Olhares sobre a Bíblia

Bíblia

 

 

 José Brissos-Lino

Para o cristão comprometido com Deus, a sua Bíblia é quase como uma pessoa. Vamo-nos relacionando com ela ao longo dos anos e desenvolvendo até uma espécie de afectividade com o Livro, tantas são as realidades humanas e espirituais para que ele nos alerta e sensibiliza, e os momentos importantes em que nos acompanha. De tanto aprendermos com ele torna-se quase um mestre, um tutor que nos ilumina os passos, como dizia o Salmista: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105).

Mas, tal como acontece com as relações entre humanos, o nosso olhar sobre o Livro vai sendo alterado com o tempo. Amadurece e assim a relação torna-se cada vez mais rica, a nossa leitura mais significante e a nossa percepção do sentido dos textos e da mensagem mais apurada.

Durante esse percurso há pessoas que passam por diferentes estágios ou desenvolvem olhares diversos sobre as Escrituras. Umas fazem-no em razão do seu processo de crescimento espiritual, outros de modo cristalizado.

Reflictamos nalguns enganos e perigos que rondam, na abordagem à Bíblia.

 

Tratado de Teologia Sistemática

Alguns lidam com a Bíblia como se ela fosse um tratado de teologia sistemática, que não é. De resto não é tratado científico de qualquer área dos saberes, seja História, Astronomia, Matemática, Línguas, Física, Geografia ou outra qualquer, muito embora encerre em si elementos e dados científicos importantíssimos, nela patentes séculos antes de terem sido descobertos e adoptados pelos homens da ciência.

O Cristianismo é uma religião da Revelação, portanto, a Bíblia será, sobretudo, o Livro da Revelação, para os que crêem em Deus e nela se inspiram. Apenas. E chega.

Revela-nos Deus, o Homem e tudo o resto que é fundamental a uma vivência espiritual e à comunhão com o Criador, à relação pessoal com Cristo e à sensibilidade ao Espírito Santo. Nesse sentido, as Escrituras são essencialmente teológicas (reveladoras de Deus – Theos), mas também antropológicas (reveladoras do ser humano –  anthropos), mas nunca um tratado de teologia ou antropologia.

 

O engano da literalidade

Um dos mais flagrantes e evidentes erros hermenêuticos dos textos antigos é o da literalidade absoluta. Há quem não tenha outra forma de interpretar os textos bíblicos senão levando tudo ao pé da letra. Bem, tudo não, realmente só aquilo que convém, de modo a tentar corroborar ideias pré-existentes à abordagem dos referidos textos. Os tais aproximam-se perigosamente da literalidade absoluta em todas as matérias ou sempre que dá jeito.

Mas há uma coisa que dá muito jeito na vida, e também nestas coisas – o senso comum – e que ajuda a discernir entre a adequação de uma leitura literal ou figurativa. O problema é quando o tal senso comum não abunda.

“Dar a outra face” não significa forçosamente pedir uma estalada (ou gostar de a levar), e se todos arrancassem mesmo um olho, cada vez que este os escandaliza, andava meio mundo zarolho ou mesmo cego…

 

O perigo do liberalismo

Mais do que uma colecção de textos religiosos antigos, a Bíblia é a Palavra de Deus. Não caiu do céu aos trambolhões, antes é fruto de um processo de composição, pela mão dos seres humanos que a escreveram, no pleno uso das suas faculdades, mas que foram sensíveis à voz de Deus, ao Espírito Santo. Ou seja, a Bíblia é palavra de Deus revelada através das palavras dos homens, que puseram nela as suas angústias, medos, dores, perplexidades, alegrias e esperanças. Escreveram, obviamente, com o seu próprio vocabulário, cosmovisão e enquadramento religioso e sócio-cultural.

Querer fazer dela uma colectânea de estórias, mitos ou lendas, é reduzi-la a uma mera realidade literária e cultural, retirando-lhe a sua principal característica – o sobrenatural, dada a sua divina inspiração, como o próprio apóstolo Paulo atesta numa carta a Timóteo (3:16).

