Santidade

Hermes C. Fernandes

Devo confessar que minha relutância em tratar deste assunto se deve, antes de tudo, ao estigma que ele carrega. Todavia, senti-me desafiado a romper com meu próprio preconceito e a navegar nesses mares revoltos sob os auspícios da graça.

Haveria uma abordagem sobre o tema que não incorresse em legalismo, descambando numa tentativa humana de alcançar méritos diante de Deus através de seu desempenho? Estou convencido que sim. Urge buscarmos uma definição bíblica do que seja santidade, sem o pesado ranço religioso.

Ser santo não significa ser moralmente puro, perfeito ou dotado de uma espiritualidade madura. Os cristãos coríntios foram chamados por Paulo de “santificados em Cristo Jesus” e “santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co.1:2). Não obstante, o mesmo apóstolo declara que não pode dirigir-se a eles como “a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo”. Ele se justifica: “ainda sois carnais pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co.3:1,3). Quem jamais imaginaria que pudesse haver santos invejosos, contenciosos, carnais? Mas, há! E como há! Todavia, sua imperfeição não os desqualifica como santos.

Ser santo também não é atribuir poderes especiais a alguém como geralmente se faz no processo de canonização da igreja católica.

Então, que significado haveria por trás do termo “santidade”?

A palavra hebraica traduzida por “santo” é Kadosh, que significa tão somente “separado”.

Sob o pretexto de santidade, a igreja cristã tem-se separado literalmente do mundo à sua volta, e desenvolvido uma cultura de gueto. Confunde-se santidade com alienação.

Foi a partir de uma compreensão equivocada que os protestantes de origem holandesa impuseram o regime do apartheid na África do Sul. Originalmente, os motivos não eram étnicos, mas religiosos. Os cristãos brancos não queriam correr o risco de ter sua fé diluída no fetichismo religioso dos africanos. Temendo ter a pureza de sua fé comprometida com o sincretismo, preferiram delimitar perímetros, onde brancos e negros viveriam segregados. Todos sabemos aonde isso levou.

Santificar tem muito mais a ver com “separar para” do que “separar de”. Pedro diz que somos geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para anunciar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe.2:9). Ora, como anunciaremos algo àqueles de quem fomos separamos? Que propósito haveria de anunciar algo aos de nosso próprio grupo? Para que sejamos ouvidos, temos que nos entrosar, ter vida social, transitar entre os homens, não como alienígenas, mas como um deles. Somos santos, porém, não somos ET’s.

Santificar é separar no sentido de distinguir, não de apartar. E distinguir é atribuir significado exclusivo. Portanto, pode-se afirmar que santificar algo ou a alguém é reconhecer o lugar peculiar que deve ser ocupado por ele. Veja, por exemplo, a recomendação de Pedro:

“Antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” 1 Pedro 3:15

Se dermos à santificação o sentido que geralmente se dá, esta recomendação não faz qualquer sentido. Como poderíamos santificar Àquele que já é o Santo dos Santos? Como torná-lO ainda mais santo do que já é? Se santidade tem a ver com perfeição, como poderíamos tornar Cristo ainda mais perfeito? Além de ser o cúmulo da presunção, seria um paradoxo. Como torná-lO mais puro? Ou atribuir-Lhe mais poder? Porém, se considerarmos a definição aqui apresentada, a recomendação de Pedro se revestirá de um sentido muito especial.

Santificar Cristo como Senhor em nosso coração nada mais é do que reservar a Ele um lugar especial. Ainda que haja em nosso coração uma cadeira cativa para tudo quanto nos é caro, como por exemplo, para nossos familiares e amigos, o trono de nossa vida deverá ser exclusivo do Senhor. Ele sempre terá primazia em tudo. Atribuímos a Ele um significado distinto, que jamais poderá ser compartilhado com qualquer outro ser.

