição grosseira mereça ser levada a sério, vale a pena apontar que, se esse argumento está a ser proposto, há pelo menos alguma necessidade de provar a existência dos demônios; mais adiante no texto Craig admite que a idéia de males naturais serem causados por demônios é “ridícula”). [19]

No entanto, uma questão importante tem sido levantada pelo apóstata e historiador do cristianismo Bart Ehrman. Ehrman pergunta se os cristãos pensam que terão livre-arbítrio no céu. Esta é uma questão de fundamental importância. Pois, se o cristão responder “sim”, então é possível para Deus criar um reino em que os humanos têm livre-arbítrio, e mesmo assim eles iriam escolher o bem em todas as ocasiões. Por outro lado, se os seres humanos não mais terão livre-arbítrio no paraíso, então, aparentemente,  Deus não se importa tanto com o livre-arbítrio em primeiro lugar.[20] Assim, o argumento de Craig segundo o qual Deus tem de criar um mundo que inclui o mal e o sofrimento, se ele também deve criar um mundo de criaturas livres, é exposto como infundado.

No que diz respeito ao livre-arbítrio, uma objeção final me vem à mente. Às vezes os seres humanos fazem escolhas livres com a melhor das intenções, mas com resultados trágicos. Craig pode argumentar que a felicidade humana não é o propósito da vida, mas certamente um Deus benevolente teria alguma consideração pela felicidade humana. Considere, então, o número de mulheres nas décadas anteriores que tomaram a droga talidomida como tratamento para as náuseas da gravidez. A droga foi administrada com a melhor das intenções, mas os resultados incluíram defeitos congênitos chocantes. Aqui, ao que parece, Deus poderia ter fornecido informações úteis e oportunas que teriam evitado muito sofrimento, sem violar o livre-arbítrio. Mais uma vez, Craig provavelmente afirmaria que pode haver algum propósito desconhecido para que isso aconteça – uma teodiceia, ao que parece, deve se alicerçar em outra – mas em última análise, tudo o que podemos fazer é supor, pois tal proposição não pode, de forma alguma, ser testada ou demonstrada.

Assim, a partir do que foi exposto acima, podemos concluir que as tentativas do Dr. Craig para explicar o mal e o sofrimento humano em conjunto com a existência do Deus do teísmo tradicional estão muito aquém do meramente satisfatório.

 

 

[1] Craig, William L. and Walter Sinnott-Armstrong. God? A Debate Between a Christian and an Atheist. Oxford and New York: Oxford University Press, 2004, 121.

[2] Ibid, 112.

[3] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.”http://spot.colorado.edu/~tooley/Debate%20with%20Craig.html (accessed 3/25/2010).

[4] Ibid.

[5] Martin, Michael. “Human Suffering and the Existence of God.” 1997. http//www.infidels.org/library/modern/michael_martin/suffering.html (accessed 4/3/2010).

[6] Nussbaum, Martha. Poetic Justice: The Literary Imagination and Public Life. Boston: Beacon Press Books, 1995.

[7] Ibid.

[8] Craig, William L and J.P. Moreland. Philosophical Foundations for a Christian Worldview. Downers Grove, Illinois: Intervaristy Press, 2003.

[9] Ibid, 551.

[10] Dostoevsky, Fyodor. The Brothers Karamazov. Richard Pevear and Larissa Volokhonsky. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1990, 242.

[11] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.”

[12] Craig, William L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 2 ed. Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1994, 66-67.

[13] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.”

[14] Dostoevsky, Fyodor. The Brother’s Karamazov, 242.

[15] Craig, William L. “The Craig-Curley Debate: The Existence of the Christian God.” http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/craig-curley01.html(accessed 3/29/2010).

[16] Craig, William L. “The Craig-Nielsen Debate: God, Morality and Evil.”http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/craig-nielsen.html (accessed 3/27/2010).

[17] Craig, William L. and J.P. Moreland. Philosophical Foundations, 539-540.

[18] Ibid, 539.

[19] Ibid, 539-541.

[20] Ehrman, Bart D. God’s Problem,: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question—Why We Suffer. New York: Harper Collins, 2008

 

Fonte: Em busca do Jesus histórico.

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