A leitura liberal da Bíblia é herética, segundo Roger Olson: «por negar ou solapar completamente a autoridade inigualável da Escritura. O problema não é os pensadores liberais tentarem fazer justiça à qualidade humana da Escritura, mas seu modelo de inspiração da Escritura não consegue fazer justiça à qualidade divina da Bíblia.»

John Stott, referido por Sandro Baggio, disse: «Que sentido faz chamar a Jesus ‘Mestre’ e ‘Senhor’ para depois discordar dele? A sua visão das Escrituras deve tornar-se a nossa visão. (…) Toda a evidência disponível confirma que Jesus Cristo submeteu a sua vida à autoridade do Antigo Testamento… [Portanto] submissão às Escrituras é para nós, um sinal da nossa submissão a Cristo.»

Ou ainda Norman Geisler: «Como existem firmes evidências, mais abundantes do que as que existem para outros livros da antiguidade, de que os documentos do Novo Testamento são historicamente confiáveis, um exame minucioso dos Evangelhos revela que Jesus ensinou que a Bíblia é a Palavra de Deus divinamente inspirada e portadora de autoridade. Então, como podem os liberais considerar-se seguidores dos ensinos de Jesus, se negam um dos seus ensinos essenciais, a saber, que a Bíblia é a Palavra de Deus?» (Teologia Sistemática, p. 335, citado por Baggio).

 

Oráculo profético

Um dos erros de utilização mais tremendos é atribuir ao Livro poderes quase mágicos, fazendo dele oráculo profético.

Por exemplo, há quem feche os olhos e aponte o dedo, de forma aleatória, em busca de um versículo que lhe dê resposta ao seu problema do momento. Em certos meios contam-se até estórias irónicas a este respeito, como esta: um certo dia alguém estava em aflição, necessitava desesperadamente de orientação para a sua vida e lembrou-se de fazer uso do sistema. Fechou os olhos, abriu a Bíblia e apontou o dedo “ao calhas”.

Quando finalmente abriu os olhos teve um calafrio, pois to seu dedo estava apontado para o versículo que diz, de Judas Iscariotes: «retirou-se e foi-se enforcar» (Mateus 27:5). Decerto que Deus não estaria a sugerir que a pessoa seguisse o exemplo do discípulo que traiu o seu Mestre, dilacerado pelo remorso. Mas, relevando a situação, ainda disse para consigo: «Esta não valeu, vou tentar outra vez!», e assim procedeu. Só que a segunda tentativa foi tão feliz como a primeira. Desta vez o seu indicador tinha estacionado em cima da frase: «Vai e faz da mesma maneira» (Lucas 10:37)… Talvez lhe tenha servido de lição.

De facto, esta maneira de lidar com as Escrituras aproxima-se mais das práticas pagãs ou ocultistas do que de uma atitude sensata e madura de abordagem bíblica.

 

Má hermenêutica

Por absurdo, não seria muito difícil pôr a Bíblia a falar contra si própria, inclusive negando a existência de Deus. Bastaria ir ao Livro dos Salmos (53:1): “Não há Deus”. Porém, o contexto mostra-nos que essa é uma frase do tolo (néscio)… Ou que a mulher é algo terrível, se permitirmos que o versículo em questão seja truncado: “achei uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher” (Eclesiastes 7:26), que faz referência à mulher falsa.

Quem não conhece a célebre frase: “um texto sem contexto é um pretexto”?…  Com efeito, a descontextualização é um dos maiores crimes que se cometem na interpretação dos textos bíblicos. Não podemos ler textos milenares com a mentalidade e o enquadramento civilizacional do homem do século XXI, pois isso é desvirtuar, à partida, o seu sentido intrínseco.

Não podemos alhear-nos das condições históricas do tempo em que tais textos foram escritos, mas também da sua envolvência linguística, religiosa, cultural, social, política e humana em geral. Temos que os ler como se fossemos seres humanos daquele tempo e habitantes daquela parte do mundo. E só depois fazermos um esforço de aplicação ao homem e ao mundo contemporâneos.

