Da simbólica do naufrágio em Homero, São Lucas e Camões (texto inédito)

 

© José Brissos-Lino

 

 

As literaturas mediterrânicas antigas convergem pelo menos num ponto, as viagens marítimas e os inevitáveis naufrágios. No caso português há até uma História Trágico-Marítima (1), isto é, uma história dos naufrágios, a condizer perfeitamente com o Portugal das caravelas e dos Descobrimentos, entre muitos outros escritos de navegações. A vocação marítima desta pequena faixa plantada à beira-mar, com os castelhanos nas costas, só podia arriscar-se às aventuras no Atlântico, de início, e depois, dobrado o cabo austral, por esses mares desconhecidos fora.

Odisseia

O que é a Odisseia, de Homero, essa obra fundadora da cultura ocidental, senão uma metáfora do arco da existência humana a partir de uma viagem por mar, no regresso da guerra de Troia. Ulisses, o herói, sofre diversos naufrágios e toda a sorte de vicissitudes durante esses longos e agitados anos do regresso a Ítaca, de volta à sua amada Penélope.

Essa aventura tem por pretexto a estultícia do herói e a vingança de Posídon, o deus dos mares:

“E todos os deuses se compadeceram dele, todos menos Posídon: e até que a terra o alcançasse, o deus não domou a sua ira contra o divino Ulisses” (2).

O homem é confrontado consigo próprio, com os limites da sua humanidade e as contingências da sua condição mortal, enquanto são provocadas e desencadeadas todas as suas energias internas, de modo a enfrentar o conjunto dos perigos, enganos e adversidades do percurso.

Como herói que é dos Gregos, cantado pelos aedos, Ulisses representa a humanidade nas suas fraquezas mas também nas suas potencialidades em lutar contra os homens e os deuses, conquistando assim o seu destino a pulso. Para tal, contou com a ajuda dos deuses “bons” que se puseram a seu lado contra os “maus”.

Nem sequer se pode dizer com segurança que a Odisseia represente em Ulisses o homem ocidental, uma vez que se verificam “semelhanças curiosas entre a epopeia grega e textos hititas, sumérios e acádicos”, segundo o tradutor Frederico Lourenço (3). O herói grego representará mais, portanto, o ser humano na sua totalidade.

A evangelização de Malta

Talvez influenciado pelo mais que provável conhecimento da Odisseia, São Lucas, o evangelista de ascendência e cultura gregas, acaba por descrever nos últimos capítulos do livro de Actos dos Apóstolos (4) um naufrágio do apóstolo Paulo na última das suas viagens missionárias, já sob prisão, a caminho de Roma.

Surpreendentemente descreve-o com tal pormenor – à partida aparentemente desnecessário num texto sagrado – que se enquadra literariamente no âmbito da literatura de viagens. Menciona a rota, o tipo de embarcação, os ventos, os portos, as vicissitudes da navegação, a intervenção do piloto e do mestre, a tempestade, o número de tripulantes e passageiros, e outras informações supostamente mais próprias de outras literaturas. Descrevendo a estadia dos naufragados na ilha de Malta, o autor do livro insiste no mesmo estilo mais adiante, no capítulo seguinte, entre os versículos dez e treze.

Provavelmente Lucas quererá dizer-nos algumas coisas como: no meio da maior adversidade Deus está com os seus filhos; ou que o naufrágio foi uma oportunidade para evangelizar a ilha de Malta; ou que era propósito divino que Paulo ficasse dois anos a pregar a Palavra na capital do império. Entre muitas outras interpretações possíveis.

No seu relato a Teófilo, talvez Lucas, o escritor sagrado, não tenha resistido a um enquadramento cultural contemporâneo, de registo grego, aqui como em outras ocasiões, onde regista a passagem do apóstolo dos gentios por Atenas (5), incluindo referências às suas discussões com os epicureus e os estóicos, de que resultaram algumas adesões à fé cristã (6), não se furtando até a citar até os seus afamados poetas (7).

 

Os Lusíadas

O vate lusitano também não escapou à simbólica do naufrágio. Era inevitável.

Mas Luís de Camões representa essa inevitabilidade de uma forma curiosa. É ele mesmo que vira náufrago, na foz do rio Mécon, onde lhe morre:

“a moça china que trazia, mui formosa, com que vinha embarcado e muito obrigado”

e luta para salvar a sua obra-prima que canta a gesta lusitana, Os Lusíadas – “o tesouro do Luso”, como lhe chamou Cervantes –, salvaguardando deste modo a honra e a glória de Portugal.

Também Luís Vaz se deixa influenciar pelos clássicos, inclusivamente por Homero, a tal ponto que termina o seu relato simbólico da aventura das naus do Gama citando, nos seus dois últimos versos, tanto Alexandre como Aquiles:

“De sorte que Alexandre em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter enveja.” (8)

Conclusão

Assim, podemos dizer que em Homero os naufrágios de Ulisses são resultado da relação dialéctica entre o herói e o deus dos mares, que afrontou, numa espécie de duelo permanente em que a força bruta tenta vergar a inteligência de Ulisses e destruir-lhe o sonho legítimo do regresso a casa. Nesse confronto duro e persistente vão sendo testadas as energias físicas, psíquicas e mentais do herói.

Já em Lucas, o naufrágio serve para ensinar algumas lições aos viajantes, mas também ao próprio apóstolo. De um ponto de vista mais prático, porém, terá servido essencialmente para levar o Evangelho pela primeira vez à ilha de Malta, não apenas com palavras mas com “os sinais que se seguem” aos que crêem (9), como no caso da serpente venenosa que morde Paulo sem que o perturbe minimamente (10).

Mas o naufrágio de Camões representa sobretudo um episódio romanesco, ou pelo menos romântico, de preservação da memória de um povo, no jeito de epopeia tão ao gosto da época.

Em suma, a desgraça do naufrágio serve sempre para ilustrar ou ensinar qualquer coisa aos pobres mortais que se sentem impotentes (mas não desistentes) face à força bruta das águas revoltas nos oceanos do mundo.

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(1) BRITO, Bernardo Gomes de, Historia Tragico-Maritima. Em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegaçaõ da India, 2 tomos, Lisboa, Lisboa Occidental, Officina de Congregação do Oratorio, 1735-1736.

(2) Odisseia, Homero, Ed. Cotovia, 2008, Canto I, 20.

(3) idem, LOURENÇO, Frederico, (Introdução).

(4) Cap. 27.

(5) 17:15-34.

(6) vs. 34.

(7) vs. 28.

(8) Canto X, 156.

(9) Evangelho de Mateus, 16:17.

(10) Actos dos Apóstolos 28:1-6.

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