A justiça hebraica face ao ethos abraâmico (texto inédito)

 

 

 

“Destruirás também o justo com o ímpio?” (Gn 19:23)

  

 

(c) José Brissos-Lino

 

  

Muitos se debruçaram já sobre o sentido de justiça de Deus, o qual é descrito pelo Antigo Testamento como “o juiz de toda a terra” (1), e sobretudo sobre a justiça entre os homens (ou a ausência dela), não faltando aqueles que vacilam entre negar a existência de Deus e atribuir-lhe a responsabilidade por todos os males do mundo dos homens.

Interessa-nos aqui, porém, reflectir sobre o sentido de justiça do patriarca Abraão, o indivíduo que Deus foi buscar à Caldeia e em quem apostou para lhe dar um novo rumo, uma descendência numerosa, uma terra farta e uma revelação pessoal de Si mesmo enquanto Deus único e verdadeiro, por contraste com os deuses pagãos mesopotâmicos.

Particularmente, interessa-nos um momento preciso da história do caldeu feito hebreu. Trata-se do diálogo estabelecido com Iavé, o Deus revelado, a propósito do anúncio da destruição de Sodoma e Gomorra, as cidades do pecado nas campinas do Jordão. Esse “duelo” verbal entre Deus e Abraão, relatado na bíblia hebraica, está descrito no Livro de Génesis (2) e reveste-se de características singulares.

Depois de Loth ter abandonado o clã do tio Abraão, devido aos custos da bênção da prosperidade divina, de que foi usufruindo pelo facto de estar sob autoridade e protecção de Abraão, o homem que tinha uma aliança com Iavé, Loth foi-se internando nas campinas do Jordão, cada vez mais próximo da cultura e da religião cananita, abandonando assim o Deus de seu tio. A ascensão social de que parece ter gozado no início (3), em especial já dentro da cultura urbana, acabou por se transformar em maldição, de forma repentina, tendo contribuído – ele e a sua família – para suscitar a ira divina sobre a cidade. Com efeito, vamos encontrar Loth sentado junto à porta de Sodoma, local onde o conselho de anciãos que governava as cidades antigas permanecia, a fim de conhecer de imediato as notícias que chegavam pelos viajantes e mercadores. Certamente que integrava tal órgão.

Logo que Abraão tomou conhecimento das intenções justicialistas de Iavé dispôs-se a interceder de pronto pelo sobrinho e seu agregado familiar. O patriarca não compreendia como era possível que o seu Deus castigasse as cidades do pecado, sacrificando igualmente um punhado de justos. Estava iludido. Não havia cinquenta justos na cidade, nem quarenta e cinco, nem quarenta, nem trinta, nem vinte, nem dez. O processo intercessório só parou quando Abraão ficou inteiramente descansado de que certamente Loth teria à sua volta pelo menos dez justos. Mas enganou-se. Até o núcleo familiar do sobrinho já se tinha deixado corromper pela cultura pecaminosa e os deuses estranhos da cidade.

Note-se que Abraão de certa forma continuava a sentir-se responsável moral por Loth, apesar de este ter cortado todas as ligações com o clã. Foi devido a esse peso que Abraão levou os seus homens a lutar contra os reis da região que tinham levado cativo Loth e a família, e a resgatá-los assim como ao despojo (4). Essa é a mesma razão que leva agora o patriarca a ousar arriscar a ira de Deus ao insistir na intercessão continuada em favor do sobrinho, como quem regateia um preço no mercado, de forma a roçar mesmo o inconveniente.

Mas a questão central que chama particularmente a nossa atenção é o conceito de justiça abraâmico, que dificilmente entendia que Deus sacrificasse os justos pelo pecado dos injustos. A ética de Abraão não suportava tal mistura. Se Deus era justo porque razão se entregaria a tal injustiça?

O monoteísmo hebraico viera acabar com o conceito pagão de uns deuses maus e outros bons, de quem vinham os castigos, no primeiro caso e os favores, no segundo. Agora, com um Deus único e verdadeiro, Criador dos céus e da terra, havia que considerar atribuir-lhe um elevado sentido de justiça, pois dele e só dele viriam recompensas e punições aos homens. Não poderia ser um deus cego e vingativo, sujeito ao pathos como os homens ou as demais divindades da terra.

Este ethos abraâmico virá a encontrar dificuldades mais tarde, em episódios bíblicos onde crianças, mulheres e animais são sacrificados como punição de quem se opõe ao povo de Iavé. Todavia parece que o antigo Israel convivia bem com essa realidade, ou seja, o seu Deus destruiria tudo e todos a fim de preservar o seu povo, com quem estava em aliança. Digamos que a justiça hebraica se conformou, afinal, com o sentido de justiça das culturas contemporâneas ou mais antigas, como se comprova pelo facto dos princípios legais do velho Código de Hamurabi terem acabado vertidos na lei de Moisés, como é o caso do “olho por olho e dente por dente”.

Mas a estupefacção do patriarca persiste:

“Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (5)

Há aqui uma espécie de confrontação entre duas partes que estão em aliança, circunstância que permite chamadas de atenção sempre que necessário. Abraão, sem nunca deixar de se reduzir à sua insignificância (“Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza”) (6) não perde a oportunidade para confrontar Deus com a sua ira anunciada, como reacção epidérmica ao pecado da cidade (7), levando-o a reter a sua mão em nome de um pequeno punhado de justos.

Encontramos aqui, igualmente, o princípio do valor intrínseco do indivíduo em si mesmo, mais tarde explanado no Evangelho:

“Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados” (8).

Ou: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (9).

Ou ainda: “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (10).

Cremos, portanto, que a ética abraâmica, sendo pré-mosaica, é muito mais próxima do Evangelho por deixar transparecer um vislumbre do carácter de Cristo, quer do ponto de vista da importância e dignidade intrínseca de cada indivíduo, que transporta em si mesmo a imagem de Deus, como também da ética divina ancorada num apurado sentido de justiça. Também aqui Abraão viu mais longe, não se deixando condicionar pelo espírito da época. Também aqui se mantém como inspiração para o crente dos nossos dias.

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(1)    Génesis 18:25. 

(2)    Génesis 18: 17-33.

(3)    Génesis 19:1.

(4)    Génesis 14:12-24.

(5)    Génesis 18:25.

(6)    Génesis 18:27.

(7)    Génesis 18:20.

(8)    Tiago 5:20.

(9)    João 3:16.

(10)        Mateus 10:30.

 

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Um pensamento sobre “A justiça hebraica face ao ethos abraâmico (texto inédito)

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