Discurso sobre Deus

 

José Brissos-Lino

(Da obra “O Grito da Semente”, Ed. Edium, 2010)

Como escreveu o filósofo ateu A. Comte-Sponville, “ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não existe’, esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil”.

(Anselmo Borges)

“Diz o louco: não há Deus!”

(Rei Salomão)

Costumo dizer que não se pode provar cientificamente a existência de Deus, tal como não se pode provar, cientificamente, a sua não existência. E porquê? Porque a abordagem científica exige provas concretas, verificação, aplicação de instrumentos, análise de dados e interpretação de resultados.

Ora, sendo Deus uma realidade que se inscreve no domínio da transcendência, situa-se num plano substancialmente diferente do científico.

Quer isto dizer que Deus é necessariamente uma ilusão, como alguns têm defendido? De modo nenhum. Há muita realidade que a ciência ainda não conseguiu entender, interpretar e até percepcionar, e que não é menos realidade do que a realidade estudada, explicada e conhecida.

Já para não falar dos constructos teóricos que a ciência defende, anos a fio, e que mais tarde, mercê do aperfeiçoamento da pesquisa e perante a obtenção de novos resultados, vem a concluir em sentido diverso ou mesmo oposto. A ciência não é, nem pode ser, pela sua própria natureza, uma tarefa acabada.

Significa isto que é impossível conhecer Deus? Também não. A questão é que o conhecimento divino terá que se revestir de natureza diferente do científico. Ou seja, terá que acontecer no domínio pessoal, experiencial e não meramente intelectual. E é aqui que entra a fé.

Vejamos. Se a existência de Deus pudesse ser provada pela ciência, para o que serviria então a fé? Para nada. Mas tudo acontece na vida cristã através da fé. Desde logo porque sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6).

O apóstolo Paulo testemunha “guardei a fé” (II Timóteo 4:7), como sendo o bem mais precioso, o sentido da sua vida, que também classifica como uma das três maiores virtudes cristãs (I Coríntios, 13:13).

E escreve o autor da Carta aos Hebreus: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados” (11:3)

Mas a fé nem sequer tem razões que a expliquem a si própria. Tal como se costuma dizer, a propósito da vida sentimental, que o coração tem razões que a razão desconhece. Como escreveu Ricardo Gondim: “Não sei explicar as razões da minha fé. Não sei dizer os porquês da minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre o Divino é provisório. Minhas convicções vacilam. Todas as certezas são, decididamente, vagas (…) O que dizer de Deus? Tão pouco! Espero, tão-somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha reverência.”

O conceito e a percepção do divino sempre estiveram inscritos na história e na consciência do ser humano, desde os tempos mais remotos. Não se trata de uma questão cultural nem a consciência e a percepção do divino foram ensinadas, induzidas ou manipuladas por alguém. É coisa instintiva, interna à pessoa humana.

Talvez por isso o rei Salomão, um dos homens mais sábios de sempre, tenha posto na boca do néscio a confissão da inexistência de Deus. Uma verdadeira tolice, já que, para ele, a natureza concreta e a presença do divino eram demasiado óbvias.

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