Entre a Transcendência e a Espiritualidade (as raízes cristãs de Carl Rogers)

José Brissos-Lino

(Comunicação apresentada nas IV Jornadas de Abordagem Centrada na Pessoa, a 27 de Fevereiro de 2004, na UAL em Lisboa.)

 

RESUMO

O trajecto pessoal de Carl Rogers começa e termina decisivamente influenciado por uma forte dinâmica de espiritualidade, embora de natureza bem diversa, evidenciada, por um lado, na sua infância e adolescência, e por outro lado nos últimos anos de vida, em especial depois de perder a esposa, Helen.

Certamente por isso se pode reconhecer facilmente em toda a filosofia de vida, e também terapêutica, de Rogers, as raízes cristãs que enformam o seu pensamento.

Se ele tinha ou não plena consciência do facto é questão que poderá ser debatida pois não está muito clara.

Neste trabalho pretende-se demonstrar que o pensamento rogeriano está fortemente influenciado pelas suas raízes cristãs.

Introdução

Quem entra em contacto pela primeira vez com o pensamento rogeriano facilmente toma consciência das raízes cristãs que o enformam.

Alguns têm mesmo vindo a dedicar-se a uma investigação sobre este tema, de forma sistemática, como o britânico Brian Thorne.

Educado para a Transcendência

Carl Rogers enquanto filho foi alvo de uma rígida educação religiosa desde a mais tenra infância. Segundo Hipólito:

“Para compreender a obra e o contributo de Carl Rogers no desenvolvimento do conhecimento da pessoa em geral e no aprofundamento da psicologia e da psicoterapia em particular, é importante inseri-lo na sua historia, no seu trajecto pessoal que o determina, quer ele o admita ou não (…)”.

Os seus pais faziam parte de uma comunidade protestante de forte pendor fundamentalista, e tinham formação universitária.

“A família valorizava uma educação moral, religiosa, sendo muito conservadora, isto é, muito enraizada nos valores tradicionais e fechada sobre ela mesma; contudo, intelectualmente era muito estimulante”.

Quando Rogers tinha doze anos a família mudou-se para o campo, ao que parece, a fim de fugir aos vícios e perigos que uma grande metrópole sempre comporta. Dos arredores de Chicago passaram a viver a cerca de 50 quilómetros de distância da cidade.

O facto é que, passados uns anos, já aluno da Universidade de Wisconsin, no início dos anos vinte, acaba por se envolver em diversas actividades comunitárias e entra em contacto com círculos evangélicos militantes. É então atraído pela ideia de vir a seguir uma carreira eclesiástica, de tal modo que decide alterar a sua formação, trocando o curso de Agronomia, inicialmente inspirado pelo ambiente rural em que viveu a adolescência, pelo de História, denotando assim o seu interesse multifacetado pela Cultura e pelo Homem, que o levaria mais tarde a não ficar limitado por uma proposta de abordagem terapêutica, por si criada e desenvolvida, mas a descobrir novos e vastos campos de aplicação da sua filosofia da pessoa.

Uma longa viagem à China, que o afasta de casa durante seis meses, integrado numa delegação de estudantes americanos, propicia-lhe um espaço de liberdade e reflexão pessoal nunca antes experienciado. O choque cultural, a constatação de uma realidade radicalmente diferente, e até o exotismo, suscitam-lhe a abertura a novas ideias, conceitos e opiniões, que o conduzem a uma postura mais assertiva perante os pais, no regresso a casa, e que, segundo Hipólito, provavelmente lhe terão provocado “uma úlcera gastroduodenal, provavelmente como resultado deste processo de afirmação”.

Em 1924, já depois de concluída a licenciatura e de se ter casado com Hellen Elliot, uma velha amiga de infância, matricula-se numa faculdade de teologia de Nova Iorque, tida como “liberal”, com vista à sua preparação específica para o ministério pastoral, mas fá-lo na linha da autonomia entretanto conquistada relativamente ao pai, recusando a sua ajuda financeira, garantida caso se dispusesse a frequentar o Seminário de Princeton, conhecido pelas suas posições muito mais conservadoras. Rogers parece andar à procura de qualquer coisa realmente diferente do que conhecia até aí, em matéria de relações sociais e humanas.

