Crise de Deus e mística do quotidiano

Anselmo Borges

Não há dúvida de que hoje, concretamente na Europa, há uma crise da religião, que é sobretudo uma crise de Deus. Basta perguntar, de modo simples: para quantos é que Deus ainda conta realmente nas suas decisões vitais, tanto no domínio pessoal como colectivo?

As estatísticas mostram uma queda acentuada e constante da chamada prática religiosa, no sentido da frequência da missa ou dos serviços religiosos. Mas, como sublinha o teólogo Juan Martín Velasco, o centro da actual situação religiosa na Europa é a “crise de Deus”: há cada vez mais áreas da vida pessoal e social a afastar-se da influência da religião, de tal modo que não falta quem se pergunte se não vivemos já num “exílio” cultural de Deus, que se tornou um estranho no nosso mundo.

Apesar dos novos movimentos religiosos nas suas variadíssimas manifestações, tudo parece passar-se como se Deus não existisse. As próprias Igrejas e os crentes foram contaminados pela dúvida e pela descrença, sobretudo na forma da indiferença.

Vive-se numa situação de “cultura da ausência de Deus” (J. Moingt), tendo o filósofo B. Welte podido escrever: “A experiência predominante neste contexto religioso é a experiência de não ter feito nenhuma experiência religiosa, isto é, não ter sido afectados, nem, muito menos, transformados por algo que possa ser denominado Deus.”

Mas não poderá ser esta “crise de Deus” ao mesmo tempo uma crítica e um apelo? Por um lado, uma crítica a todas as concepções idolátricas de Deus: o Deus tapa-buracos, recurso da nossa ignorância e impotência, o Deus como chave de abóbada do sistema sociopolítico e integrado pela razão no sistema explicativo da realidade. Por outro, o apelo a uma fé que esteja verdadeiramente à altura do Deus divino.

Foi neste contexto que Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, teve aquela afirmação profética: O cristão de amanhã “será místico”, ou não será cristão. Quando dizia “será místico”, não se referia ao mero sentimento nem falava de mística com o sentido de fenómenos extraordinários, como visões, estigmas ou levitações. Queria apenas dizer que o cristão fará a experiência pessoal de Deus.

Fernando Pessoa tinha razão, quando escreveu: “Não acredito em Deus porque nunca o vi.” Se não houvesse, de facto, nenhuma experiência de Deus, se ele se não mostrasse, se não se desse nenhuma possibilidade de encontrá-lo ou, melhor, de ser encontrado por ele, como é que alguém poderia acreditar?

O homem religioso faz a experiência do Sagrado, que a fenomenologia da religião também denomina de “Mistério”: Presença originante e doadora de toda a realidade. É Presença enquanto Transcendência radical no centro da realidade e da pessoa e, assim, Imanência, isto é, Presença mais íntima à realidade e à pessoa do que a sua própria intimidade.

Definindo a mística como a união do “fundo da alma” (Mestre Eckhart) com o todo, o universo, o absoluto, o divino, a realidade última, Deus ou o Espírito, deve dizer-se que ela faz parte de todas as religiões, mas as suas formas são múltiplas, de tal modo que, para lá das místicas religiosas (monistas e teístas), se pode falar de místicas “profanas”, sem excluir a mística “ateia”, que se dão em experiências- cume, como a união com e no Todo, para lá do universo físico-empírico, na forma da Unidade do real, da Beleza, do Bem ou do mistério incrível do Ser.

A especificidade do crente teísta acontece na experiência de entrar em contacto pessoal com a Realidade última transcendente e imanente, que se dá a si mesma em acto de presença. É nesta Presença que ele encontra o Sentido último e a salvação.

Há sinais de transcendência no mundo. Deus aparece implicado nas experiências radicais e originárias da experiência humana, sendo todas elas, em última análise, expressão do reconhecimento de que só no Infinito o finito encontra a sua verdade, como bem viu o filósofo Hegel, quando escreveu que a filosofia é como a religião, pois também a religião não reconhece a finitude “como um ser verdadeiro, um último, absoluto ou como um não-posto, não criado, eterno”.

Mística, etimologicamente, provém de myein, que significa fechar a boca e os olhos. Mas, agora, compreende-se que a mística autêntica é a “mística de olhos abertos”. Quem faz a experiência de Deus como Fonte originária criadora e amorosa, que continuamente está a criar tudo quanto há, sabe que no mesmo acto com que ama Deus ama toda a criatura e em todo o seu quotidiano está vinculado a Deus como a corrente à Fonte.

Fonte: DN.

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