 

A santidade da vida

O mesmo apóstolo nos adverte:

“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais.” 1 Pedro 1:15-18

Repare nisso: santidade tem mais a ver com comportamento do que com compartimento. Corro o risco de ser mal interpretado aqui e julgado como legalista. Não se trata disso. Não se trata de submeter-se a um emaranhado de regras, e sim de ressignificar a vida. Quem se apercebe de quão santa é a vida jamais vai viver de maneira inconsequente. Nossos atos reverberam na eternidade. Fomos resgatados da nossa vã maneira de viver, herdada de nossos antepassados. Já não somos reféns do momento. Fomos conclamados a ir além, transcendendo o tempo e o espaço. Portanto, não faz mais sentido adotar como lema o refrão do samba que diz “deixe a vida me levar, vida leva eu…”

A santidade da vida reside em seu propósito. Nossa existência é muito mais do que um acidente de percurso. Fomos engendrados por Deus para o cumprimento de um propósito. Disponho-me a correr o risco de parecer piegas por esta afirmação. Mas, uma vida desprovida de propósito é igualmente desprovida de significado. Somos mais do que meros prontuários. Mais do que figurantes da trama da existência. Somos, cada qual, protagonistas, ou como diria Mandela, “capitães de nossa alma”.

Paulo expressou tal compreensão ao declarar:

“Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At.20:24).

Em outras palavras, Paulo se dispunha a enfrentar o martírio, se isso, de alguma maneira, contribuísse pela execução do propósito de sua existência. Afinal, só vale a pena viver por algo pelo qual se disponha a morrer. A santidade da vida, portanto, consiste no significado que lhe atribuímos. Quando já não estivermos aqui, os passos que houvermos dado continuarão a ecoar, a fragrância do sacrifício que houvermos feito seguirá sendo exalada pelos que nos sucederem nesta jornada.

Dispensamos altares! Não se atrevam a nos canonizar! Nem se preocupem em esconder nossas idiossincrasias e contradições sob o verniz de uma biografia idealizada. Que nossas vitórias sejam celebradas e nossos equívocos sirvam de advertência. Mas que todos saibam que buscamos viver plenamente em função do propósito do qual fomos imbuídos, apesar de, às vezes, nos deixarmos distrair.

A biografia de um santo não é um mapa para as próximas gerações, mas tão somente um registro de quem buscou fazer valer a pena sua estada neste planeta. Viveu e deixou viver. Encarnou sua missão. Gastou-se e deixou-se consumir pela chama da paixão que o movia.

Santificação, individuação e autenticidade

A indústria religiosa patenteou o processo de padronização comportamental em série, nomeando-o dolosamente de santificação. O instrumento usado na produção de crentes em grande escala atende pelo nome de discipulado. Cada novo discípulo é conclamado a reproduzir-se, formando outros que sejam sua réplica. Assim, o que chamamos de discipulado está mais para clonagem.

Definitivamente, santificação nada tem a ver com a produção de bonequinhos de chumbo. O processo de santificação está estreitamente ligado ao de individuação.

Pedro os insta a que cheguemos a Cristo, “pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa”. Semelhantemente, tornamo-nos “pedras vivas, edificados como casa espiritual”, para sermos “sacerdócio santo”, a fim de oferecermos “sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe. 2:4-5).

Esta não é a única vez em que encontramos esta analogia nas páginas do Novo Testamento. Portanto, seus leitores provavelmente estavam familiarizados com ela, e compreendiam que o novo templo erigido por Deus era composto de gente e não de tijolos inanimados. Bastava que Pedro se referisse a cada um de nós como “pedras” ou “tijolos”. Porém, ele, deliberadamente, acrescenta o adjetivo “viva”. Não somos apenas pedras, mas pedras vivas. Qual a razão de ele ter acrescido o adjetivo?

Tudo o que vive está em constante movimento. Não se trata de algo estático, mas dinâmico, em constante evolução e maturação. Assim somos nós. Nosso maior exemplo é Cristo, que sendo Deus, esvaziou-Se completamente,  para  submeter-Se ao processo de maturação. O escritor de Hebreus nos afiança que, mesmo sendo Filho, “aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu; e, tendo sido aperfeiçoado, veio a ser o autor de eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb.5:8-9).

Todos igualmente estamos envolvidos neste processo de aperfeiçoamento, “até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados ao redor por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” (Ef.4:13-16).

Como tijolos vivos somos devidamente assentados numa das paredes do santuário de Deus. Não somos mais tijolos soltos, vulneráveis e suscetíveis a qualquer vento. Todavia, depois de assentados, não deixamos de crescer. Trata-se do processo de individuação, a que Paulo chamou de “homem perfeito”, ou, homem completo, maduro. Deixamos de ser meramente pessoas para ser plenamente indivíduos. O termo “indivíduo” quer dizer indivisível, inteiro, íntegro.

