A contradição de Cleantes (texto inédito)

       

© João Tomaz Parreira

 

“Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração”. – Discurso de Paulo em Atenas

O apóstolo Paulo discursava no Areópago e neste preciso ponto da sua afirmação, as suas palavras não soaram estranhas aos ouvidos gregos, filósofos epicuristas e estóicos, que compreenderiam a dialética de apoio utilizada. Embora a sua tarefa primordial não fosse um discurso cultural, o apóstolo conduziu os gregos para o terreno deles e usou dos mesmos referenciais literários a fim de que viessem a entender de que único Deus, Criador de todos os homens, se falava. A história do deus desconhecido, era mais estória do que um mito em torno de um facto, que séculos antes se passara com o sábio e talvez profeta Epiménides.

“Epiménides orou com voz profunda e cheia de confiança: “ó, tu, deus desconhecido! Contempla a praga que aflige esta cidade! E se de facto tens compaixão para perdoar-nos e ajudar-nos, observa este rebanho de ovelhas! Revela tua disposição para responder, eu peço, fazendo com que qualquer ovelha que te agrade deite na relva em vez de pastar. (…) As que escolheres serão sacrificadas a ti (nesse lugar) – reconhecendo nossa lamentável ignorância do teu nome”. (1)

E, em cada ponto onde as ovelhas pararam e repousaram na relva, aí se ergueu um altar.

Esse relato clássico tem um ponto de partida, que se invoca no diálogo entre Nícias e Epiménides. “Quantos são os deuses de Atenas?” inquiriu Epiménides. “Várias centenas pelo menos! replicou Nícias. “Várias centenas! foi a exclamação espantada de Epiménides. “Aqui é mais fácil encontrar deuses do que homens!” (op.cit)  

Já uma vez escrevemos que Paulo não tinha receio da transcultura e usava a linguagem adequada para o público que estava diante de si, no Areópago. E a sua referência e citação de poetas gregos, que funcionavam às vezes como oráculos, são paradigmáticos. Sobre isto não há muito a dizer, de novo, a não ser que Paulo esgrimiu, compreensivelmente, com um verso de Cleantes e que este foi contraditório no conjunto do poema dedicado à suprema divindade dos gregos.

A contradição

Todo o discurso poético do poeta Cleantes (331-215 a.C.) no seu hino a Zeus, (e, já agora, a réplica contemporânea de outro poeta, Aratus, na sua obra “Phenomena”), está escrito num tom elegíaco.

O facto de ser um poeta “religioso” e um estóico, tal como o poeta didático Aratus, revela-se naturalmente na religiosidade do seu poema centrado não no ser humano, mas no “deus de muitos nomes e sempre poderoso.” A primeira contradição.

Os estóicos tinham um sentido prático, sem luxos, sobrelevando a dignidade da moral, daí a primeira perplexidade perante o que se julga saber de Cleantes. Um dos princípios morais do estoicismo era o domínio de todas as paixões e a aceitação do destino, usavam a filosofia como resignação, por isso se estranha o seu alegado suicídio.

O recurso à chamada “morte voluntária” (para usar a expressão de Nietzsche), não se coaduna com os seus versos laudatórios ao deus grego.

A segunda contradição parte do terceto seguinte:

“Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,

nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,

excepto os actos dos malvados na sua demência.”

Numa única grelha de leitura interpretativa, o que se nos depara é que, afinal, Zeus é um deus que não controla as suas criaturas, embora segundo Cleantes “tudo governe com leis”. É a dedução que se extrai do verso, o qual se evidencia como um oximoro no discurso poético. “Nada se faz…excepto” E este “excepto” não condiz com os atributos de um deus.

Cleantes pronunciou sobre “o mais glorioso dos mortais” um louvor e o seu contrário.

Nos dias de Paulo em Atenas

Paulo, demonstrando ser leitor de outras literaturas e culturas, conhecedor do Hino a Zeus, de Cleantes, e a “Phenomena” (“Aparências” no grego), esgrimiu com ele para conduzir os ouvintes ao Único Deus, o Deus dos Cristãos, sim, mas o Criador da Humanidade e do Universo, que não confrontando cristianismo com paganismo, realça antes Jesus Cristo e a Sua ressurreição e adverte – como alguém escreveu – sobre o juízo iminente de Deus sobre os homens com o intuito da sua conversão urgente. Já naqueles dias tão remotos.

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1-    Citado na obra “O Factor Melquisedeque – Testemunho de Deus nas culturas através do mundo”, Don Richardson, Vida Nova, 1995, pág. 9

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