Mas é logo no primeiro ano do curso que Rogers organiza, em conjunto com outros colegas, uma espécie de seminário de reflexão auto-facilitado, provavelmente para tentar encontrar respostas a algumas questões existenciais que os desafiavam pessoalmente, e durante o qual “acaba por tomar consciência da sua ‘não vocação’ para o ministério pastoral, apesar do estágio realizado nesse mesmo Verão, como pastor substituto na paróquia de Dorset em Vermont”.

A partir daqui Carl Rogers muda-se para a Universidade de Colúmbia, onde vem a cursar psicologia clínica e psicopedagogia, iniciando assim um ciclo de afastamento da coisa religiosa até quase ao final da sua vida.

A recusa dos fundamentalismos

A teoria terapêutica de Rogers baseia-se num pressuposto nuclear muito claro, uma grande confiança no ser humano.

Rogers defendia o conceito objectivo de pessoa humana, concepção de origem cristã, a qual, na sua génese, procurava explicar o mistério de Deus como um Ser pré-existente e eternamente subsistente em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como o ser humano terá sido criado “à imagem e semelhança“ do divino, logo, o ser humano é Pessoa. Neste sentido, Rogers divergia do conceito dos autores existencialistas, para quem o humano é apenas “existência” (ex-sistere).

Mas para quem considerava o ser humano à maneira de Horácio, que afirmava que “somos apenas pó e trevas”, como Freud, cuja perspectiva da natureza humana era a pior possível, basicamente condicionada e movida por impulsos de agressividade e sexualidade, a ideia rogeriana, esperançosa, expectante e construtiva, surgia como que pintada a tons idílicos e irrealistas.

Quem tinha razão, a este respeito? Freud ou Rogers? Quero crer que ambos, mas valorizavam perspectivas diferentes, tal como aquelas duas pessoas que olhando para um mesmo copo meio de água exprimiam posições radicalmente diversas. Um dizia que o copo estava meio cheio, o outro que o não senhor, que estava meio vazio.

De facto, o ser humano é capaz da acção mais nobre e da mais vil. Só que, provavelmente, a perspectiva positiva é muito mais produtiva em matéria de relações sociais e humanas. Pelo menos esta parece ter sido a convicção sobre a qual Rogers construiu o seu corpo teórico.

Ora, o facto de partir de um pressuposto tão prometedor obrigou Carl Rogers a rever uma certa cosmovisão fundamentalista do mundo e do homem, bebida na sua influência e adolescência, por influência parental, e que não compaginava com a nova perspectiva, que era a que lhe fazia sentido no momento.

Uma vez autonomizado, Rogers terá reconstruído os seus conceitos, de forma a fundamentar a ideia de que, na relação terapêutica, o mais importante é facilitar a emergência daquilo que há de melhor nos seres humanos, passando então a defender atitudes facilitadoras para que tal desiderato pudesse tornar-se realidade.

Atitudes facilitadoras da relação e da mudança

Praticamente todas as atitudes propostas por Carl Rogers, e por ele consideradas fundamentais para uma mudança terapêutica ou para o incremento das relações saudáveis entre pessoas, parecem ter como pano de fundo e inspiração filosófica a sua formação cristã de infância e adolescência.

Vejamos alguns exemplos:

Olhar incondicional positivo sobre a pessoa.

Trata-se de um desafio à nossa capacidade de convivência social. As pessoas interagem normalmente, tendo como ponto de partida, uma espécie de base de dados registada na memória, resultante da complexidade das vivências anteriores. Quando se deparam com os primeiros sinais, numa nova relação ou interacção, tendem a valorizar em excesso tais aspectos, em especial quando são de natureza considerada negativa pelo observador.