Uma das características deste processo de individuação é a autenticidade.

Pedro diz que Cristo, como pedra viva e preciosa para Deus, sofreu a rejeição dos homens. O preço da autenticidade é ser rejeitado pelos padrões vigentes no mundo. Por não nos dobrarmos à padronização, somos tidos por rebeldes, insurgentes, seres exóticos que devem ser empurrados para as margens da sociedade.

Já não somos definidos pelos papéis sociais que desempenhamos, nem pelo status que alcançamos, ou por qualquer outra coisa. O que somos deriva-se do que Ele é. É de nossa relação com Ele e do lugar que ocupamos em Seu propósito que advém o significado de nossa existência.

Ao ser enviado por Deus para retirar o Seu povo da escravidão do Egito, Moisés perguntou-o: O que direi a eles? Em nome de que Deus me apresentarei? “Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx. 3:14).

As divindades egípcias eram conhecidas por seus nomes. Mas o Deus de Israel não poderia ser definido pela junção e pronúncia de alguns fonemas produzidos por lábios humanos. Para além de todas as definições, Ele é o que é. Por isso, Deus proibiu que Lhe fizessem imagens. Por mais talentoso que fosse o artista, ele seria incapaz de representar o Deus Criador dos céus e da terra numa escultura.

Este mesmo Deus ordenou que fôssemos santos, porque Ele é santo. Portanto, não devemos nos deixar definir por coisa alguma, senão pela graça que nos foi concedida por este Deus. É esta graça que possibilita ao homem mortal relacionar-se com o Deus Eterno e que deveria pautar nossa relação com o restante da criação. Com isso em vista, Paulo declara:

“Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo.” 1 Coríntios 15:10

O que faço não me define, mas revela quem sou. Ainda que eu faça mais do que todos os que vieram antes de mim, devo creditar o meu desempenho à graça, pois ela que verdadeiramente define quem sou. O que faço, faço porque sou. Mas não sou o que sou pelo que eu faço. Apenas cumpro o propósito de minha existência.

A santificação coloca cada coisa em seu devido lugar. Os fatores são devidamente ordenados para que não alterem o produto. A santificação realinha o significado de cada coisa, e nos faz vê-la em perspectiva.

Havia uma discussão entre os religiosos dos tempos de Jesus em torno do que era mais importante, o ouro ou o templo, a oferta ou o altar. Jesus colocou as coisas na perspectiva certa:

“Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta? Portanto, o que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está; e, o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita; e, o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele.” Mateus 23:16-22

Em outras palavras, o todo é que santifica as partes e não vice-versa. A oferta é santificada pelo altar onde foi depositada. Fora do altar, ela deixa de ser oferta, isto é, perde o seu significado como tal, e passa a ser apenas dinheiro.

Como indivíduos, nosso significado advém de nossa relação com o todo. Não confunda individuação com individualismo. Nossa relação com o todo é sinérgica e recíproca. Assim como o todo santifica as partes, as partes devem atribuir santidade ao todo e reconhecer a santidade de cada parte individualmente.

Não se trata de atribuir significado pela função que desempenha, e sim pela relação que se tem. Ser pai, por exemplo, agrega significado à nossa vida. É muito mais do que, simplesmente, um papel social.

Uma mão deve seu significado à relação que tem com o resto do corpo. Ainda que, eventualmente, ela fique imobilizada, não deixará de ser o que é.

Nossa relação abarca ao mesmo tempo, o todo e as demais partes de per si, independente da função desempenhada.

“Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros” (Rm. 12:4-5).

Repare no detalhe: somos membros do corpo, mas individualmente membros uns dos outros. Não se pode santificar o todo e desprezar as partes.

Não se trata apenas de ter consciência de sua existência e significado, mas também de se ver como parte de uma rede de cuidado mútuo. O que ocorre num extremo da rede, afeta o outro extremo. Estamos todos conectados. Por isso, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co.12:26).

Somente poderemos oferecer e receber cuidado se admitirmos nossa interdependência. De sorte que “o olho não pode dizer à mão: não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: não tenho necessidade de vós” (1 Co.12:21). Todos, invariavelmente, dependemos uns dos outros. E esta interdependência nos faz santificar uns aos outros, honrando-os, isto é, atribuindo-lhes significado especial e intransferível.

