J. T. Parreira: “a poesia é a passagem do não-ser para o ser”

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Cumprem-se, dentro de dias, quarenta anos sobre a publicação do Manifesto por uma Nova Poesia Evangélica (NPE), simultaneamente no Brasil e em Portugal. Este documento histórico foi assinado no país irmão pelos poetas Joanyr de Oliveira, brasileiro (já falecido) e João Tomaz Parreira, português, e em Portugal também por Brissos Lino.

É tempo de fazer um balanço. Daí a longa entrevista a João Tomaz Parreira.

 

Entrevista de José Brissos-Lino (c)

Como historiaria o percurso da Nova Poesia Evangélica (NPE) em Portugal e no Brasil, a partir do Manifesto publicado em 1974, em conjunto com o poeta Joanyr de Oliveira?

Dê-me uns minutos para procurar nos meus arquivos da correspondência. Nada melhor do que este parágrafo de uma das cartas génese do Movimento, que me endereçou o poeta Joanyr, em Fevereiro de 1974. “Honrou-me sobremaneira a sua aquiescência em que lancemos um Manifesto, ou outro qualquer pronunciamento conjunto, em favor de uma Nova Poesia Evangélica” Os meus verdes anos deslumbraram-se e entenderam a proposta do poeta já consagradíssimo que era o Joanyr de Oliveira, que entreviu um intercâmbio criador entre poetas de inspiração religiosa, com o rótulo de poetas cristãos evangélicos, sobretudo modificador do discurso poético até aí vigente, modernizando-o, tornando-o fruto da criação constante e contínua porque a “poesia é negócio sério” e não apenas o versejar por “dor de cotovelo”, nas expressões humoradas de Drummond de Andrade.

Assim, o que resultou do Movimento e da Antologia de suporte que editamos, no Rio de Janeiro, foi um árduo trabalho que foi ganhando estrada com poetas novos, nesse tempo, como Brissos Lino (que assinou na primeira hora o Manifesto em Portugal), a Clélia Mendes, o Samuel Pinheiro e outros mais tarde no Brasil e no nosso país. Não posso esquecer aqui e agora, porventura, um dos mais próximos seguidores dos considerandos desse Manifesto, evidenciando a sua poesia no século XXI, o poeta Rui Miguel Duarte. Por isto considero que o Manifesto foi utilíssimo e continuará sendo, e cito aqui dois ou três nomes de poetas de confissão evangélica do Brasil, sabendo que há outros cujos nomes não me ocorrem agora: Samuel Costa, Rosa Jurandir Braz e, o mais jovem, Sammis Reachers, poeta e antologista, também esforçado e excelente editor de Poesia.

 

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Brissos Lino e J. T. Parreira em Santiago do Cacém, no Verão de 1975.

 

 

Considera que este Manifesto ainda permanece actual? Porquê?

Sim, actualíssimo. Verifico como leitor de poesia dita religiosa evangélica, ao longo destes 40 anos, que continua a haver um deficiente entendimento do que deve ser o discurso poético, a que regras de criatividade obedece, tendo em conta a estética moderna do trabalhar a palavra. Nesse Manifesto, a dado passo, diz-se o seguinte: considerando “que o apego a escolas ou correntes estéticas ultrapassadas vem comprometendo de modo muita vez irremediável o nível da poesia, notadamente a de conteúdo religioso e particularmente a da mensagem evangélica”.

Isto ainda acontece hoje e pior, como os meios ao dispor dos “poetas” ou, melhor dito, versejadores, são inúmeros, os blogues, os sites, a globalização da internet, piora a circunstância da má poesia. Dizia-se também que o “pieguismo” e o “derramado sentimentalismo”, “não dignificam a Arte”. Em 1974 como em 2014.

O citado “pieguismo latino”, citado no Manifesto, está definitivamente ultrapassado?

Não. Apesar de tudo, parece fazer parte do nosso ADN, e não anda longe da apreciação secular que Miguel de Unamuno fez de nós, ao chamar-nos “País das almas do Purgatório”.

