O poder e o fundamentalismo no diálogo inter-religioso


Conferência realizada em Miranda do Corvo, a 18 de Maio de 2013, no âmbito do Encontro ”Diálogos Inter-religiosos”, organizado pela Câmara Municipal de Miranda do Corvo, pelo Centro de Estudos Republicanos – Amadeu Carvalho Homem, pela Fundação ADFP e pelo jornal O Mirante, e enquadrada no painel denominado “Diálogo Inter-religioso: realidade ou utopia?

José Brissos-Lino (UAL)

Antes de discutir a possibilidade objectiva do diálogo inter-religioso (o qual, julgo, também dever abranger ateus e agnósticos), talvez devamos antes abordar algumas ideias prévias sobre Política, Cultura, Tradição e Espiritualidade.

Religião e Política

A primeira coisa que vem à cabeça do homem não-religioso, e mais ainda do homem anti-religioso, quando se fala de diferentes manifestações de fé, é o chavão de que as guerras religiosas, assim chamadas, devastaram a Europa há séculos, o que faz das religiões qualquer coisa pouco recomendável.

Mas se nos dermos ao trabalho de esmiuçar as tais guerras ditas “religiosas” facilmente se chega à conclusão de que a verdadeira razão da guerra, de todas as guerras, não é questão de religiões, nem de conquista de territórios, de acesso ao mar ou de riquezas naturais, nem sequer de ideologias políticas, mas apenas e simplesmente, uma coisa a que chamamos o Poder. A religião é, portanto, apenas o pretexto para muitas das lutas pelo poder entre os homens.

Com efeito, o que foram as Cruzadas senão oportunidades de saque? O que foram as guerras que se seguiram à Reforma religiosa na Europa, encetada no século XVI, senão lutas pelo poder entre católicos e os protestantes, a fim de determinar o maior número possível de territórios onde cada partido pudesse impor oficialmente a sua religião às populações? O que foi o início do anglicanismo senão o desejo do monarca da Casa de Tudor, Henrique VIII, se libertar do poder de Roma? O que foi a fundação da Companhia de Jesus senão parte do esforço da Contra-reforma, que visava combater e tentar erradicar o calvinismo e reforçar o poder papel, tal como a instituição da Inquisição e do Index? O que foi o jacobinismo que se seguiu à Revolução Francesa senão a determinação de anular ou reduzir a poderosa influência da igreja católica sobre o estado francês? Porque inscreveu a constituição dos Estados Unidos da América a liberdade religiosa, na consagração da sua independência, separando assim as igrejas do Estado, senão para afastar o domínio do soberano britânico, chefe da Igreja de Inglaterra?

Os exemplos históricos são inúmeros, e em cada um deles, se quisermos olhar o fenómeno com maior honestidade intelectual e mais profundidade, encontramos sempre razões de Poder.

Alguém acredita que o conflito da Irlanda do Norte se devia efectivamente a razões religiosas? Ou entre muçulmanos e animistas no Sudão, ou entre cristãos e muçulmanos na Nigéria? A essência da guerra é sempre uma questão de poder, apesar dos eventuais argumentos religiosos ou doutrinários e do inevitável envolvimento emocional.

Religião e Cultura

Quando falamos de religião falamos inevitavelmente de cultura e sobretudo de cosmovisão. Da forma como vemos o mundo, a sociedade e o ser humano resulta o nosso ethos. Os nossos usos e costumes estão associados às nossas crenças, ideias e convicções.

Se um cristão quiser viver de acordo com a sua fé, compreende que deve amar a sua mulher “como a si mesmo”, de acordo com a teologia paulina, mas também com o ensino geral do Evangelho que vai muito mais longe, ao propor amar o próximo e mesmo até o inimigo. Mas quantos cristãos atribuem à mulher idêntica dignidade que requerem para si, quando os maridos as agridem e matam, em virtude da chamada violência doméstica, quando as empresas lhes pagam menos do que aos homens, por trabalho igual, ou quando os companheiros as desrespeitam, crendo convictamente que têm uma espécie de direito divino de lhes serem infiéis, mas que não lhes concedem reciprocidade?

Perante isto, como podem os cristãos criticar o tradicional tratamento dado à mulher em boa parte do mundo islâmico, ou a submissão oriental das mulheres perante o sexo masculino?

