Sobre a simbólica das viagens


José Brissos-Lino

 

A ideia estrutural que preside ao conceito de viagem, poder-se-á resumir em três ou quatro diferentes aspectos:

Desvendar

À medida que o ser humano se vai aventurando por caminhos novos, explorando novas paisagens, novos sabores e cores, novos cheiros e sons, novas formas de vida, e até novas interpretações e simbolizações acerca da condição humana, é na mesma medida que ele se vai enriquecendo, encontrando novos sentidos para coisas antigas ou descobrindo realidades para as quais até aí não estava desperto.

Este percurso dá sentido ao olhar que tem sobre si mesmo, por um lado, e sobre o mundo à sua volta, por outro lado, o que se torna verdadeiramente enriquecedor, do ponto de vista humano e espiritual.

Abandonar

Iniciar uma viagem representa sempre uma partida, um deixar o cais até aí conhecido. A visão do viajante já não permanece limitada pelos condicionalismos anteriores nem por sistemas de organização mental e emocional que até aí o condicionaram.

Existe, desde o preciso momento em que a viagem se inicia, uma particular disposição para a aceitação do Novo, e portanto do Outro, incluindo os seus saberes, a sua sensibilidade e os seus valores, em suma, a sua filosofia de vida.

Aventura

A ideia da viagem está ligada ao conceito de aventura, o qual, a par da necessidade e ambição económica ou evangelizadora, levou os Portugueses e outros povos de marinhagem a se aventurarem por esses “mares nunca dantes navegados”.

A ideia do risco calculado, a vertigem do perigo, a loucura do desconhecido e a ousadia do sonho, pela qual “o mundo pula e avança”, constituíram a mola real que fez a humanidade progredir, e que tornou o mundo habitado em “oikoumene”, isto é, num espaço de comunicação, de consciência recíproca, de inter-relação cultural e de crescimento e enriquecimento global.

Crescimento

As viagens que realiza, reais ou simbólicas, ajudam o homem atento, disponível e humilde, a crescer, tanto do ponto de vista pessoal como relacional.

O imaginário colectivo dos povos nunca deixou de estar relacionado com a ideia da viagem.

Aconteceu assim desde Abraão, desafiado por Deus a encetar uma viagem longa, significativa e desafiadora, a viagem da sua vida, que transformou um caldeu anónimo no pai de um povo numeroso, que ainda hoje vive e sobrevive no concerto das nações.

Aconteceu assim com os hebreus no deserto, vindos da escravidão no Egipto, povo nómada, em viagem constante, a caminho de uma existência com um sentido mais alto, em direcção à maturidade.

Sucedeu assim também com as grandes epopeias da cultura europeia, incluindo “Os Lusíadas”.

A importância da ideia da viagem é tão relevante que até as religiões recorrem a ela para estimular os fiéis à perseverança, à fé e ao sacrifício, como no caso do Cristianismo, no qual se propõe que a vida espiritual do crente é como a caminhada do peregrino, em direcção a uma terra prometida e melhor, ou do barquinho que navega para porto seguro e definitivamente abrigado das tempestades da existência humana.

 Abraão, paradigma do viajante

O patriarca hebreu, paradigma de todos os viajantes, reais ou simbólicos, faz confluir em si mesmo o aspecto do desvendar, na medida em que vai tomando progressivamente consciência de um Deus que a si mesmo se lhe  revela, aos poucos, e dos caminhos por Ele preconizados.

Exemplifica também a ideia do abandonar, ao deixar para trás casa e parentela, centrado no caminho afirmativo que lhe é proposto por um Deus de quem ainda não conhece todos os contornos com nitidez, mas a quem decide dar crédito.

Abraão faz assim da sua vida uma aventura, já que, num verdadeiro espírito pioneiro, prefere não se conformar com o muito que sabe e conhece da rica e avançada civilização que o viu nascer, em nome de algo mais significativo e gratificante que pressente e acredita.

O hebreu disponibiliza-se assim para um crescimento em direcção à maturidade, através das vivências que a sua viagem rica de conteúdos lhe permite.

 Simbólica das viagens

A simbólica das viagens pode assim ser riquíssima, pelas oportunidades de crescimento que proporciona a todo aquele que se dispõe a partir.

Há quem diga que “circular é viver”. Do ponto de vista da simbólica é mesmo imprescindível, já que, tal como também se diz, “parar é morrer”.

 

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