Tolentino Mendonça:”O caminho da fé supõe uma rebeldia”

 

 

Se no século XX foi possível acreditar na morte de Deus, excluindo a possibilidade de a religião dar um sentido à vida, no século XXI é mais provável que o retorno das religiões continue a afirmar-se. É o “regresso dos anjos”, nomeia José Tolentino Mendonça. Para o prefaciador de “A Essência das Religiões” já não vivemos na fase do “pós-Deus”.

 

Neste século XXI assistimos a um regresso das religiões?

Vivemos o século XX como um século de muitos contrastes. As religiões foram identificadas como um inimigo das sociedades abertas ou das muito ideologizadas. E essa identificação, como provou o século XX, foi um erro crasso. No lugar das religiões erigiram-se sistemas fechados, violentos, e que constituíram, esses sim, verdadeiras ameaças para as sociedades e para os povos. Na ressaca do ‘século breve’ – como se chama ao século XX – nasce esta ideia de que no século XXI se reavaliará, de outra forma, a herança e o papel que as religiões têm na construção da paz e na coexistência pacífica entre os grupos que compõem uma sociedade. A dimensão decisiva deste século é redescobrir as tradições religiosas.

Onde é que as religiões fazem mais falta: na relação com os outros ou na relação íntima com o próprio eu?

É uma boa pergunta, e penso que a resposta não é “ou” mas “e”. Por um lado, fazem falta na intimidade, na síntese pessoal que cada um vai fazendo, na procura de sentido, nas respostas às grandes questões: Porque é que vivo? Porque é que estou aqui? Que sentido é que a existência tem? Para onde é que caminhamos? É na resposta a essas questões que a vida individual ganha forma e atinge ou não a sua plenitude. Vivemos num tempo de grande sede do religioso. Há uma grande necessidade da experiência que as religiões possibilitam. É uma experiência de mergulho na própria individualidade, na configuração da existência individual. E isto vê-se em tantos sinais. Pense, por exemplo, na reabilitação contemporânea da experiência da peregrinação. O caminho é um traço comum a todas tradições religiosas, todas falam do caminho e da necessidade de o fazer. Hoje, essa necessidade é vivida de forma apaixonada, militante, por milhões de pessoas que, no fundo, descobrem que estas sociedades, da abundância ou da recessão, não dialogam com as questões fundamentais que os indivíduos trazem. Lembro-me de ter feito o Caminho de Santiago, por volta dos 35 anos, e de ter pensado que já seria demasiado tarde e que me iria sentir deslocado. Quando lá cheguei descobri que os que o estão a fazer têm maioritariamente entre os 60 e os 70 anos. Acabam o ciclo da vida ativa, e a primeira coisa que fazem é tirar um ou dois meses para esse grande reencontro com as fontes de sentido e de procura – o que mostra como a nível individual há essa grande necessidade de um reencontro com o religioso.

Tenho a ideia de que à medida que as pessoas envelhecem também se tornam mais religiosas, como se fosse mais difícil encarar o fim.

Não é só isso. Há também um desprendimento maior em relação aos bens materiais, às vitórias da vida, àquilo que nos ocupa, nos cega e nos preenche por inteiro: a agenda, o coração… A síntese é completamente diferente numa idade mais avançada. No fundo, há uma sabedoria do relativo, do precário. Os anos da juventude, da vida mais ativa, são vividos na euforia da conquista do definitivo, e depois percebe-se numa idade mais avançada que a vida está inacabada. Porque a vida é um projeto que não se realiza só por fora. Também precisa de se encontrar por dentro. E não é apenas pelo medo da morte. As religiões ganham uma segunda hipótese na vida dos indivíduos nas sociedades secularizadas, devido ao desencanto em relação à vida e também por se perceber que não pode ser só isto. Há uma passagem num texto de Aldous Huxley – romancista de “O Admirável Mundo Novo” – em que ele diz: um dia todos nós ao ouvirmos a “Nona Sinfonia” de Beethoven ou ao lermos uma peça de Shakespeare vamos perguntar “mas é só isto?” Mesmo as grandes obras da humanidade sabem a pouco se não houver mais nada. Ficam aquém desta fome e desta sede que habitam o coração humano.

A negação da religião numa fase mais jovem da vida terá a ver com o lado repressivo das religiões, quando estas querem impor regras? É sobretudo uma rebeldia?

O próprio caminho da fé supõe uma rebeldia. Muito por causa do nosso modelo iluminista, que valoriza sobretudo a racionalidade, ficamos com a ideia de que a religião é uma espécie de açaime, uma domesticação do indivíduo. É o seu contrário. O que nós vemos nos percursos religiosos mais autênticos é uma intensificação dessa própria rebeldia e um questionamento. As dúvidas fazem parte do caminho da fé. Uma fé que nunca se tivesse confrontado com as dúvidas era uma fé inautêntica. A fé precisa dessa dimensão abrasiva, purificatória, e que é trazida pela própria interrogação radical.

Os maiores crentes são os que duvidam?

