A excelência da sabedoria

José Brissos-Lino

(Da obra “O Grito da Semente”, Ed. Edium, 2010)

 

«Perguntamos de imediato: ‘Sabe grego ou latim?’ ‘É capaz de escrever poesia ou prosa?’. Mas o que importa mais é o que vamos dizer a seguir: ‘Tornou-se melhor e mais sábio?’ Deveríamos descobrir não quem compreende mais mas quem compreende melhor. Trabalhamos simplesmente para encher a memória, deixando vazios os sentidos de certo e errado.»

(Montaigne)

A Sabedoria, a par do Conhecimento, têm-se constituído como alvo de muitos esforços dos homens, ao longo dos tempos, talvez pelo reconhecimento de que aquela encerra em si mesmo a chave de muitos benefícios, de uma vida de sucesso e consagra, paralelamente, a possibilidade de evitar muitos males e sofrimentos.

Se considerarmos o Conhecimento como sendo uma espécie de repositório de informação adquirida, de forma estruturada e progressiva, o que requer tempo, atenção e interesse, então a Sabedoria será qualquer coisa como a utilização e aplicação desses conhecimentos de modo prático, consistente, harmonioso e integrado, contextualizados a partir de uma leitura da vida, e da nossa interacção com o Homem e o Cosmos, no fundo, a partir de uma cosmovisão pessoal. Assim, se o Conhecimento está ao alcance de cada um, condicionado apenas por razões de ordem prática, económica ou mental, já a Sabedoria é menos imediata e linear.

Quando, de acordo com o relato bíblico do segundo livro de Crónicas (1:7-12) Deus perguntou ao novo rei de Israel, Salomão, o que desejaria ele receber como dádiva da parte do seu Deus, tipo presente de entronização, este assume uma atitude de grande humildade, de reconhecimento dos seus limites, talvez confrontado com a dimensão gigantesca da tarefa que tinha pela frente, de conduzir aquele povo, por vezes tão difícil de ser liderado, e limita-se a pedir que Deus lhe outorgue sabedoria e conhecimento.

A reacção divina é a mais positiva possível. Agradado com a atitude de dependência e disponibilidade do novo rei, Deus concede-lhe o pedido, de forma extremamente generosa e abundante, de modo que Salomão acaba por ficar registado nos anais da História como o homem mais sábio ao cimo da terra, em todos os tempos, à excepção, naturalmente, de Jesus Cristo.
De resto, Salomão vem a escrever as obras literárias chamadas livros da Sabedoria, do canon bíblico, presentes no Antigo Testamento: Eclesiastes, Provérbios, Cantares e um ou outro Salmo.

Se observarmos melhor o texto em apreço, verificamos que esta sabedoria é concedida com uma finalidade específica, uma vez que fora esse o pretexto do pedido, pretendendo-se que a sua aplicação seja direccionada para a orientação dos israelitas, ou seja, Salomão receberá da parte de Deus sabedoria, no âmbito do seu reino e na qualidade de líder entre os israelitas, justamente para que a sua liderança seja bem sucedida em benefício do povo do Senhor. Esta circunstância caracteriza a Sabedoria como algo que não constitui um fim em si mesmo, sendo antes um meio instrumental que se destina a permitir alcançar um determinado fim.

Sabemos, porém, que a fama de Salomão extravasou os limites do palácio, o contexto da corte e as fronteiras territoriais do país, correndo todo o mundo conhecido de então, de que a figura da rainha de Sabath é paradigma, o que parece determinar que a Sabedoria, por si só, não se pode condicionar ou conter em limites físicos ou relacionais. Ela transcende este tipo de barreiras. É da sua própria natureza.

Parece, ainda, que o importante mesmo não é dispor de sabedoria, mas sim o que se pretende fazer com ela. A motivação profunda daquele que deseja ser sábio é mais importante do que o facto de o ser. E não é de estranhar que assim aconteça, uma vez que a sabedoria é forte e insusceptível de poder ser contida em limites físicos humanos, pelo que a sua influência se torna de certa forma incontrolável. Por outras palavras, o conhecimento desenvolvido a partir de uma motivação negativa e destruidora pode tornar-se uma arma verdadeiramente letal. Basta lembrar os cientistas que se engajam a ideologias destruidoras e desrespeitadoras dos direitos humanos, enquadrados em sistemas de poder sem controlo por parte dos cidadãos.

