A alma humana: essa desconhecida

José Brissos-Lino

(Da obra “O Grito da Semente”, Ed. Edium, 2010)

“Somos apenas pó e trevas.”

(Horácio)

A alma humana tem desafiado a imaginação e o pensamento de filósofos, teólogos e poetas ao longo dos séculos.

Antes de mais pela dificuldade em encontrar uma definição racional e satisfatória para aquilo a que chamamos alma. E depois pela extrema dificuldade em entender o âmago das pessoas.

Mas há pelo menos uma conclusão consensual sobre a alma humana: como alguém disse, o homem é capaz da atitude mais nobre e da mais vil. O ser humano tanto pode ser uma Madre Teresa de Calcutá como um Hitler, um Gandi como um Estaline, um Fernando Nobre como um Pol Pot. Tanto se lhes pode agradecer pela dignificação e salvação de milhares de pessoas como pelo assassínio em massa de milhões.

Há, também, reiterados exemplos de seres humanos com uma alma enegrecida, que acabaram por sofrer uma metanoia regeneradora.

Segundo o comentário ao texto bíblico de Mateus 3:2, da Bíblia de Jerusalém: “A metanoia, etim., mudança de sentimentos, designa a renúncia ao pecado, o ‘arrependimento’. Esse pesar que se refere ao passado, vem normalmente acompanhado de uma ‘conversão’ (verbo grego epistrephein), pela qual o homem se volta para Deus e empreende uma vida nova. Esses dois aspectos complementares de um mesmo impulso da alma não se distinguem sempre no vocabulário (cf. At 2,38). Arrependimento e conversão constituem a condição necessária para receber a salvação trazida pelo Reino de Deus. O apelo ao arrependimento, proclamado por João Batista (cf. ainda At 13,24; 19,4) foi retomado por Jesus (Mt 4,17p; Lc 5,32; 13,3.5), pelos seus discípulos (Mc 6,12; Lc 24,47) e por Paulo (At 20,21; 26,20)”.

Ora isto significa que uma pessoa pode mudar radicalmente os seus valores, princípios, praxis e filosofia de vida, através de um fenómeno de natureza espiritual/religiosa, para o qual, aparentemente, o indivíduo apenas contribui com a sua sinceridade e vontade de mudança.

Os avanços sobre o estudo das perturbações de personalidade ou patologias de carácter psiquiátrico vieram também trazer luz sobre alguns aspectos mais preocupantes do comportamento humano, até aí impossíveis de compreender.

Todavia há aspectos que parecem ser de pacífica interpretação:

Cada pessoa é única e irrepetível

A singularidade do ser humano é um dado adquirido e cada vez mais evidente, seja à luz da História, da Teologia ou da Medicina.

A medicação psicotrópica funciona de forma diversa em diferentes indivíduos, independentemente da idade, sexo, instrução, etnia ou cultura. Os psiquiatras afinam a medicação, pois o que funciona bem numa pessoa pode não resultar noutra, mesmo quando o princípio activo aplicado é o mesmo.

A identidade única do indivíduo é um dado adquirido na fé cristã, face à actual cultura de massificação. Deus ama a cada um, conhece cada um, importa-se com cada um e tem um propósito para cada um. O sueco Lewi Pethrus, grande figura do movimento pentecostal do século vinte, enfatizou a importância de alcançar as pessoas individualmente, numa época que já era de clara massificação.

Por seu lado, a História comprova que, apesar de serem as massas que fazem passar as páginas do percurso dos povos, a verdade é que são sempre os indivíduos, alguns indivíduos específicos e com nome, que fazem despoletar esses movimentos sociais de mudança.

Daí a importância de se ter consciência do valor intrínseco de cada indivíduo.

As pessoas não se conhecem a si próprias

Somos uns eternos desconhecidos de nós mesmos. Há muito boa gente nas cadeias, pessoas que cometeram crimes violentos num dado momento em que perderam o auto-controle, e alguns nem se conseguem lembrar bem do que aconteceu.

Nós mudamos todos os dias e a maior parte das vezes nem sequer nos apercebemos que alguma coisa mudou em nós. Só quando somos postos à prova entendemos finalmente que a nossa reacção no momento, e perante dada circunstância, foi estranha e inesperada.

Para o cristão, a melhor maneira de se conhecer é colocar-se diante do espelho da Palavra de Deus e contemplar “ao espelho o seu rosto natural” (Tiago 1:23).

As pessoas em geral têm medo das mudanças

Os ritos pessoais são estruturantes, ajudam a conferir um sentimento de segurança e de pertença, no caso dos ritos de grupo.

Para a generalidade das pessoas a mudança é percebida como desconfortável e ameaçadora. Por isso gostam de manter o quadro de vida o mais possível, com receio de que as alterações tragam à luz realidades com as quais não sabem lidar.

Daí que, muitas vezes, se opte por manter situações que não trazem satisfação mas com as quais a pessoa já sabe como lidar, sendo essa, por consequência, a razão das imensas dificuldades em fazer rupturas.

Conclusão

Se a alma humana é a sede da mente, da vontade e dos sentimentos ou emoções, podemos compará-la a uma espécie de gruta interior, sem luz natural e mergulhada na escuridão.

Quando nos dispomos a explorar esse espaço racional e emocional vamos iluminando aos poucos a gruta, artificialmente, e tomando consciência gradual do verdadeiro aspecto do nosso ser interior.

A tarefa do Espírito Santo revela-nos não apenas o carácter e coração do Pai e a pessoa do Filho, mas também a nossa própria realidade interior, por menos atraente que seja.

Nesse exercício de autoconhecimento e de procura da nossa verdade, há coisas de que gostamos mas outras nem tanto, e o desafio é mudar aquilo de que não se gosta dentro de nós.

Para o cristão, todo o desiderato de mudança é desenvolvido não na solidão mas na companhia e com o apoio gentil e seguro do “espírito de verdade” que nos “guia em toda a verdade” (João 16:13a), e se constitui nosso companheiro de peregrinação.

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