Retomando a analogia do santuário: somos pedras vivas posicionadas em seu próprio lugar nas paredes do templo, e, assim, coletivamente, tornamo-nos habitação de Deus. Ninguém é habitação de Deus em seu isolamento. Carecemos da relação com o todo. Nem tudo o que somos em conjunto, somos em particular.

Paulo diz que “todo o edifício bem ajustado cresce para templo santo no Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef. 2:21-22).

Muitos alegam terem deixado de congregar por serem eles mesmos o templo de Deus. Estes parecem ignorar a advertência bíblica de que “aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se contra a verdadeira sabedoria” (Pv.18:1).

A santificação visa nos preparar para a comunhão. Somos indivíduos aprendendo a nos relacionar com outros indivíduos, atribuindo-lhes significado, e respeitando e honrando seu próprio lugar no Todo. A santificação, portanto, é um processo que começa na individuação e culmina na comunhão.

Cada pedra viva é formada (individuação), depois encaixada em seu lugar (significação), e, finalmente, emboçada (comunhão). Todas as pedras juntas, unidas em amor, suportando umas às outras, formam o templo do Deus vivo. Todavia, nossa individualidade é mantida. Somos absorvidos pelo Todo, mas jamais dissolvidos. Por trás da camada de massa que cobre a parede ainda há tijolos assentados cuidadosamente uns sobre os outros.

Qualquer proposta de espiritualidade que promova a diluição do ser não deveria nem sequer se levada a sério. Tudo neste mundo parece conspirar para que o indivíduo perca sua identidade e passe a agir de acordo com decisões tomadas por outros. E é assim que certos grupos se perpetuam no poder.

Quando se perde a individualidade, deixando-se diluir, a pessoa é capaz de fazer coisas que jamais faria em sã consciência. É como se seu senso crítico ficasse em suspensão por um tempo. Fazem o que der na telha. Paulo nos adverte a não andarmos “como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração; os quais, havendo perdido todo o sentimento, se entregaram à dissolução, para com avidez cometerem toda a impureza” (Ef.4:17-19). A palavra chave desta passagem é dissolução, de onde vem o verbo dissolver. Nossos sentimentos são anulados. Nosso juízo é posto de lado. Agimos como que por instinto, mas, na verdade, apenas nos sujeitamos a uma consciência coletiva temporária.

Lemos em Êxodo 23:2 a admoestação que diz: “Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça.” Jamais permitamos que pensem e decidam por nós, por mais cômodo que isso pareça ser. Cada qual terá que responder diante de Deus por suas próprias escolhas.

Esperar dissolução por parte dos que não conhecem Deus pode parecer natural. O problema toma outra proporção quando os que se dizem porta-vozes da graça de Deus são os promotores da dissolução. Há que se redobrar o cuidado para que não sejamos enganados pela falsa espiritualidade dos tais. Desde os primórdios, a igreja tem tido que lidar com isso. Por isso, Judas denuncia os que se infiltram na igreja, e “convertem em dissolução a graça de nosso Deus” (Jd.1:4).

Nada mais contraditório do que usar a graça como pretexto para manipular as massas, levando indivíduos a abrir mão de sua individualidade, deixando-se dissolver.

Sejamos, portanto, sóbrios e atentos para que ninguém fale em nosso nome, usando-nos inescrupulosamente para atingirem alvos inconfessáveis. Comunhão, sim. Manipulação, jamais. Santificação, sim. Dissolução, jamais.

 

Santificação, amor e justiça

Qual deveria ser a motivação correta para a busca da santificação? Para muitos, tem sido o medo; medo do inferno, do diabo, de perder a salvação, e por aí vai. Outros julgam acumular méritos diante de Deus. Para estes, a santificação é uma moeda de troca. Se me santifico, posso cobrar de Deus o que quiser. Isto está mais para santiforçação. Santificar-se sobre tais bases equivale a construir sobre a areia movediça. A qualquer momento, tudo desaba.

A única motivação válida e aceita por Deus é o amor. Não nos santificamos por nós mesmos, visando algum benefício próprio, mas pelos outros.