Pensa que ainda faz sentido utilizar hoje, quarenta anos depois, a designação de “poesia evangélica”, uma vez que não parecem conhecidas designações como “poesia católica, ortodoxa ou muçulmana”?

Excelente pergunta. No decorrer destas quatro décadas tenho pensado nesse rótulo e verificado a falta desse enquadramento. Mas antes de chegar à resposta directa, deixe-me rodear a questão. Recentemente li um texto do poeta Octavio Paz sobre literaturas de fundação. Ele chamou, indirectamente, claro, a minha atenção para o facto de, quando se diz poesia chilena ou mexicana, estarmos perante um rótulo geográfico. O que deve contar são as tendências estéticas e intelectuais, como o Criacionismo ou o nosso Modernismo, por exemplo, como movimentos artísticos. Entende? Assim, “poesia evangélica” é um rótulo religioso, que pode ser decepcionante se o leitor não entender o discurso poético do autor, é um rótulo “geográfico”, se quisermos, que demarca uma região na inspiração poética e da formação religiosa do autor.

Todavia, “poesia evangélica” só subsiste se resistir a uma análise da teologia evangélica, e nenhum de nós ao escrever um poema “dito evangélico” vai buscar os tomos da teologia, seja ela de Karl Barth ou Rudolf  Bultmann, ou até as resoluções teológicas de Jonathan Edwards, ou as teologias calvinista e arminiana, para configurar os seus versos. Eu poderia, se quisesse, fazer um poema “budista” ou com raízes nos upanixades. Mas não seria honesto da minha parte nem me vejo a escrever poesia “assim”. Respondendo simplesmente à sua pergunta: hoje já não faz sentido nenhum. A linguagem poética e o fazer “poieticamente” o poema é que o devem definir. Agora que existem poetas evangélicos e católicos e muçulmanos, todos sabemos que existem.

 

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Considera conveniente e adequado que a Arte e a Cultura comportem uma carga ideológica ou filosófica em si mesmo? Pensa que devem ter uma agenda, ou o poeta limita-se a expressar apenas o que é e o que sente?

Boa questão, conveniente para os dias de hoje em que há agendas para tudo. Se entendo a sua pergunta no que concerne à “carga ideológica”, se o escritor, designadamente o poeta, escrever em função dela, corre o risco de estar a ser panfletário, seja em que área for. Os poetas da era soviética, com o realismo socialista, foram-no em muitos poemas. Alguns dos poemas do nosso Ary dos Santos, são-no. Poderia citar outros da poesia portuguesa da resistência ao fascismo.

Já quanto à “filosófica”, essa carga pode estar ligada à cosmovisão do poeta sobre o Mundo e o Ser. Vejam-se as Elegias de Duíno, de Rilke, os sonetos de Walter Benjamin.

De facto, para lhe responder sinceramente, no sentido que julgo ter dado à pergunta, o poeta não deve ter “agenda”, que não seja a Humanidade, as experiências do Ser, e, se for religioso, a relação necessária do Homem com Deus, exprimindo o que sente em relação ao que vê, transformando o seu olhar em poesia.  Platão disse-o, um dia, de outro modo: a poesia é a passagem do não-ser para o ser. Esta é a agenda.

Desde a publicação da sua primeira obra poética em livro – “Este rosto do exílio” – em 1972, o que mudou na sua poesia e porquê?

O modo e o tempo de abordar as mesmas questões. Deixe-me dizer-lhe, de uma maneira não intelectual nem filosófica, que foi a idade. Tinha 25 anos, embora esse poemário tenha inserido os poemas que julguei maduros para esse tempo. Acho hoje, sem falsas modéstias, que o desejo da estreia não obliterou preocupações literárias e líricas com o que, numa resposta anterior, já respondi. Esse livro, em 1972, apontava já para o desejo de uma “Nova Poesia Evangélica”. É costume os poetas rejeitarem os seus livros de juventude, eu não, porque são pontos de partida de uma linguagem poética e um modus facciendi que se dirige para um Ponto Ómega, para usar uma expressão de Teilhard du Chardin, que se atinge com a morte.