Quem ler o que disseram sobre a mulher inúmeros altos dignitários da Igreja, ao longo da história, não pode deixar de arrepiar-se. Considerada como ser inferior, porventura sem alma, a mulher ficou em grande parte apagada dos registos históricos do Ocidente, a não ser como parideira, cortesã, bruxa, prostituta e pouco mais.

Mas este é apenas um dos inúmeros exemplos de como os princípios da fé professada não encontram tradução prática na vida quotidiana, ou seja, na cultura. Podemos então concluir que nem sempre o homem religioso desenvolve práticas de vida concordantes com os ensinos da sua religião. E isso leva-nos a outra questão.

Nesse caso podemos então dizer que a tradição será mais importante do que a religião, no sentido de que consegue impor ao homem religioso comportamentos e pensamentos muitas vezes espúrios à sua religião?

Religião e Tradição

Podemos sempre perguntar se é a religião que cria a tradição ou o contrário. Cremos que ambas as afirmações são verdadeiras em parte. Se a religião vai fazendo tradição, a verdade é que, quando o cristianismo chegou aqui à península, por exemplo, já o paganismo cá estava estabelecido há muitos séculos.

O professor Moisés Espírito Santo, conhecido investigador e sociólogo das religiões, tem-se dedicado a estudar estes fenómenos e concluiu que muita da tradição pagã foi incorporada no cristianismo por estratégia de conveniência. Assim, atribuíram-se nomes de santos católicos a deuses pagãos, operando-se assim uma espécie de transferência do objecto de devoção, mas mantendo as festividades pré-existentes na devoção popular, agora com uma nova roupagem. Uma espécie de upgrate do sistema operativo sem tocar nos conteúdos, isto é, no essencial.

Será que desta forma o paganismo se cristianizou, ou terá sido o cristianismo a paganizar-se. As opiniões divergem.

Não deixa de ser curioso que os cristãos, depois de terem sido martirizados sob o jugo do Império Romano, de terem tido que lutar contra influências doutrinárias, tanto judaizantes como gnósticas e mesmo heresias internas, tenham acabado por soçobrar face a uma certa tradição pagã, tanto por via do Édito de Milão (313 dC), no qual Constantino preconizava a tolerância para com a nova fé, como através do decreto de Teodósio (380 dC) que o estabeleceu então como religião oficial do império ocidental, à semelhança do que já antes tinha feito Galério no Oriente, no ano 311 dC.

Muitos investigadores acreditam que, a partir do momento em que se tornou moda e conveniência política ser cristão, abastardou-se a pureza da fé e o trigo passou a estar definitivamente misturado com o joio. Receberam-se por generosa herança os templos, as alfaias religiosas, as vestes sacerdotais, parte da simbólica, as prebendas e a posição social. E grande parte da população achou conveniente aderir à religião oficial, por razões políticas e sociais, sem passar realmente por uma metanoia, sem se converteram dos deuses pagãos ao Deus cristão.

 

Religião e Espiritualidade

Mas a religião não pode ser só Cultura ou Tradição. A fé implica uma dada espiritualidade que por sua vez dá lugar a uma determinada praxis. Aquilo em que se crê não pode deixar de estar associado ao nosso modus vivendi. Se a fé que se tem não afecta a vida prática e os valores do crente, então não passa de uma referência civilizacional, uma afirmação meramente cultural ou uma relíquia da tradição familiar, étnica ou comunitária.

Curiosamente, toda a história do cristianismo se desenrolou desde os primórdios segundo um sistema pendular. A ênfase alternava sempre entre dois pólos: por um lado, o reforço da igreja institucional, da liturgia rígida, da hierarquia eclesiástica, e por outro lado, a devoção pessoal, o sentido comunitário, o testemunho de vida, a santificação. O monaquismo, a escolástica, o pietismo, o papado, o puritanismo, a teologia liberal do século XIX, o movimento pentecostal moderno e os grupos carismáticos constituem alguns dos muitos exemplos possíveis.

O pêndulo da história ia normalmente de um para o outro, e vice-versa, provavelmente porque ambas as dimensões serão indispensáveis à fé cristã, tanto a devoção pessoal, ou a experiência pessoal da fé, como a organização eclesial, ou a experiência colectiva da fé e a doutrina.

