A reforma

 

Jorge Pinheiro 
Num artigo desta natureza ― que considero não tanto de divulgação mas de efeméride ― não é possível primar pela análise exaustiva das causas e das consequências da Reforma. Isso forçosamente tornaria o artigo demasiado extenso o que, por consequência, iria afectar não só a paciência do leitor como também a própria revista Bara. Assim, não vou falar de muitos pormenores mas apenas relembrar o essencial. Talvez num futuro próximo surja um estudo mais pormenorizado do tema e aí, sim, se exigirá um maior rigor. Relembremos, então, o que foram e o que provocaram esses anos iniciais do século XVI.O dia 31 de Outubro é considerado o Dia da Reforma por ter sido a 31 de Outubro de 1517 que Martinho Lutero colocou à porta da igreja de Wittenberg, onde era doutor de Teologia, 95 teses em que atacava não só as indulgências cuja venda era feita por Tetzel, enviado do bispo de Mogúncia, mas também o sistema religioso da Igreja.

Com a venda das indulgências (em que se garantia o perdão dos pecados a quem as comprasse), o Papa pretendia realizar dinheiro para a construção da igreja de S. Pedro em Roma.

Para Lutero, que já não se encontrava muito firme na sua fé católica, por verificar que a Igreja não se pautava pelos ensinos bíblicos e por ela falhar em lhe responder aos seus anseios e inquietações espirituais, aquilo foi a gota que fez transbordar o cálice. E num gesto próprio do seu temperamento impulsivo, abre a polémica com o anúncio público das 95 teses já referidas, talvez sem antever as consequências futuras nem se dar conta de que a sua rebelião não iria ser sufocada. O certo é que esse gesto tornou-se histórico e é nesta data que podemos colocar a fractura do bloco monolítico da Igreja Ocidental em dois. Havia nascido a Reforma!

A Reforma ter-se-ia dado mais tarde ou mais cedo, mesmo sem Lutero. E dar-se-ia porque estavam criadas todas as condições para o espoletar da crise que todos sentiam latente.

Anteriormente a Lutero houve tentativas de reformar a Igreja. Tentativas levadas a cabo dentro do próprio sistema e tentativas que provocaram movimentos autónomos em relação a Roma.

S. Francisco de Assis (1181-1226) que deu origem à Ordem dos Franciscanos ou Frades Menores, fez voto de pobreza e entregou-se ao serviço dos desafortunados e à imitação de Cristo. Durante os séculos XII e XIV, os Franciscanos denunciaram, através do seu exemplo, a decadência espiritual da Igreja.

Ainda nos séculos XII e XIII, temos o movimento dos Cátaros (ou Puros), conhecidos em França por Albigenses, que apelavam a uma santidade mais intensa e a uma fraternidade universal de todos os homens.

Na Itália, também no século XII, os Valdenses rebelam-se, atacando a riqueza e o luxo do clero.

Na Inglaterra, Wycliffe (1323-1384) traduz a Bíblia para Inglês, ataca o Papa e denuncia o sistema cristão então vigente.

Na Boémia, João Huss (1373-1415), influenciado por Wycliffe, prega o retorno à simplicidade evangélica da primitiva igreja de Actos.

Todos estes movimentos de rebelião contra a doutrina e autoridade da Igreja provocam uma erosão desgastante do sistema. E consoante os casos, a Igreja vai reagindo. Ou tentando absorver os movimentos, como no caso dos Franciscanos ou eliminando à força, como no caso dos Albigenses, contra quem levantou a Inquisição, entregue aos cuidados dos Dominicanos e como no caso de João Huss, a quem condenou à fogueira. Ou então, vingando-se a posterioriem Wycliffe cujos ossos, em 1428, mandou exumar e queimar.

Lutero tinha atrás de si não só estes movimentos semiabortados que, no fundo, eram o reflexo e o porta-voz dos anseios do povo que reclamava uma reforma da Igreja, que se deixara corromper e se afastara das normas bíblicas, mas também um nacionalismo não sufocado dos príncipes alemães e demais reis europeus que há muito vinham lutando contra a influência e interferência do Papado nos seus negócios de Estado. A tais soberanos, a luta de Lutero não podia deixar de interessar e de ser apoiada.

A este respeito, tenha-se em conta a degradação e o desgaste sofrido pelo Papado com o Cativeiro de Avinhão (1309-1377) e o Grande Cisma do Ocidente (1378-1414) que termina com o Concílio de Constança, que elege o papa Martinho V. Então, era já demasiado tarde para a Igreja recuperar o seu prestígio. A partir de agora, é tudo uma questão de tempo.

Há que ter ainda em conta dois elementos mais na preparação do eclodir da Reforma e que a ela não são estranhos. Refiro-me à Renascença e à imprensa.

E, numa análise fugidia, pode dizer-se que estes dois elementos são a chave que explica o não abortar da Reforma. Com efeito, a Renascença e a imprensa como uma revolução cultural e mental e como uma bomba de detonador retardado contribuem decisivamente para que o gesto de Lutero não tenha o mesmo destino das revoltas-reformas que o antecederam ― a sua integração ou o seu desarticulamento.

A imprensa, que podemos datar de 1450, importa para e Reforma por dois motivos: primeiro, porque pela facilidade e velocidade de impressão de livros, as obras literárias passam a ter uma maior circulação e a ser mais acessíveis, o que origina a popularização da cultura e o alargamento do universo mental das populações, o que prepara o terreno para a divulgação das ideias reformistas (e não só); segundo, porque Lutero aperceber-se das conquistas e do valor da imprensa quanto à divulgação do seu pensamento. Disso dá provas ao traduzir a Bíblia para a língua do povo que é impressa e distribuída logo de seguida e ao escrever uma série de obras que têm o mesmo destino que a Bíblia.

A Renascença, por seu lado, ao ressuscitar o ideal greco-romano solapa o pedestal de autoridade do Papado em pelo menos dois níveis: primeiro, porque ao fazer do Homem o centro do universo, defende intransigentemente a liberdade individual e destrona o primado de uma teocracia podre; segundo, porque ao divulgar a língua grega e o seu estudo, leva a que os homens se interessem por ler o Novo Testamento no original, desvendando tesouros até então escondidos e que irão explodir sob os pés debilitados do Papado.

Lutero não estava só na sua luta ― tinha o terreno preparado e soube aproveitar e aproveitar-se não só das armas ao seu alcance mas também do poder que elas lhe facultavam. E aí está a força, o segredo e o mérito de Lutero. À sua semelhança, vivemos tempos que se equiparam ao tempo em que viveu, pelo circunstancialismo que nos rodeia. E surge-nos terminar parafraseando o título de uma obra de Jean-Paul Sartre: Os dados estão lançados.

Fonte: Revista Bara, nº. 0, Jan-Mar. 1979.

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