E essa primeira leitura, ou impressão, passa a condicionar, por vezes injusta e inadvertidamente, a evolução da referida relação ou interacção, hipotecando assim o seu futuro imediato e o devir.

Ao propor um olhar positivo sobre a pessoa em relação, independentemente de qualquer condição prévia, Rogers sugere, como ponto de partida relacional, como que uma folha de papel em branco, onde se há de desenhar a história dessa nova relação, com toda a liberdade e sem ideias pré-concebidas. O que interessa mesmo é o aqui e agora.

Como diria um célebre humorista “Viver é desenhar sem borracha” (Millôr Fernandes), ou seja, o risco existencial está sempre presente no processo a que chamamos vida. Há que assumi-lo.

Além do mais é importante para o Outro a percepção desse mesmo olhar incondicional positivo, a qual contribuirá de forma decisiva para aceitação de si mesmo, dos sentimentos negativos que comporta e dificilmente assume, e por receio de rejeição dos outros, ou, no mínimo, de falta de aceitação.

Se o Outro é capaz de um olhar positivo sobre mim, então porque razão não hei de eu mesmo olhar para mim de modo semelhante? E será que os outros em geral não terão também um olhar de alguma forma positivo sobre a minha pessoa

O sentimento de sermos aceites radica na mais tenra infância e permanece como necessidade psicológica básica do ser humano, ao longo de toda a existência.

Segundo Slepoj:

“A total aceitação da criança por parte da mãe nos primeiros anos da infância é o pressuposto da confiança em si mesmo que o adulto conservará no decurso da sua vida.”

Sendo assim, a auto-confiança do individuo parece ser decisivamente influenciada pela aceitação ou não que experienciou desde os primeiros anos de vida.

Ao semear um olhar incondicional positivo sobre a pessoa, estamos a encorajá-la a confrontar-se consigo própria, sem truques nem disfarces, de modo a promover a sua autenticidade, ponto de partida para a mudança.

Uma leitura mesmo superficial do Evangelho permite-nos verificar que a mensagem de amor inscrita em toda a doutrina cristã, e inspirada na pessoa de Jesus de Nazaré, começa por ser uma mensagem de aceitação da pessoa, de tolerância, de admissão da diferença, e da liberdade que é concedida ao Outro para ser. Isto, apesar de todos os percalços e acidentes históricos que, resultantes, da natureza da condição humana, levaram a fazer parecer o contrário.

Capacidade de escuta.

O facto de as relações sociais e humanas se terem vindo a desumanizar, paulatinamente, devido à crise crescente e generalizada ao nível da comunicação interpessoal, tem conduzido a um empobrecimento das relações humanas em geral e da capacidade de ouvir o Outro em particular.

Ouvir “com ouvidos de ouvir”, como propõe o Evangelho, isto é, prestar atenção, estar disponível para tentar entender o Outro através daquilo que ele fala, quer no discurso verbal, quer na expressão dos sentimentos, falando com a boca, mas também com os olhos, o corpo e alma.

Como sugeria Gordon, se não formos capazes de escutar activamente o Outro não compreenderemos as suas necessidades, logo, não as poderemos tentar satisfazer, pelo que o desacerto é inevitável e o conflito iminente.

Os ruídos comunicacionais são cada vez maiores, mais ruído que comunicação, e sem comunicação efectiva não há relação.

Também encontramos, no Novo Testamento, exemplos de como o Cristo prestava atenção ao que se passava à sua volta, mesmo no meio do ruído da multidão. Certa vez, já perto das portas de Jericó, Jesus foi confrontado com um pobre cego que, à beira do caminho pedia esmola. Ao aperceber-se da passagem de Jesus e da multidão que o seguia por ali gritou incessantemente, até ser ouvido. Os discípulos tentaram fazê-lo calar, mas ele berrava ainda mais, dirigindo-se directamente ao Mestre, até que este lhe deu espaço, atenção e lhe resolveu o seu problema.