As chamadas à devoção pessoal sucedem-se na história por falta de resposta adequada das igrejas institucionais à necessidade intrínseca do homem religioso. Os fiéis necessitam de uma experiência espiritual, uma vida de fé e não apenas de liturgia ou de simbólica. Precisam de uma relação com o divino e não apenas de uma ordem de culto ou de uma catequese que não desce ao coração.

Os mosteiros surgem por necessidade de fugir de uma sociedade corrupta e de uma igreja corrupta, onde Deus raramente podia ser avistado. E estou em crer que uma boa parte das seitas religiosas de inspiração cristã surgiram não apenas por iniciativa de doidos pretensamente iluminados, mas igualmente como atitude reactiva a algo que de facto ia mal nas igrejas.

A questão dos fundamentalismos

Além das questões de poder, diria que os impedimentos ao diálogo inter-religioso organizam-se em três ordens de razões, a saber: ignorância, medo e manipulação.

Ignorância, desde logo, porque tendemos a considerar como ameaçador tudo aquilo que se desconhece e cuja informação não dominamos. Sempre foi assim. Quando não se sabe como é, inventa-se, ou seja, imagina-se como será. Mesmo a nível de profissionais da comunicação social, pouquíssimos são aqueles que sabem alguma coisa do fenómeno religioso. Regra geral movem-se estribados em preconceitos e superficialidade, revelando quase sempre o seu desconhecimento das matérias que abordam. Contam-se pelos dedos de uma só mão os jornalistas que conhecem a realidade religiosa em Portugal. E um deles está aqui presente (António Marujo).

Já o medo é naturalmente decorrente da ignorância de que falámos. Medo que acaba por realçar a insegurança que também decorre do desconhecimento da realidade, mas sobretudo que está ligado ao receio de confronto ideológico. Se eu não sou capaz de sustentar as minhas crenças de forma lógica e racional, passo a recear perder no confronto das ideias e opiniões.

Note-se que a fé não remete para a irracionalidade, ao contrário do que alguns pensam. Nos seus escritos S. Paulo propõe o conceito de “culto racional”. A fé tem uma lógica assente num sistema doutrinário, caso contrário não passa de misticismo inconsequente. Mas se eu não domino minimamente o sistema de doutrina da minha fé, não posso desenvolver uma apologética face a sistemas diversos do meu. E isso torna-me inseguro e menos aberto a um diálogo e convivência inter-religiosa ou mesmo interconfessional.

O fundamentalismo empurra assim as pessoas para o fanatismo (fanum, templo), radicalizando-as através da manipulação em que normalmente os líderes radicais são exímios. Tende a sublinhar as diferenças ignorando propositadamente as semelhanças. O discurso fundamentalista torna-se assim maniqueísta, bipolar, a preto e branco, sem deixar margem para aproximações e diálogos de qualquer espécie.

Quando se fala de fundamentalismo, pensa-se apenas no islâmico, mas não é o único, infelizmente. Fenómenos religiosos de fanatismo e fundamentalismo verificam-se em todas as religiões abraâmicas, mas também nas outras, como o hinduísmo, por exemplo.

O fundamentalismo dedica-se à fabricação do inimigo por necessidade de sobrevivência. Diz o escritor Mia Couto: «Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos, para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas».

Humberto Eco, num ensaio interessantíssimo sobre a ideia da construção do inimigo, declara: «Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, no afrontá-lo, o nosso valor.» Por isso: «Parece que não se pode passar sem o inimigo.»

Ou seja, o inimigo faz falta para podermos comprovar que somos melhores do que ele. Mas provar a quem? A nós próprios, antes de mais. É por isso que o discurso fundamentalista é monocórdico e unidirecional, uma espécie de curto-circuito comunicacional em que o emissor é o mesmo que o receptor e a informação volta para trás, provocando sobreaquecimento nos neurónios, com as consequências óbvias…

Quando o inimigo se torna a razão de ser de toda a nossa actividade e mesmo da nossa existência, vivemos em permanente guerra aberta. Quando falamos de fé isso torna-se trágico, porque nos arriscamos a gastar a nossa vida passando ao lado do essencial. Falamos, pensamos e vivemos mais em função do “diabo”, da heresia e do erro em vez de nos concentrarmos em Deus, que é, afinal, o alvo e a inspiração da fé. Tornamo-nos crentes pela negativa e não pela positiva.

Realidade ou utopia?

Perante este quadro, a questão colocada é se o diálogo inter-religioso é, ou pode vir a ser, uma realidade ou apenas mera utopia.

