O sentimento da Pátria nos cânticos (texto inédito)

 

© João Tomaz Parreira

 

A pátria é sempre o lugar aonde se deseja regressar. Ortega y Gasset definia a propósito de Portugal que dois sentimentos se contrapunham: “a descoberta” como ansia de partir e a “saudade” como desejo de voltar. (1)

Mesmo que esteja a perder ou tenha já perdido a glória. Lágrimas sobre a pátria não são apenas dos homens, Jesus Cristo chorou sobre a sua pátria e a sua cidade terrenas. E as seis linhas expressivas da sua lamentação sobre Jerusalém não transportam em si nenhum moralismo legalista, pelo contrário, são um ressonante Cântico breve, do Amor decepcionado, entristecido e sublime (Mt 23,37)

Qualquer hino encomiástico sobre a pátria, para além do lirismo ou misticismo que contenha, assuma a forma de um gazel comum na escrita persa antes de Cristo ou o epopeico dos nossos Lusíadas, é sempre fundado sobre a experiência.

Pode ser a experiência da perda, ou a das vitórias, porque o Cântico não pode perder a perspectiva da diegese da História.

 

O Cântico de Moisés

Êxodo, 15

Segundo a Bíblia hebraica, o Velho Testamento, o Cântico de Moisés quando o povo irrompeu do Mar Vermelho, é o mais antigo cântico sobre o sentir a Pátria como dádiva de Deus, a Canaã do leite e do mel. É uma narrativa de vitória e das obras maravilhosas de Deus – escreveu no século XIX Mackintosh.

No campo da literatura universal está referenciado como o poema mais velho do mundo. Talvez porque a poesia das grandes literaturas desse período (1500 a.C), como a Suméria, tenha desaparecido, e o Cântico de Moisés, preservado na Bíblia Sagrada, se conserve como possuindo uma sublimidade e formosura de linguagem que não tem rival.

Diante deste hino, vemos que muito antes da pátria física, um locus definitivo,  já havia um sentimento nacional de gratidão que deveria ser expresso em cântico. E este contém história e teologia, na vertente profética no que concerne ao que Deus prometeu ao seu Israel e o que deste requer.

“ Espanto e pavor cairá sobre eles (os príncipes de Edon); pela grandeza do teu braço emudecerão como pedra; (…) até que passe este povo que adquiriste” (verso 16)

É o cântico nacional, onde o ego nacionalista não existe, antes torna notória em Israel “a grande mão que o Senhor mostrou aos egípcios”. (14, 31)

A poética está, obviamente, em presença na metáfora que aponta o desmoronamento e o silêncio das hostes inimigas diante da força do braço divino: “emudecerão como pedra”.

Com efeito, os meios estilísticos usados na diegese pelo autor do Êxodo, reforçam com a poética e a metáfora, a historicidade do acontecimento. “Cantarei ao Senhor – começa assim o Cântico- porque sumamente se exaltou”. Exaltou na História de Israel, abrindo caminho à alegria de ter uma Pátria na Palestina (verso 14). Mas a glória da pátria, era a Glória de Deus.

 

Canti (Cantos), de Giocomo Leopardi     

A obra mais importante da poesia oitocentista italiana, reflecte tristeza, desânimo e dor. Desenvolve uma história social e política sem paz e canta uma “nação” vencida, sem glória. O anti-lirismo da visão do poeta é manifesto, desde o início:

“O pátria mia, vedo le mura e gli archi / e le colonne  e  i simulacri e l’erme /

 torri degli avi nostri, / ma la gloria non vedo”  ( «Eu vejo as paredes e os arcos / e as colunas e as estátuas e as solitárias / torres dos  nossos avós / mas a glória não a vejo»)

Esta invocação inicial traduz a nostalgia e a dor incurável pela perda da grandeza da pátria, que, segundo o poeta, “foi Senhora e agora é uma pobre escrava.” (“che fosti donna, or sei povera ancella”)

Muitos séculos atrás, também Israel estava a perder a sua glória e de Senhora na Palestina passaria a escrava na Assíria e Babilónia.

 

Cântico da Vinha, de Isaías

Antes de serem os lábios de um profeta, que teria de confrontar a casa de Israel  proferindo a profecia da desintegração nacional por causa da iniquidade, os lábios de Isaías foram lábios de poeta.

«Cantarei ao meu amado, o cântico do meu amado a respeito da sua vinha» (Isaías 5)

Desde logo, o inevitável instrumento aplicado do paralelismo da poesia hebraica, de um modo tautológico, repetição na qual se invoca liricamente um cântico que corresponde ao sentimento de posse de algo amável. Uma vinha.

«O meu amado teve uma vinha num outeiro fertilíssimo. / Sachou-a, limpou-a das pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre, e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. (…) // Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito?»

Há no cântico do profeta uma técnica facilmente verificável de parábola. Literariamente, a técnica da figura, da tipologia, diria mesmo de semiótica divina por causa dos sinais (símbolos) com que identifica o fracasso espiritual da nação de Israel.

A invocação do poeta, dizendo-nos qual o teor do seu canto, qual o objecto comunicável do mesmo, conduz-nos a sensibilidade para o desfecho trágico. Não há acção, mas existe lirismo, sem rima, nem métrica, mas com paralelismos. Há desenlace, elemento integrante da epopeia. Harmonia e ritmo. Podemos perceber uma proposta do narrador poético acerca dos cuidados que o dono da vinha teve, as metáforas “uvas boas”, “uvas bravas”.

 

Pode não parecer pelo desenlace final, mas é um cântico do amor decepcionado de Jeová pela sua Vinha-Israel. De certo modo, só iria ter um paralelo com a lamentação de Jesus Cristo sobre a cidade de Jerusalém.

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(1)   “Saudade”, José Ortega y Gasset, Sete Caminhos, 2005 

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