Quanto mais recuados forem os textos no tempo, maior será o esforço de compreensão dos mesmos. Por isso o Antigo Testamento é geralmente de mais complexa interpretação do que o Novo.

Inúmeras heresias e seitas religiosas, de inspiração cristã, nasceram nos dois últimos milénios justamente tendo por base má hermenêutica e exegese. Mas também muitas práticas de usos e costumes que só desmerecem quem as ensina e impõe, em nome de uma pretensa autoridade escriturística.

 

Património particular e exclusivo

Em tempos que já lá vão (há uns bons anos) procurei promover entre as igrejas cristãs de Setúbal o interesse por um projecto que então seria inovador em Portugal, a inauguração de um monumento à Bíblia, a instalar um espaço público e nobre da cidade. Para isso cheguei a ter reuniões com a autarquia, envolvemos um conhecido arquitecto na concepção artística do projecto (de que ainda guardo a maqueta), enfim, uma coisa digna e dignificante.

Devido a diversos factores circunstanciais, quer urbanísticos quer de outra ordem, o processo entretanto parou, com muita pena minha.

Na altura consegui cativar o interesse e o apoio de diversas igrejas evangélicas, protestantes e até da igreja católica. Falei com o bispo da diocese, que concordou desde logo com a ideia, sem reservas. Porém, em reuniões de pastores e líderes locais percebi, da parte de um deles em particular (evangélico), fortes reservas pelo facto de os católicos estarem envolvidos neste projecto, de mãos dadas connosco. Balbuciou qualquer coisa como “confusão”, referindo-se a esta parceria, querendo significar que, no seu entender, católicos e Bíblia não ligam. Isto logo depois da realização do importante projecto “A Bíblia Manuscrita”, uma iniciativa da Sociedade Bíblica de Portugal, que juntou cristãos e agnósticos…

O conceito de que a Bíblia é propriedade particular e exclusiva de um dado grupo religioso é perniciosa. As Escrituras são património da Humanidade, do ponto de vista literário e cultural, mas são, sobretudo, a Revelação de Deus aos homens. Para o cristão católico-romano, ortodoxo, protestante ou evangélico, a Bíblia é património espiritual comum. Ninguém é dono dela e muito menos em regime de exclusividade. Talvez por isso mesmo seja importante, enriquecedor e desafiador tentar compreender a leitura que outros cristãos, de diferentes matizes, fazem dos seus textos.

 

Livro ultrapassado?

Um dos maiores preconceitos na abordagem aos textos bíblicos, por parte de quem os desconhece, é a falsa ideia de que se trata de literatura ultrapassada, dada a sua antiguidade. Nada mais errado.

Quem conseguir ler a Bíblia com olhos de ler verificará que a sua mensagem é perfeitamente actual. Por exemplo, os livros sapienciais de Salomão constituem verdadeiras lições de vida ainda hoje, pois baseiam-se em algo que não muda – a condição e a natureza humanas. E o mesmo acontece com as restantes partes das Escrituras.

De resto, isso acontece de igual modo com outros textos da Antiguidade, não canónicos ou mesmo da cultura universal.

Ao longo da História foram inúmeros os cientistas, estadistas, escritores, educadores e figuras públicas em geral que sublinharam as virtudes dos textos bíblicos e a sua indispensabilidade para se viver de forma harmoniosa e piedosa. Claro que, para os cristãos, esta leitura não é única nem sequer a mais importante. Para eles a Bíblia é, acima de tudo, o Livro da Revelação de Deus aos homens e o suporte da sua fé no dia-a-dia.

Para muitos é surpreendente como a Palavra de Deus é não apenas actual mas operativa. Funciona mesmo, quando a fé está presente. E a razão está explicada na própria Bíblia: «Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.» (Hebreus 11:6).

 

(Do livro “O Grito da Semente”)

 

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