No meio do ruído de fundo foi possível estabelecer-se uma comunicação interpessoal, entre duas pessoas, uma que estava em necessidade, outra que estava disponível, e que dispunha de uma imensa capacidade de escuta.

Aceitação da pessoa.

A capacidade de aceitação do Outro, em especial quando o seu quadro de referências interno é distinto do nosso, torna-se um exercício complicado que exige uma abertura de espírito invulgar. Mas mesmo quando o enquadramento cultural e dos valores é semelhante, também aí nos é difícil, muitas vezes, compreender, e por consequência, aceitar, as opções do Outro como “naturais”, do nosso ponto de vista. A tolerância é um dos desafios mais complicados que se colocam à pessoa em relação.

O episódio bíblico da “mulher adúltera” será, porventura, um dos exemplos mais eloquentes da capacidade de aceitação do Outro, que o cristianismo propõe, mesmo quando o Outro está profundamente errado aos nossos olhos.

Arrastada por um grupo de homens frios e calculistas até ao Templo, uma pobre mulher, que tinha sido apanhada no próprio acto de adultério, passível de morte por lapidação à luz da lei de Moisés, serviu de pretexto para tentar colocar o Mestre entre a espada e a parede. Uma palavra de perdão representaria o atropelo da Lei, motivo suficiente para ser também praticamente condenado à morte, e uma simples confirmação da penalidade legal prevista viria pôr em causa a mensagem de amor e perdão que o caracterizava.

O que ninguém estava à espera é que Jesus Cristo assumisse a função de espelho perante os acusadores legalistas e desafiasse, com toda a frontalidade, a atirar a primeira pedra quem nunca tivesse errado, e falhado no estrito cumprimento das prescrições mosaicas. Como se sabe, a tomada de consciência dos seus próprios erros, falhas e insuficiências levou a que os acusadores desistissem dos seus intentos e abandonassem o local cabisbaixos. Foi então que o Mestre proferiu a célebre frase: “Vai e não peques mais”, o que significa que foi capaz de aceitar a pessoa embora não concordasse com o seu comportamento.

No fundo é o que a Terapia Centrada no Cliente induz a fazer, aceitação da pessoa, numa atitude de profundo respeito por ela, mesmo quando o terapeuta é confrontado com aquilo que lhe parecem os erros mais grosseiros e desastrosos do seu cliente, ou com a inércia que este vivencia.

Compreensão empática dos quadros de referência interna do cliente.

Na relação de ajuda é fundamental entender o universo das pessoas a quem é suposto prestar ajuda. Procurar conhecer os quadros de referência interna do cliente.

Também aqui Rogers terá bebido, nas páginas bíblicas, o exemplo de Jesus Cristo, no episódio do encontro com a mulher samaritana. É conhecida a rivalidade histórica entre judeus e samaritanos, quer do ponto de vista político quer religioso. A antiga nação dividira-se em duas, após a morte do rei Salomão, o reino do Norte (reino de Israel), com capital em Samaria, e o reino do Sul (reino de Judá), com capital na cidade do Templo, Jerusalém.

Como a capital do Norte não dispunha de qualquer arquitectura religiosa, os samaritanos resolveram começar a cultuar no alto de um monte a que passaram a chamar sagrado, o que foi considerado herético pelos judeus. A rivalidade que daí procedeu conduziu quase a um ódio racial e religioso entre ambas as comunidades, de modo que os seus naturais não se comunicavam. Ao encetar diálogo com a samaritana, ainda por cima uma mulher, e para agravar, sozinha junto ao poço, Jesus passou formal e intencionalmente por cima dos preceitos da época, correndo riscos diversos, mas procurando demonstrar que a relação entre pessoas diferentes não é só possível como desejável. Ao longo do diálogo se depreende que Jesus não só respeitou as referências histórico-culturais da mulher, como ainda tentou percebê-la, enquanto pessoa, na sua realidade intrínseca e singular.