Em matéria de influências literárias, Joanyr reclamava-se de Lorca, Drummond, Neruda e outros. Que influências literárias mais importantes tem consciência de ter sofrido?

Muitas. Aquelas que refere na sua pergunta, também as tive e continuo a beber nessas fontes. Claro que existem algumas mais importantes do que outras. Foi muito importante para mim e para a poesia que pretendia escrever, o ter descoberto em 1972, Ezra Pound e Ruy Belo. E os nossos poetas da Poesia 61. Mas já desde 1965 que lia Pessoa e Sá-Carneiro. Outro poeta que me ajudou a crescer, foi o José Gomes Ferreira. E o discurso inovador da poesia do corpo da Maria Teresa Horta. Obviamente que ainda hoje procuro acompanhar todos os poetas de Antologia da nossa Literatura.

Por incrível que possa parecer, o meu 25 de Abril na poesia dita “evangélica”, deu-se uma semana antes quando, em Lisboa, comprei numa livraria de Campo de Ourique e li de um fôlego: “Defesa da Poesia”, de Shelley, uma obra teórica, só depois vieram os românticos ingleses, já que falei em Shelley. Hoje, aos 66 anos, navego muito nas águas mediterrâneas da poesia italiana e espanhola, Umberto Saba e Ungaretti e todos os poetas da Geração del 27 sem excepção. De resto, um dos meus livros “Contagem de Estrelas”, de 1996, decorreu de uns versos que li de Gerardo Diego em Salamanca.

 

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Nos seus poemas J. T. Parreira lança mão de temas bíblicos e clássicos de forma recorrente.

Sim, porque, como sabe, a maior parte dos meus poemas têm uma religiosidade que advém da minha formação protestante, evangélica. Um pastor baptista muito conhecido nos meios da juventude, escreveu há dias que sou o único poeta arminiano que ele conhece (risos). Reparou, e é verdade, que não fujo a incluir na religiosidade também os clássicos, especialmente os poetas gregos e o latino Virgílio.

Assim como de temáticas ligadas à cultura contemporânea. Nota-se que o seu universo passa por poetas, escritores, artistas plásticos, bailarinas, actrizes, cantores e artistas do século vinte.  

Sim, obrigado por essa exegese, que eu resumiria em duas palavras: procuro ser universal, nos assuntos que toco. Não sei se o consigo inteiramente, mas tento. E faço-o sempre sob a égide de uma frase teórica, mas tão simples quanto definitiva, do poeta norte-americano Wallace Stevens: “O assunto do poema é a poesia”.

Todavia sente-se uma atracção especial pela temática do holocausto nazi na sua poesia. Passados mais de 60 anos sobre os factos, ainda se sente impactado pela matéria.

Sinto, de facto. É costume dizer-se “para que a Terra não esqueça”, é mesmo o título de um livro sobre o Holocausto.  Mesmo agora, como sabe, passado mais de meio século, foi publicado um documentário filmado por Alfred Hitchcock em 1945, aquando da chegada dos americanos a alguns campos de concentração, mesmo àqueles pouco falados, mas onde a visão dos cadáveres era atroz. Esse filme vai ser lançado em 2015. Pude vê-lo no Youtube com o horror nos olhos.

Esse impacto vem da juventude, foi uma temática que me apanhou na minha ingenuidade quanto ao Homem que não deveria ser o lobo do Homem. Os crimes da Alemanha Nazi, a sua história, Adolfo Hitler, a II Guerra Mundial foram leituras imensas que fiz nos meus dezassete anos. Sobretudo o que se relacionava com a Shoah e a horrenda dizimação de 6 milhões de judeus, sobretudo as crianças judias.

Sei que a guerra é a continuação da política por outros meios, mas os Holocaustos não, são o retorno ao crime cainita numa escala planetária.

 

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Porque escreve poemas? O que pretende transmitir (se é que pretende), ou limita-se a “sentir com a imaginação”, como dizia Pessoa?

