Uma certa parábola social, teológica, com Escatologia


      © João Tomaz Parreira

 

 

“Ora, havia certo homem rico, (…) Havia também certo mendigo” (Evangelho de Lucas)

 

A parábola do “Rico e Lázaro” tem uma linguagem figurativa e, também, sobre uma dolorosa realidade social.

Uma leitura que resolva apenas circunscrever-se à letra, pode induzir-nos mesmo a pensar num princípio de luta de classes. Não é o espírito da parábola, mas, do ponto de vista humano, também não anda longe, porque o que o Senhor Jesus Cristo quis sublinhar e repreender foi a cobiça dos homens e a indiferença dos ricos pelo sofrimento dos pobres.

Usando duas personagens, nomeando uma e deixando incógnita outra (para não ferir identidades conhecidas?), a parábola resolve várias questões do pensamento humano social, teológico e, já agora, da própria escatologia que a parábola contém. E quando Jesus sobre a morte de Lázaro usa a expressão “ser levado pelos anjos”, revestiu poeticamente de beleza a indigência de Lázaro, os seus vestidos rôtos, o seu corpo, coberto na morte pelas mãos dos anjos, como o não foi em vida pelos homens.

 

No plano social

Na primeira parte da diégese (Lc 16:19-21), o essencial foi a ênfase que Cristo deu ao aspecto social, às relações humanas.

Lucas ao “transcrever”, na narrativa que surge depois de outra sobre assunto totalmente diverso, mas ainda assim no âmbito das críticas aos fariseus, usa uma literariedade para organizar a linguagem da diferença social entre um homem que vivia opulentamente e um pobre, coberto de chagas, que vivia à sua porta, no desprezo do lado de fora da escala social.

A profundidade da acusação de Cristo contra esse rico, e que Lucas deixa nas entrelinhas, é que o auxílio que essa mansão rica concedia ao pobre Lázaro seria apenas a impessoalidade das migalhas, migalhas sem rosto, mais nada. “E desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico”. A caridade sem face.

O nosso conhecimento dos fariseus, permite-nos situá-los como grupo ou seita que floresceu a partir do século II a.C., no tempo dos Macabeus. Muitos séculos antes, a Torah já regulamentava as boas relações humanas, a protecção para os fracos, o que os fariseus deveriam conhecer. Eram tão importantes as boas práticas sociais que até entre os primitivos cristãos a Didaqué (Instrução) prescrevia: “Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem soberbo.” (2,6)

O próprio evangelista Lucas, escreveu que os fariseus “eram avarentos” (16:14)

 

No plano teológico e escatológico

Jesus Cristo sabia que esta parábola faria silêncios profundos, ainda que não admitidos pelos ouvintes. Mesmo com linguagem figurativa, a teologia não deixaria de abalar os fariseus. Confrontou-os com o devido amor ao próximo, independentemente da sua condição social, agora confrontá-los-ia com Abraão, com o seio de Abraão e com o inferno.

Ora, qualquer fariseu dizia-se descendente de Abraão, reivindicava uma relação de mais de um milénio que, apesar do tempo, autorizava qualquer fariseu a chamar pai ao homem de Ur da Caldeia, o homem a quem Deus chamou Amigo (Isaías, 41:8).

Colocar o rico no Hades é teologia pura, no que concerne aos resultados do Pecado e da relação do homem com Deus, até na pessoa do próximo, seja-se rico ou pobre. Jesus Cristo afirmou, deitando borda fora toda a pretensa caridadezinha social, com o seu ranço institucional: “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Mt 22:39)

Num simples volume de teologia sistemática, como o antigo de Myer Pearlman e.g., a morte é uma consequência estudada no capítulo dos Acontecimentos Finais, e o inferno como lugar de extremo sofrimento, de recordações, remorsos e desejos insatisfeitos. De tudo isso, falou Jesus Cristo nesta parábola, usando a narrativa e a dialogia.

É do conhecimento geral do leitor estudioso da Bíblia, que Lucas tinha cultura linguística e apetência literária no modo como narrava, a estrutura da sua linguagem era composta de elementos literários. Na enunciação do que Jesus Cristo disse, o estilo do discurso relatado – como se chama em linguística-, a situação dos protagonistas é emotiva. A chamada dialogia é perfeita e emocional na parte do diálogo com que Jesus Cristo traz ao temporal o conflito meta-histórico, que ocorre na eternidade, entre o rico e Abraão.

Com efeito, a parábola do Rico e Lázaro é das mais profundamente didácticas e poéticas, no sentido da beleza trágica, que possuímos no Novo Testamento.

Por alguma profunda razão da sensibilidade estética de Lucas, esta parábola só a encontramos no seu evangelho.

Esta belíssima parábola é um compêndio de didáctica, é um quadro, é um poema, que em meia dúzia de linhas expressionistas, embeleza o pobre Lázaro. Aquele que tinha o corpo coberto de chagas, mas foi levado pelas mãos dos anjos.

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