Boa comunicação com o cliente

Para Rogers era importante que o terapeuta conseguisse lograr uma boa comunicação com a pessoa em relação, em especial no sentido de lhe fazer entender que estava a compreendê-la empaticamente, de acordo com o quadro de referências dela. A mudança terapêutica passaria também por aqui. Sem a sensação de ser compreendido o indivíduo dificilmente avançaria na exploração de si mesmo, em setting de relação de ajuda.

No fundo as pessoas andam à procura de serem ouvidas, mas sobretudo compreendidas, tanto nos aspectos racionais (daquilo que pensam) como, muito em especial no domínio dos sentimentos que experienciam (aquilo que sentem). Daí a importância de receberem um feed-back adequado, que funciona como “prova” de sintonia na relação dual, e de disponibilidade por parte do terapeuta.

Também aqui o Evangelho é fértil em exemplos de boa comunicação. As parábolas, pequenas estórias largamente utilizadas por Jesus de Nazaré (que foi um especialista nesta matéria) a fim de ilustrar verdades espirituais profundas, que assim ficariam à disposição de todos, desde crianças e incultos aos letrados e mais preparados.

Autenticidade.

Certamente que Rogers conhecia bem o texto neotestamentário que regista o facto de Jesus ter expulso os vendilhões do templo, numa manifestação bastante assertiva de autenticidade (Lc. 19:45).

No fundo, a capacidade de o cliente ser autêntico, na relação com o terapeuta, permite-lhe “limpar” o íntimo de sentimentos negativos, que são sempre escravizantes, constituindo-se como impedimentos a um crescimento pessoal, condicionadores da nossa dimensão relacional, e inibidores da caminhada de cada um em direcção à maturidade. A capacidade de exprimir sentimentos negativos funciona como mais do que uma simples catarse, ou desabafo, é uma espécie de afinação do nosso quadro de referências interno, de um acerto de contas entre nós e os nossos valores, de forma a que a vida à nossa volta nos faça algum sentido, mesmo quando parece não fazer sentido nenhum.

É também uma recusa de actuação dentro da filosofia do faz-de-conta, do socialmente correcto. Se calhar isso é mais cómodo, mas produz resultados muito menos satisfatórios.

Não direccionar o cliente.

Se eu, terapeuta, acredito que o cliente comporta dentro de si as capacidade ou potencialidade ou possibilidades para a mudança, e que acabará por encontrar, mais tarde ou mais cedo, o caminho que mais lhe convém naquele momento, tenho que resistir à tentação de o querer encaminhar à minha maneira, de lhe passar a minha receita para um problema que é seu, para uma situação que pertence ao universo da sua vivência pessoal e não ao meu.

Um dos exemplos porventura mais eloquentes do Evangelho, em matéria de utilização de uma atitude não-directiva, por parte de Jesus de Nazaré, é o caso de Zaqueu, o responsável pela cobrança de impostos na cidade de Jericó.

Este homem fez tudo para ter a honra de receber o Mestre em sua casa, sabendo que era pecador, uma vez que roubava os dinheiros públicos em proveito pessoal, lesando seriamente a comunidade. Porém, do relato evangélico, nada podemos retirar que suscite a ideia de que Jesus o tenha confrontado com os seus erros. A ideia que temos, de acordo com o relato de S. Lucas (19: 1-10), é que o Mestre se limitou a sentar à mesa de Zaqueu – honra suprema no Antigo Israel – e esperar que ele se decidisse a tocar no assunto que o começou a incomodar. A presença santa e santificadora da figura de Jesus levou Zaqueu, de modo próprio, a confessar os seus crimes e a desenvolver dentro de si uma estratégia para procurar dissipar os efeitos negativos do seu comportamento, indemnizando as pessoas lesadas.

Numa panorâmica mais alargada, podemos até verificar que Jesus era normalmente muito menos directivo com aqueles que eram sinceros, e muito mais assertivo, quase violento, contra os hipócritas e doutores da Lei, que não asseguravam qualquer genuinidade.