Não vou entrar aqui em considerações laterais sobre definições etimológicas ou semânticas destes termos. Sobre a realidade apenas quero dizer que por vezes ultrapassa a ficção, como se sabe. É extremamente surpreendente, criativa e rica. Sobre a utopia também digo que faz parte da vida. Se muitas vezes a realidade é a estrada, a utopia é o destino, e nesse sentido faz-nos falta enquanto direcção e objectivo final, mesmo que não consigamos lá chegar.

William Wilberforce, o célebre parlamentar protestante lutou durante uma boa parte da sua vida pela abolição da escravatura. Não chegou a vê-la formalmente em vida, mas pouco tempo após a sua morte Londres assinou a respectiva lei. Wilberforce não chegou a sair do campo da utopia em vida, mas a realidade chegou logo a seguir.

Posto isto, gostaria de acrescentar o seguinte. Diálogo implica ouvir e falar, mas uma coisa de cada vez. Implica sobretudo ouvir “com ouvidos de ouvir”, como Jesus Cristo tantas vezes sublinhou, isto é, prestar atenção com vontade de compreender o Outro, e de o compreender no seu devido contexto e no seu quadro de valores. Mas também significa sermos capazes de abordar quem crê e pensa diferente de nós com um olhar fraterno.

Um exemplo prático. Somos apenas criaturas de Deus ou filhos de Deus? Os católicos sustentam uma visão universal. Consideram que todos os seres humanos são filhos de Deus. Os evangélicos não. Consideram que só têm o direito de ser chamados dessa forma aqueles que aderiram à fé cristã, com base na escritura do Evangelho Segundo S. João: «Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no seu nome.» (1:12).

Como a ênfase evangélica da economia da Salvação vai para o acto da conversão pessoal a Deus e subsequente caminhada cristã, não se compreende, nos meios evangélicos, a perspectiva católica da identidade de filho de Deus, generosamente atribuída com um carácter universal. Defende-se então que todo o ser humano é apenas uma “criatura de Deus” antes da metanoia (processo da conversão pessoal a Deus, através do acto de fé e vontade, com base no sacrifício vicário de Cristo). E só depois da metanoia passa a poder ser chamado, com direito, “filho de Deus”.

Sabemos que a expressão bíblica “filho de” é um hebraísmo que significa “da mesma natureza de”. Logo, a questão central é esta: o ser humano é ou não da mesma natureza (moral e espiritual, entenda-se) de Deus? E se é, então porque não pode ele ser chamado “filho”, com todo o direito?

Como se pode ver, tal reflexão transporta-nos inevitavelmente à questão agostiniana do pecado original e à Queda. Quando o ser humano caiu da graça divina, e foi despojado da glória de Deus que o revestia (Romanos 3:23), por influência directa do pecado, tornou-se no quê, afinal? Qual a sua essência ontológica?

Horácio, na sua visão antropológica pagã, dizia que o homem é apenas “pó e trevas”. Freud anui a essa visão depressiva e profundamente negativa. Carl Rogers, porém, tem uma visão do ser humano muito mais positiva, chegando a preconizar o paradigma da pessoa “plenamente funcionante”.

O Apóstolo Paulo, na linha de Agostinho, e provavelmente a fim de exaltar a excelência do perdão, da misericórdia e da Graça divinas, pinta com tintas o mais negras possível a natureza humana decaída: “(…) onde o pecado abundou, superabundou a graça!” (Romanos, 5:20b). Digamos que tudo depende da perspectiva. Voltamos à velha história do copo meio vazio, para uns, e meio cheio para outros.

Apesar do trauma precoce sofrido, por efeito do pecado, a verdade é que o ser humano nunca deixou de transportar em si a marca de Deus, a imago Dei. E nesse sentido, mesmo que longe do Pai e mergulhado na imundície (qual filho pródigo antes do regresso à casa paterna), não se pode dizer que não seja filho de quem é.

O toxicodependente, ainda que abandonado, deserdado e ignorado pelos próprios pais, não continua a transportar nas veias o mesmo sangue e os genes paternos? O que o momento do regresso e do arrependimento faz é restaurar no filho perdido e entretanto achado, as marcas da dignidade filial que haviam ficado pelo caminho (o banho, a túnica, o anel, as sandálias, o banquete), assim como a comunhão com o Pai.

