A contribuição da religião para a coisa pública

José Brissos-Lino

(Comunicação apresentada em colóquio promovido pela “Plataforma de Reflexão”, na Universidade Lusófona, Lisboa, em 9 de Junho de 2009.)

 

 

Falar do tema em título implica desde logo partir de pressupostos conceptuais claros.

Sendo assim, defina-se “religião”, por simplificação e conveniência, como sendo uma determinada filosofia de fé ou da sua ausência, uma vez que defendo ser o ateísmo também uma postura religiosa, embora de formulação negativa.

Quanto a “coisa pública”, res publica, defina-se como a vida comunitária, a organização da Sociedade e do Estado.

 

CONTRIBUTOS DA RELIGIÃO

A nosso ver, a contribuição da religião para a coisa pública poderá verificar-se essencialmente em três planos distintos mas interligados.

Desde logo o plano da ética de vida (ethos), ou valores, que podem fazer a diferença na presente sociedade pós-moderna e relativista do ponto de vista ético e moral.

Salvaguarde-se, à partida, que entendemos religião, neste contexto, unicamente no sentido de uma ética de vida influenciada por factores de ordem religiosa, mas efectivamente vivenciada, quer do ponto de vista pessoal quer comunitário.

Registo, também, que ao falar de religião me refiro essencialmente aos diversos ramos e tradições do Cristianismo, e não tanto às outras religiões, sobre as quais não me sinto em condições de discorrer, dado o pouco conhecimento de que manifestamente disponho sobre as mesmas.

Sendo assim, os aspectos económicos merecem especial relevância.

A religião pode desenvolver o princípio evangélico da cidadania ou consciência cidadã, o saber discernir ambos os planos em que se inscreve o trajecto de vida cristã – o terreno (horizontal) e o divino (vertical) – isto é, saber dar a César o que lhe pertence e a Deus o que lhe é devido.

Seriedade nos negócios, no trabalho, no pagamento dos impostos, no serviço à comunidade.

Quando vivida em verdadeira integridade, a fé religiosa combate efectivamente o desperdício através do primado do Ser sobre o Ter. Defende e proclama que a essência do humano é o Ser (a essência) e não o Poder, o que parece ser (a aparência) ou as suas possessões, o Ter. As Escrituras desmontam exemplarmente estas duas taras da vida moderna, o Ter e o Poder, ao colocar os valores em perspectiva.

Acresce que o foco centrado sobre a identidade pessoal e a autenticidade contribui, por sua vez, para o combate às adições, que não passam de uma forma ilusória e prejudicial de se tentar fugir de uma realidade desconfortável ou dolorosa.

O princípio bíblico de não se gastar o dinheiro naquilo que não é pão, representa uma cultura de poupança, de mais economia e de menos endividamento. “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” (1).

Por outro lado, o valor económico do serviço à comunidade, em matéria de voluntariado, está agora a começar a ser reconhecido oficialmente, mas ainda se ensaiam estimativas concretas sobre o sector. Pois a fé cristã também promove, de forma natural e espontânea, esse tipo de actividades, dadas as suas características doutrinais (“amor ao próximo”).

Há também aspectos estruturantes da religião, como o fortalecimento do núcleo familiar e de relações fortes e maduras, do que resultam ganhos sociais e pessoais muito significativos, como uma menor taxa de marginalidade, menos crime, menos distúrbio emocional, menos perturbação mental e menos desenraizamento.

Sempre subjacentes encontram-se os aspectos filosóficos. A fé confere um sentido da vida, contribui para uma perspectiva filosófica existencial mais sólida, que dá contexto e razão de ser à vivência pessoal e social, e é portadora de futuro.

 

O plano da socialização (integração social):

As comunidades locais de fé, sempre que funcionam bem, constituem-se como factores de integração, interacção e socialização dos imigrantes, dos mais desenraizados e carentes.

Além da unidade e do amor fraternal, elementos constituintes da Igreja Primitiva, o princípio fundamental da partilha cristã é uma marca importante que atravessa toda a história do Novo Testamento.