Por outro lado, S. Paulo defende mesmo que “cada um dará contas de si mesmo a Deus”, numa atitude e filosofia de responsabilidade individual que é condição para o crescimento pessoal.

Não fazer juízos de valor ou condenação da pessoa

Rogers defende que o terapeuta não deve fazer juízos de valor sobre o material que o cliente lhe apresenta, e muito menos rotular ou condenar a pessoa, pois isso seria a evidência de que o poder estaria na mão do técnico e não no cliente, desactivando assim a capacidade de acreditar nas suas potencialidade, e dar espaço à tendência actualizante presente em si.

Mas, directa ou indirectamente, Rogers poderá ter bebido esta concepção nas páginas do próprio Evangelho, que propõe a velha máxima: “Não julgueis para que não sejais julgados” .

Enquanto censuramos ou condenamos o Outro, ele tende a concentrar todas as suas energias a defender-se, desculpando-se e justificando-se, para que a opinião negativa que suscitou em nós seja desvanecida, pois tal situação é-lhe desconfortável. Pelo contrário, quando ele encontra em nós uma atitude inócua, em termos morais (pois não somos polícias, nem juízes), e consegue discernir que a nossa postura é a de aceitação da pessoa, incondicionalmente, então tende a descer ao fundo de si mesmo, a confrontar-se com o que não gosta em si, no seu carácter, funcionamento ou comportamento, e a encontrar por si mesmo as estratégias para a mudança que lhe façam sentido naquele momento.

Conclusão

Há uma inegável matriz cristã no pensamento de Carl Rogers.

Não será por acaso que, entre muitas e importantes distinções, ele recebeu também um prémio especial, o “Distinguished Contribution Award”, concedido em 1967 pela “Associação Americana dos Cousellours Pastorais”, de acordo com Peretti. Este galardão é sintomático, uma vez que, consciente ou inconscientemente, Carl Rogers navegou toda a vida entre as margens da espiritualidade e da Transcendência.

Segundo Hipólito, nos últimos tempos de vida Rogers fechou uma espécie de arco, desde o afastamento da coisa religiosa, na sua juventude, até ao apelo a uma outra dimensão espiritual.

Numa primeira fase (a primeira margem), a sua educação religiosa, cuja rigidez o parece ter sufocado, tê-lo-á levado a afastar das concepções originais do ser humano, da vida e do mundo, e a encetar um esforço no sentido de compreender o Homem na sua natureza, que não poderia ser tão má como diziam. Talvez por isso tenha dedicado toda a vida a tentar provar que o ser humano não pode ser separado da sua condição, o homem e a sua circunstância, como dizia Ortega e Gasset, e que este se torna tanto mais pessoa quanto mais escutado, compreendido e aceite for na relação com os outros.

Se considerarmos a fase derradeira da sua existência, após a perda irreparável da esposa Hellen, companheira de toda uma vida, como a outra margem do rio, sabendo nós que esta fase se caracterizou pelo apelo a um certo tipo de espiritualidade, decerto mais invulgar, talvez faça sentido olhar para o fundador da Abordagem Centrada na Pessoa como alguém que passou a vida a navegar no rio, mas que, afinal, de uma maneira ou de outra, nunca se conseguiu afastar de uma das suas margens, a Transcendência (entendendo por Transcendência a relação com um Deus pessoal, inscrito na religião cristã) e a Espiritualidade (entendendo aqui por Espiritualidade a abertura a experiências místicas, fora do âmbito cartesiano e da razão em geral, ao qual não será alheio o conceito serôdio, do ponto de vista rogeriano, de “presença”, que Rogers já não teve tempo de estruturar, por entretanto se terem esgotado os seus dias).

Uma questão final que fica à consideração de cada um: será que a natureza humana, que comporta uma dimensão biológica e física, social e ambiental, mental e emocional, cultural e relacional, não incluirá também uma profunda dimensão espiritual/ transcendental?

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