Aliás, creio ser exactamente por essa razão, por reconhecer a marca de Deus em todo o ser humano, que a cultura ocidental baniu a escravatura, a pena de morte (quase por completo), e revestiu de sacralidade a vida humana, independentemente do carácter pessoal ou merecimento específico dos indivíduos em questão. Isso acontece justamente porque a cultura ocidental, estribada em fundamentos judaico-cristãos, reconhece em todo o ser humano a imagem de Deus.

Considero, portanto, que os católicos enfatizam mais a imago Dei presente em todo o ser humano, e os evangélicos, mais vulneráveis ao que Ricardo Gondim chama o “pessimismo antropológico”, enfatizam sobretudo a metanoia, ou seja, a restauração da glória divina no indivíduo. Por isso não me enquadro exclusivamente em nenhuma das “linhas”.

Considero que todos somos filhos de Deus, do ponto de vista da Criação, pois todos os seres humanos são e foram criados à Sua imagem e semelhança. Mas considero filhos, do ponto de vista da Redenção, apenas os que experimentaram uma conversão.

Se quisermos dizer de outro modo, todos os seres humanos são filhos de Deus, mesmo que o ignorem, escarnecem ou sejam rebeldes para com Ele, pois não poderiam apagar a marca divina (a imago Dei) plasmada na sua humanidade, mesmo que o quisessem. Mas só têm o prazer da comunhão com Deus os que a Ele se chegam, e o reconhecem e respeitam como Pai.

Conclusão

Digamos, portanto, que só o esforço de sermos capazes de compreender o Outro no seu contexto e quadro de valores nos permite o diálogo com quem pensa e crê de forma diferente de nós.

Mas isso não é suficiente. Precisamos também de saber falar da “razão da esperança que há em nós” (I Pedro 3:15), no dizer de S. Pedro. Saber ouvir o Outro não chega. É necessário que também nós saibamos comunicar com clareza a nossa fé. Sem processos de intenção ou sofismas e com toda a humildade. Como quem sente necessidade de ser compreendido pelo Outro, por não se sentir superior nem inferior a ele, mas apenas um seu igual.

O famoso lema da revolução francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – está, afinal, inscrito no Evangelho. Pena que os cristãos ao longo da história não lhe tenham sabido dar corpo tantas vezes. Sobre o princípio da Liberdade, podemos dizer que Cristo chamou-nos para a liberdade: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Evangelho de S. João 8:36). Sobre a Igualdade, diremos que todos somos iguais porque Cristo morreu por todos e sabemos que para Deus “não há acepção (ou discriminação) de pessoas” (Romanos 2:11). E sobre a Fraternidade também não existe qualquer dúvida. Já sabemos que o desafio do cristão é amar o irmão, o próximo e até mesmo o inimigo.

No fundo, falamos do primado do Homem sobre as Ideias. A partir do momento em que se mata ou destrói de alguma forma o Outro em nome de uma religião ou da falta dela, em nome de um deus ou de uma doutrina, passamos ao lado do essencial.

Mas isto não é tudo. Ignorar o Outro (tanto a sua existência como as suas idiossincrasias) também é uma forma de o matar, de cometer fratricídio, como Caim fez com Abel, pois o Outro faz parte de nós e nós dele, enquanto humanidade. Isto está tudo ligado.

Uma coisa é certa, o diálogo inter-religioso tornou-se imperativo nos tempos em que vivemos, dado o renascimento da religião no século XXI, depois da falência do comunismo, do avanço da globalização e das crises cíclicas da economia.

Permitam-me que conclua com uma citação de Gerald Messadié: «Aos olhos da História, o maior inimigo de Deus não é o cientista, o ateu, ou o racionalista, mas qualquer homem que pretenda ser seu delegado.» Até porque, como acrescenta o investigador: «os retratos falam frequentemente mais do pintor do que do modelo.»

Muito obrigado.

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Bibliografia

Eco, H. (2011). Construir o Inimigo, Ed. Gradiva, Lisboa, pp 12 e 31.

Bíblia Sagrada

Lino, B. (2010). O Grito da Semente, Ed. Edium, Porto.

Messadié, G. (2001). História Geral de Deus, Ed. Europa-América, Mem Martins, pp 18 e 20.

Micklethwait, J. e Wooldridge, A. (2010). O Regresso de Deus, Ed. Quetzal, Lisboa.

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