Em Sua oração sacerdotal, Jesus rogou:

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.” João 17:17-19

O mais santo dentre os homens, mesmo sendo Deus encarnado, precisou santificar-se. Não por Si mesmo, mas visando o bem dos que Lhes foram confiados pelo Pai. Devemos, portanto, seguir os Seus passos e buscar a santificação que visa o bem comum. Paulo expressa seu desejo de que o Senhor nos aumentasse, e nos fizesse “crescer em amor uns para com os outros, e para com todos”, para que assim, nos tornássemos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai” (1 Ts.3:12-13). Nosso amor não deve ser direcionado exclusivamente ao grupo a que pertencemos. Pelo contrário, deve ser inclusivo. Ninguém deve ficar de fora de seu alcance. Somente assim alcançaremos o padrão de santidade esperado.

Se a motivação para a santificação deve ser o amor, o resultado dela deve ser a justiça. Não custa lembrar que justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Quando reconhecemos o lugar do outro, sem cobiçá-lo ou invejá-lo, mas estimulando-o a ocupá-lo plenamente, estamos pavimentando o caminho para a prática da justiça do reino de Deus. Na mesma epístola em que Paulo fala sobre crescer em amor para com todos, ele também diz:

“Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, uns para com os outros, e para com todos (…) Abstende-vos de toda espécie de mal. E o próprio Deus de paz vos santifique completamente.”  1 Tessalonicenses 5:15, 23a

Como amar sem se dispor a beneficiar a quem se ama? Como amar sem ser justo? Sem seguir o bem, uns para com os outros e para com todos? Tornamo-nos irrepreensíveis em santidade quando amamos indistintamente. Mas, somos santificados completamente quando promovemos a justiça indistintamente. Amar sem praticar a justiça é como encher o tanque do carro para deixá-lo na garagem.

Não basta ter disposição para fazer o bem. Há que se ter disponibilidade para tal. Os membros de nosso corpo, antes oferecidos como instrumentos de iniquidade (injustiça), apresentados “à maldade para maldade”, agora devem ser apresentados para “servirem à justiça para santificação” (Rm.6:19). Tiramos nossas ferramentas do almoxarifado da iniquidade para disponibilizá-las no balcão da justiça.

Servir à justiça é levantar as mãos cansadas, os joelhos vacilantes, e fazer veredas direitas para os pés, “para que o é manco não se desvie, antes seja curado”. E assim, seguimos “a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb.12:12-14).

Somos facilitadores. Em vez de dificultar o acesso, preferimos facilitar. Somos chamados a ser pacificadores, não agitadores. Buscamos e promovemos a paz. Todavia, a paz só é possível se precedida pela justiça. E a justiça só se estabelece quando precedida pelo amor. De trás para frente: o amor produz a justiça, e justiça produz a paz, e ambos pavimentam o caminho da santificação.

O mundo é um terreno acidentado, cheio de montanhas e vales, altos e baixos. O plano de Deus é aplainar, endireitar e nivelar este terreno. Quando finalmente a justiça for estabelecida, não haverá mais ricos e pobres, grandes e pequenos, dominantes e dominados; logo, não haverá luta de classes, nem injustiça social. Como profetizou Isaías:

“Todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro será abatido, e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a humanidade a verá, pois a boca do Senhor o disse” (Is.40:4-5).

Era com isso em mente que Jesus disse que sem a paz que é resultado da justiça e a santificação resultante do amor, ninguém verá o Senhor. O terreno precisa ser nivelado para que todos O vejam. Não se trata aqui daquela visão que teremos d’Ele no último dia, mas de discerni-lO no dia-a-dia, de enxergá-lO principalmente no outro, tanto no semelhante quanto no diferente, tanto no próximo quanto no distante. Para isso, temos que aplainar o caminho, remover as pedras, facilitar o acesso. “Passai, passai pelas portas; preparai o caminho ao povo; aplanai, aplanai a estrada, limpai-a das pedras” (Is.62:10). Como diz a canção de Roberto Carlos cantada pelos Titãs: “Toda pedra do caminho você pode retirar. Numa flor que tem espinhos, você se arranhar. Se o bem e o mal existem, você pode escolher. É preciso saber viver.”

Cumprir-se-á, então, o que fora profetizado por Isaías:

“E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.” Isaías 35:8

O imundo é o que insiste em atribuir profanidade à vida. É aquele cuja consciência não foi devidamente purificada. Afinal, “tudo é puro para os que são puros, mas para os corrompidos e incrédulos nada é puro; antes tanto a sua mente como a sua consciência estão contaminadas” (Tt.1:15). O imundo não consegue discernir a santidade intrínseca da vida do outro. Ele a profana, a banaliza. Por isso, não consegue tratá-lo com justiça. A vida do outro nada vale. Portanto, que direito ele teria?