A resposta mais fácil à sua pergunta, seria seguir o que disse Pessoa. Também, mas tal como o Alberto Caeiro, escrever poesia, “ser poeta” é uma maneira de estar sozinho, todavia com o coração no Mundo, e aqui “Mundo” deve ser lido como humanidade e Criação Divina. Concluo a resposta, usando o verso final do poema que citou: “Sentir, sinta quem lê!”

Fazer Poesia, para si, trata-se essencialmente de um exercício de natureza espiritual, estética ou de outro tipo?

Dê-me alguns segundos para pensar, não vá eu contradizer-me (risos).

Em primeiro lugar, o exercício estético já contém em si algo de espiritual. Já Plotino que era um místico, no Século III integrou a Estética, cujo nome não se conhecia ainda, como uma parte da Teodiceia. E, digamos, fez a Teologia do Belo, isto é, da sensibilidade ao Belo, à beleza do universo que canta a grandeza de Deus. Desde o século XVIII, quando o vocábulo apareceu, que “estética” significava simplesmente a teoria da sensibilidade. Ora, em segundo lugar, a sensibilidade reside mais na área do espírito do que no corpo, no que concerne à Arte.

Sim, para mim, trata-se de um exercício de criação literária espiritual e estético. Penso ter respondido à sua pergunta. Ah, desculpe, não escrevo poesia com qualquer “outro tipo” de intenção, muito menos a de vender.

Como vê a edição e a divulgação da poesia actual e dos poetas portugueses de hoje no nosso país?

Numa palavra que é um lugar comum, a poesia, a edição de poesia em Portugal, é “o parente pobre”. São as edições de autor, as pequenas editoras, as marginais, que vão fazendo muita coisa pela Poesia. Falta em Portugal uma editora carismática como a “City Lights”, de S. Francisco, do poeta Lawrence Ferlinghetti.

No nosso país, comparo a essa, as editoras Cotovia e Assírio& Alvim. Mas as aquisições feitas pelos grandes grupos editoriais estão a destruir tudo, no que respeita ao “parente pobre”. O que é que os economicistas da Leya, por exemplo, percebem de Poesia, ou mesmo de Literatura séria? Mesmo atribuindo os prémios a autores que continuam “ desconhecidos”, mas compreende-se, isso dá jeito à redução do IRC.

Como operário da língua portuguesa, o que pensa do tão polémico AO/90?

Penso como muitos – será a maioria? – dos escritores e poetas portugueses que é um “Aborto Ortográfico”.  Para o AO/90 só pode haver uma resposta curta e grossa.

 

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J.T.Parreira, Lisboa, 1947. Poeta.

6 livros de poesia (Este Rosto do Exílio,1973; Pedra Debruçada no Céu, 1975; Pássaros Aprendendo para Sempre, 1993; Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; e Encomenda a Stravinsky, 2011 ).

E-books na web: “Falando entre vós com Salmos: Cânticos Davídicos” , “Na Ilha Chamada Triste”, “Aquele de cuja mão fugiu o Anjo”, “Quando era menino lia o Salmo Oitavo”, “Nove Penas para Sylvia Plath” e “As Crianças do Holocausto”, entre 2010 e 2013.

Um ensaio teológico (O Quarto Evangelho-Aproximação ao Prólogo, 1988) e participação em Antologias.

 Escreve na revista evangélica “Novas de Alegria” desde 1964. Na juventude escreveu poesia e artigos no suplemento juvenil do jornal “República”, entre 1970-1972, sob a direcção de Raul Rego.

Apresentou comunicações, fez conferências e palestras sobre a Estética na Comunicação Escrita, a espiritualidade em Vergílio Ferreira, Fernando Pessoa, Bocage e Albert Camus, na primeira década do Século XXI.

Prefácios em livros de poesia.

Recebeu as insígnias de Doctor Honoris Causa, em Letras, pela Universidade Sénior de Setúbal, em 2010.

Está representado no Projecto Vercial, a maior base de dados da literatura portuguesa.

 

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