Desde a instituição do diaconato (2), à prática dos agapes (refeições comunitárias de fraternidade cristã) nas casas das famílias (3), ao acto de reunir ofertas de amor nas comunidades locais de fé da Diáspora, de modo a minorar as carências das comunidades cristãs mais pobres, como na região da Judeia (4), às exortações do apóstolo Pedro às mulheres ricas, para que o culto não deixasse de ser um espaço integrativo (5), ou de Paulo e, acima de tudo, pela força do simbolismo, à celebração da Santa Ceia, Ceia do Senhor ou da Eucaristia.

Tudo fala de coesão, de proximidade, de bem-estar geral.

 

O plano da coesão social (ou da cura social):

Dos pobres, idosos, doentes, minorias, imigrantes e outros mais fracos ou vulneráveis.

Jesus prestou uma atenção especial à criança, à mulher, ao deficiente, ao pobre, ao ser humano em sofrimento e ao gentio, considerado excluído por um sistema religioso baseado numa aliança firmada nos princípios da exclusividade étnica, de um passado épico, sempre celebrado, de um Deus exclusivo e de um destino glorioso feito à medida.

A igreja cristã, inspirada na figura, identidade, palavra e obra de Jesus de Nazaré, não pode deixar de ser uma extensão da postura do Mestre da Galileia. Ora ele constitui o exemplo maior de respeito pela pessoa, independentemente da sua condição concreta (sexo, etnia, saúde, posição social, idade, conhecimentos ou dimensão cultural).

 

O QUE É O REINO DE DEUS?

A reflexão entre religião e coisa pública leva-nos ao conceito bíblico de “reino de Deus”: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (6). 

O reino de Deus não é um estado teocrático, nem se caracteriza pela aplicação de qualquer sharia (corpo legislativo religioso), o que, de acordo com o bom senso e o testemunho histórico, constitui sempre um retrocesso civilizacional, e que não pode deixar de pôr em causa, tanto a dignidade intrínseca da pessoa humana como a sua sagrada liberdade.

As características do reino de Deus (Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo) estão intimamente ligadas.

É a justiça que abre caminho à paz. Não pode haver paz sem justiça. E a paz, por sua vez, permite o surgimento natural da alegria.

Do ponto de vista conceptual, se a Justiça do reino de Deus está baseada num Ethos, a Paz começa por ser um Logos, a palavra feita viva, encarnada e estabelecida na História. No discurso de Pedro em Cesareia (7), diz-se que a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciou-lhes a paz por Jesus Cristo.

E o estado final do reino, a Alegria, é um Pathos (paixão).

Daqui se conclui que, nesta concepção do reino, se verifica a presença dos fundamentos da cultura helenística, tão entranhados eles estão nos textos escriturísticos neotestamentários, o que não admira dada a sua influência decisiva no mundo de então e na formação cultural e humana de alguns dos escritores sagrados da Nova Aliança.

 

CONCLUSÃO

A influência de cristãos devidamente organizados em comunidades locais de fé vivas e dinâmicas, introduz na sociedade as características do reino de Deus, isto é, os factores de justiça, de paz e de bem-estar que definem uma sociedade harmoniosa e equilibrada.

Embora a História do Cristianismo seja recheada de lutas pelo poder, guerras religiosas e disputas teológicas e doutrinais, fruto da condição humana a que todos estamos sujeitos, a verdade é que o Evangelho, quando vivido na sua integridade, proporciona ganhos sociais significativos.

Apesar de todos os percalços, a Europa não pode ignorar a influência da religião na sua construção, e muito menos a América.

Se a visão do reino de Deus não configura exactamente a ideia da “Cidade de Deus”, de Santo Agostinho, de forte pendor escatológico, apontará todavia para a cidade dos homens, temperada pelo sal da terra, que são os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.

 

 Referências bibliográficas:

(1)  Isaías 55:2.

(2)  Actos dos Apóstolos 6.

(3)  Actos 2:42.

(4)  II Coríntios 8.

(5)  I Pedro 3:3.

(6)  Romanos 14:7.

(7)  Actos 10:36.

 

 

 

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