Uma vez mais, Paulo nos admoesta:

“Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus. Recebei-nos em vossos corações; a ninguém fizemos injustiça, a ninguém corrompemos, a ninguém exploramos.” 2 Coríntios 7:1-2

Da mesma maneira como devemos santificar Cristo como Senhor em nossos corações, também devemos receber qualquer ser humano em nossos corações, garantindo-lhe cadeira cativa. Aos olhos de quem ama, todos são santos. Por isso é inadmissível que se faça injustiça a qualquer ser humano, ou que procuremos corrompê-lo ou explorá-lo visando nosso proveito próprio.

Ninguém deve ser reputado por banal, profano, comum, impuro. Como disse Jesus a Pedro: “Não chame impuro ao que Deus purificou” (At.10:15). Os europeus se acharam no direito de explorar os índios porque não conseguiam enxergar a sacralidade de suas vidas. O mesmo se deu com os negros feitos escravos. E com as mulheres ao longo de séculos. Elas nem sequer eram contadas nos censos. Visando corrigir isso, Pedro orienta aos maridos a tratarem suas respectivas esposas com honra, reconhecendo sua fragilidade, e vendo-as como co-herdeiras do dom da graça e da vida. Como se não bastasse, o apóstolo ameaça aos trogloditas de que suas orações não serão ouvidas, caso se neguem a atribuir à mulher o seu devido valor (1 Pe. 3:7). Leis como a “Maria da Penha” é uma tentativa de se resgatar o valor e a sacralidade da mulher. Documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente visam resgatar a sacralidade original da vida infantil. O trabalho infantil profana a mais bela das idades.

Quem percebe a santidade inerente da vida, recusa-se a usar quem quer que seja visando seus interesses. Usar alguém é coisificá-lo, vendo-o como um objeto que mais tarde poderá ser descartado. Quem assim age, atenta contra a sacralidade da vida, banalizando-a, profanando-a, aviltando-a.

Foi neste contexto que Paulo diz que a vontade de Deus é a nossa santificação, e que, portanto, devemos nos abster da fornicação (1 Ts.4:3). Engana-se quem pensa que fornicação seja sinônimo de sexo entre solteiros. O termo grego é “pornéia” que, em linhas gerais, significa impureza sexual, que pode ser claramente identificada como a coisificação do sexo. Mesmo casados podem estar fornicando quando se usam mutuamente na busca por prazer, sem considerar o sentimento e o prazer do outro. Paulo arremata:

“que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra; não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação” (vv. 4-7).

A questão não é o sexo em si, mas usá-lo com objetivo torpe de oprimir, enganar, lesar, tirar vantagem. Outras ferramentas além do sexo podem ser perfeitamente usadas para o mesmo intento.

Em Efésios 4:23-28, Paulo nos abre mais o leque:

 “E vos renoveis no espírito da vossa mente; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo. Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade.” Efésios 4:23-28

Definitivamente, a mentira e o furto não combinam com o nosso novo ser, recriado de acordo com a imagem de Deus, em justiça e santidade. Como poderíamos enganar a alguém sem que profanássemos a santidade das relações humanas? Como poderíamos lesá-lo sem antes lesarmos nossa própria consciência? Antes, preferimos a verdade ao engano, ainda que nos traga prejuízo. Arregaçamos as mangas e trabalhamos com o objetivo de termos o suficiente para repartir com o que nada tem. Dar lugar ao diabo nada mais é que cometer o sacrilégio de permitir sua intromissão em nossas relações.

Que seja o propósito de nosso coração que, “libertados da mão de nossos inimigos”, sirvamos a Deus sem temor, “em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida” (Lc.1:75). Que o inimigo de nossas almas jamais encontre espaço para profanar a santidade de nossa existência. Que deixemos de enxergar a vida sob a ótica do diabo (etimologicamente, aquele que divide, que compartimentaliza, que segrega), e passemos a enxergá-la da ótica divina, integrada, inteira, santa e repleta de sentido.

 

Fonte: Cristianismo subversivo.

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