A justificação divina para responder de forma tão cabal e categórica à solicitação de Salomão fundamenta-se em quatro aspectos, curiosamente todos apresentados pela negativa. Salomão não pediu a Deus quatro coisas: riqueza e bens materiais, honras e glória entre os homens, a morte dos inimigos, e uma vida longa para si mesmo. Por que o rei de Israel não pediu o óbvio, aquilo que justamente a falta de sabedoria e bom senso levaria a que pedisse, então Deus não só satisfez a sua solicitação como ainda lhe acrescentou, ao que parece gostosamente, tudo aquilo que ele não pediu e poderia ter pedido. Isto é, porque Salomão conseguiu olhar para lá do óbvio, Deus respondeu-lhe satisfatoriamente ao pedido e acrescentou-lhe ainda o óbvio, como uma espécie de prémio que só se pode e deve atribuir a alguém que é plenamente confiável.

Era razoável que Salomão aproveitasse a oportunidade materializada pela pergunta divina para se encher de ouro, prata e pedras preciosas, de tudo quanto fosse riqueza e bens materiais, mas não o fez. O seu espírito apresentou-se despojado perante Deus, em função da tarefa que realmente ocupava o centro das suas preocupações no momento – ser um bom monarca.
Talvez, no fundo, este homem intuísse aquilo que S. Paulo viria a dizer muitos séculos mais tarde, que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males”. Não exactamente o dinheiro, mas o amor que se lhe tem, ou pode ter, deixando que o vil metal seja senhor sobre a vida dos seres humanos, abafando valores muito mais elevados, ligados à espiritualidade e vida interior, aquilo que vale a pena ser vivido.

Também era quase irresistível pedir a Deus que lhe concedesse honras e glória entre os homens, uma vez que tais coisas sempre foram e ainda hoje são fortemente atractivas à natureza humana. Toda a gente gosta de ser honrado, referenciado e apreciado, quanto mais um rei. Mas tal coisa não se encontrava entre os objectivos de vida de Salomão, que assim preferiu centrar-se na honra que era devida ao seu Deus e na tarefa imensa que tinha pela frente, no desempenho das suas funções e responsabilidades reais.

A morte dos inimigos, numa época em que prevalecia a lei do mais forte, e a do olho por olho e dente por dente, não estranharia ao filho de David, uma vez que, num contexto histórico de subsistência e afirmação étnica, cultural, política e religiosa o ambiente geral era o de constantes lutas pela conquista da terra, numa lógica de expansão territorial, onde a diplomacia era vista quase só como uma outra maneira de fazer a guerra, neutralizando os adversários, potenciais inimigos, através de instrumentos como pactos, alianças, e casamentos reais de conveniência. Caso contrário, restava como solução a confrontação armada.

É certo que Salomão podia contar com a experiência enriquecedora do seu pai, David, que na condição de perseguido pelo rei Saúl, lhe ousara cortar um pedaço da capa, escondido e acossado na caverna onde este por momentos se recolhera, sem lhe tirar a vida, o que poderia ter feito. Mas não seria sensato esperar que a lógica da morte dos inimigos estivesse arredada da cultura daqueles tempos.

Uma vida longa também foi coisa que não fez parte das prioridades de Salomão na resposta a Deus. O impulso de vida presente no ser humano, que contribui para a sua sobrevivência, e que leva ao ponto de matar para não morrer, é fortemente motivacional, mas neste caso foi relegado para segundo plano, em nome de um valor mais alto.

A Sabedoria, portanto, é um valor importante e único, uma verdadeira forma de estar que faz falta ao ser humano, e que pode até ser providenciado sobrenaturalmente, como no caso em apreço. De todo o modo, a excelência da Sabedoria reside na sua utilidade prática, que tem de ser sempre direccionada no sentido do desenvolvimento e do progresso dos homens e das sociedades, e colocada ao serviço da dignidade da pessoa humana, no respeito pelo Outro (o “próximo”, como diria Jesus de Nazaré), porque só assim seremos mais humanos, mais solidários, ou mais pessoas, se preferirmos utilizar a terminologia de Carl Rogers.

Procurar a Sabedoria e aplicá-la ao nosso serviço, mas tendo sempre em vista o benefício geral, nosso e dos outros, é, portanto, inerente à condição humana, e característica dos filhos de Deus.

 

 

 

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