O “profeta” Vergílio

 

 

 

 José Brissos-Lino

 (Da obra “O Grito da Semente”, Ed. Edium, 2010)

 

Haverá profecia messiânica nas “Bucólicas” de Vergílio?

As Bucólicas (do grego βουκολική ἀοιδή, «canto de pastores»), também conhecidas como Éclogas («poemas escolhidos»), obra de estreia do grande poeta latino Públio Vergílio Marão (nascido em 70 a.C., perto de Mântua, no Norte da Itália), terão sido escritas entre 41 e 37 a. C. O cenário será, supostamente, a paisagem bucólica da Arcádia, na zona montanhosa situada no centro do Peloponeso.

Terá sido Asínio Polião que introduziu o poeta no círculo de Mecenas, que o encarregou de escrever as Geórgicas, obra que Vergílio dedicou ao labor agrícola e vitivinícola, na qual se aliam a poesia, a ciência e a ruralidade. Mas foi só com a Eneida que Vergílio viria a tornar-se imortal. Durante onze anos (30-19 a.C.), dedicou-se a compor a gesta mítica de Roma, escrevendo um poema heróico, protagonizado por Eneias, capaz de ombrear com a obra épica de Homero.

Tomando como modelo Teócrito (poeta grego do século III a.C., criador, com os seus Idílios, do género bucólico), o poeta latino escolhe o ambiente pastoril (a palavra «bucólico» radica no grego boukoloi, «boieiros», mais particularmente, boukolikós) como cenário para a sua poética, recheada de reflexões de carácter filosófico.

Na que leva o número quatro (são dez ao todo), com cerca de 63 versos, o ambiente escapa ao habitual conceito bucólico, à excepção de uma referência pastoril, na abertura, uma invocação que ocupa apenas os três primeiros versos.

Celebra o nascimento de um menino que não identifica. É provável que este poema recheado de mistério e sinais proféticos seja uma celebração pelo fim da guerra civil e um símbolo do futuro que se prevê próspero, já que se deduz que será pela mão dessa criança que chegará uma idade de ouro.

Sobre a identidade e natureza da criança cantada no poema várias são as teses, mas alguns autores cristãos da Antiguidade sugeriram que se trataria de uma profecia pagã, relativa ao nascimento de Jesus Cristo, na linha de Constantino – segundo o testemunho de Eusébio de Cesareia – e Agostinho de Hipona, que defenderam ser possível a manifestação divina através de elementos pagãos.

Nesse sentido os livros sibilinos, nos quais se apoia o mito do regresso da Idade de Ouro, poderiam conter profecias sobre o advento do Messias esperado pelos judeus.

Jerónimo, porém, identifica este menino como o filho de Polião, e rejeitava a tese messiânica. Com efeito, o poeta dirige-se ao cônsul Polião, anunciando o nascimento de uma criança, que governará e trará a Idade de Ouro a Roma:

magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.

Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;

iam noua progenies caelo demittitur alto.

Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum

desinet ac toto surget gens aurea mundo,

casta, faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.

Teque adeo decus hoc aeui ,te consule, inibit,

Pollio, et incipient magni procedere menses

te duce.

Buc. IV, 5-12

 

a grande série de séculos recomeça.

Já também retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno;

do alto céu já é enviada uma nova geração.

Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce,

sob o qual primeiramente desaparecerá a raça de ferro

e surgirá no mundo inteiro a raça de ouro, já reina o teu Apolo.

E esta honra do tempo começará e os grandes meses começarão

a suceder-se primeiramente sob o teu consulado, ó Polião,

sob o teu comando.

Actualmente não há acordo sobre se Vergílio conheceria ou não o texto do profeta Isaías (11:6-8): “E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão na cova do basílisco.”

O facto é que os versos desta écloga estão profundamente impregnados por um mistério semelhante aos livros sagrados, o que levou Agostinho e outros a verem neles uma espécie de anunciação do nascimento de Cristo.

 

 

 

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