Sim, e os que têm dúvidas até ao fim. Os que persistem numa atitude de confiança, transportando o debate interno, esta espécie de luta com o anjo. E isto acontece em todas as religiões. Às vezes pensamos na religião como uma possibilidade de anulação da razão. Pelo contrário, a religião é um grande espaço de racionalidade. No Ocidente, por exemplo, grande parte da filosofia e do pensamento nasceu no próprio contexto religioso, se pensarmos em São Tomás de Aquino, mas também em Averróis, do islamismo, vamos perceber que não há essa contraposição – que tantas vezes parece tão evidente – entre a razão e a crença. A crença precisa desse diálogo com a razão, embora sejam, de fato, dimensões diferentes.

Além do caminho há outros pontos de contacto entre religiões…

A explicação está na antropologia. A religião está fundada naquilo que há de mais profundo e comum na nossa própria humanidade. Os símbolos fundamentais da vida são aqueles que expressam o religioso. Além do caminho, há a dimensão do silêncio, da procura, da abertura de coração, da confiança. A ocidente valorizamos mais a razão, a oriente valoriza-se o corpo, a alimentação, a dieta, as práticas de ioga. A ocidente a religião é mais ligada à verdade em que acreditamos do que a um estilo de vida detalhado.

A ocidente as religiões são também mais políticas, viradas para o coletivo.

Não diria isso. As outras também são políticas à sua maneira, na medida em que procuram sempre uma organização da sociedade, e daquilo que é comum. Procuram a partir de outros paradigmas, outros modelos, outra sensibilidade. Não diria que o budismo é indiferente à questão política. Veja-se o Dalai Lama e a paixão que ele tem pela liberdade, pela afirmação da independência do seu povo. Em todas as religiões há uma grande preocupação política, no sentido da construção da polis, do viver humano. Existem é modalidades diferentes que têm a ver com esta grande divisão entre o Oriente e Ocidente, entre modos de vida e sínteses. Podemos pensar no cristianismo e pensar nas cruzadas, na Inquisição, como momentos de uma luta pelo poder, em que parece que vale tudo. Mas podemos pensar no cristianismo dos mártires, vivido com empenhamento social ao lado dos mais pobres, e perceber como este transporta uma frescura profética que é também um paradigma das nossas sociedades. Precisamos redescobrir as religiões, escutá-las, a partir do seu núcleo de verdade, como diz Huston Smith (autor de “A Essência das Religiões”). Todas as religiões, na sua expressão histórica, têm factos de grande contradição com as suas próprias verdades e erros; porque todas são propostas para viver na história como mulheres e homens. Huston Smith diz que os grandes melómanos sabem que há música péssima, mas quando falam dela, falam, sobretudo, da grande música. Não pensam nos maus exemplos. Pensam nos bons. Nas religiões ficamos demasiado reféns dos maus exemplos; e, se calhar, levamos muito tempo, culturalmente, a apontar o dedo aos maus exemplos.

Quase todas as religiões, em diferentes momentos e de modo mais ou menos intenso, têm servido para reprimir a sexualidade, as mulheres…

Têm feito isso, mas têm também feito continuamente o seu contrário. São Paulo é um nome fundamental no cristianismo. É o inventor do corpo individual e dos seus direitos fundamentais. O direito e a legitimidade que tem o meu corpo no Ocidente, tal como hoje o pensamos, é uma herança de Paulo de Tarso. O corpo, no tempo de São Paulo, estava hipotecado a uma etnia, a uma cidadania desigual. No fundo, a uma condição. A sociedade tinha a última palavra perante o corpo individual. E esta espécie de invenção da individualidade que acontece com o cristianismo e que faz com que eu já não precise de ser grego, nem homem, nem mulher, nem judeu, nem escravo, nem homem livre… O que vale é a minha relação pessoal com o acontecimento religioso e com a pessoa de Jesus Cristo. Quando Paulo valoriza esta dimensão pessoal constitui um escândalo e uma revolução no mundo antigo. Paulo está a inventar o corpo e o indivíduo.

Durante séculos, o cristianismo não dá os mesmos direitos à mulher ou àquele que ama alguém do mesmo sexo. Há sempre a repressão da vontade, do desejo, da possibilidade de ter um caminho próprio. E isso também acontece noutras religiões… O hinduísmo divide os seres em castas.

Diria que nas religiões há mais uma mundividência do que um sistema repressivo. As religiões são quadros de valores, são contratos éticos; e nós precisamos desses contratos, desses pactos e orientações para a vida. Mais do que sistemas repressivos, as religiões procuram ser hipóteses de confronto e de até libertação.

Isso é possível no século XXI, em alguns lugares do mundo. Mas muitos morrem por ir contra a regra.

Sempre foi possível. É preciso reconhecer todos os erros que as religiões cometeram ao longo da história da humanidade. E, de facto, há um quinhão de violência que ensombra a nossa história e que tem a ver com a religião e com as guerras religiosas. Mas esse quinhão de violência não obscurece o núcleo de verdade fundamental que nunca deixou de inspirar mulheres e homens para construírem percurso de liberdade e de exemplaridade que fecundaram o bem de cada tempo e de cada cultura.

O que diria a um ateu?

O ateísmo é o maior drama. No mais fundo do coração do homem há uma sede de infinito e transcendência que fica sem resposta. Diria a um ateu, como a um crente, que não deixasse de procurar.

 

Fonte: Cristina Margato, Expresso.

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