A Pós-Verdade e a Pessoa de Cristo

 

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​Jorge Pinheiro

Embora cunhada há relativamente pouco tempo, a expressão pós-verdade (*) traduz uma realidade velha de séculos. Podemos afirmar que ela (a realidade) existe desde que o Homem se assumiu como ser pensante, estando presente na prática em todas as situações em que as nossas convicções pessoais se confrontam com a realidade dos factos. Nesta perspectiva, sempre que lidamos com ideias e concepções, sejam elas filosóficas, religiosas, ou de outra índole, temos de esperar a sua manifestação.

Na realidade, não é a circunstância de apresentarmos factos objectivos que nos dá a garantia de, com eles, levarmos o outro ou nós próprios a alterar uma convicção anteriormente adquirida. O nó górdio situa-se precisamente aqui – nem sempre os factos são objectivos e nem sempre os factos apresentados retratam o real. Pelo menos é a essa conclusão que as nossas convicções nos levam e mais nos levam quanto mais arreigadas e principalmente sedimentadas estiverem. E se as nossas convicções nos levam a fechar a porta à argumentação lógica de base científica e se escancaram ao domínio do emocional qualquer facto apresentado, mesmo que comprovado, arrisca-se a bater numa parede de aço.

Deste drama e dessa tensão ecoa a pergunta de Pilatos a Jesus quando o Nazareno lhe foi levado a julgamento perante factos (nem sempre objectivos) apresentados pelos seus acusadores: “O que é a verdade?” Os factos acusatórios ou a sua interpretação (pelo menos alguns deles eram objectivos e traduziam uma realidade indesmentível) não se encaixavam no quadro paradigmático das convicções dos acusadores. Podemos até, em jeito de análise de intenções, concluir que o quadro mental de Pilatos não lhe permitia aceder a outra decisão senão aquela que tomou e que os evangelhos registam, mesmo que o real que os factos veiculavam apontasse por hipótese numa outra direcção. E nesse quadro judicial, os mesmos factos acabam por provocar reacções distintas e até contraditórias. Os factos não chegaram para que a unanimidade se estabelecesse.

É que os factos, nunca o esqueçamos, por muito objectivos que possam ser e por muito tradutores que sejam do real confrontam-se com o quadro mental paradigmático das convicções pessoais. Isso em parte explica por que razão a apresentação de factos como prova de validação de uma determinada teoria ou ideologia nem sempre se apresenta com o rigor da objectividade, na medida em que o arauto dessa teoria ou ideologia cede à tentação de, por assim dizer, se travestir emocionalmente. Por vezes o day after é não apenas traumático mas apocalíptico. E apocalíptico tanto no sentido restrito de uma realidade reveladora, como no sentido genérico de uma catástrofe tida como arrasadora.

Quem escreve sobre a vida e a mensagem de Jesus Cristo não pode ignorar esta realidade e esta tensão. Por vezes, tanto o escritor como o pregador cristão se esquecem de que a mensagem cristã se baseia em factos e não tanto em elaborações de ordem doutrinal ou filosófica. É verdade que o Cristianismo se ordena em torno de uma ideia central – a comunhão com Deus, o que exige uma profissão de fé, logo do domínio da ideia – mas, como diz Paulo, se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé, logo, do domínio do facto. Na realidade, todo o edifício ideológico cristão está dependente de um facto concreto – a pessoa de Cristo. Como tal, a mensagem apresentada pelo escritor cristão tem de estar sempre baseada nessa verdade central – o facto que é Jesus Cristo – mesmo que a mensagem provoque emoção no ouvinte ou no leitor. Ou seja, a emoção tem de ser sempre um subproduto da factualidade da mensagem veiculada.

É bem de ver que a emoção, poderíamos dizer toda a emoção, é volátil e não precisa de se basear em factos objectivos e concretos mas no equilíbrio (ou desequilíbrio) homeostático desejado. Por outro lado, o facto objectivo, precisamente porque ocorreu em resultado da intrusão do real, adquire consistência e entrega-se sem receio ao escrutínio da sua análise.

Ora, no tocante ao cerne da mensagem evangélica (entenda-se por evangélico a realidade da factualidade narrada pelos evangelhos), quem escreve sobre ela não está a elaborar senão sobre o concreto de um facto histórico que não é do domínio do onírico. Por isso, toda a escrita sobre as verdades evangélicas, mesmo apelando a uma resposta emocional, deve ater-se ao maior rigor objectivo, ainda que fruto de uma interpretação subjectiva ou pessoal. A não proceder desse modo, estará a transformar o facto-Jesus (centro do evangelho) na ficção-Jesus. Não basta que o discurso tenha lógica e consistência interna. É mister que ele não se submeta aos ditames do subproduto emocional.

Recorrendo a uma linguagem mais chã, podemos dizer que uma situação em que o conceito de pós-verdade impera se identifica com o “achismo”. No achismo, o facto, tradutor da realidade, é irrelevante e muitas vezes supérfluo, indesejado e um estorvo. O que conta não é a factualidade do real, mas a defesa de forma estrénua das nossas convicções, mesmo que, e principalmente, a sua base não seja lógica nem factual, mas dependente da argumentação do “porque sim”. O achismo dá-se mal com a objectividade do real porque o seu real é o resultado de um constructo conceptual que garante a quem o defende a estabilidade emocional sem necessidade de recurso a provas de aferição.

A verdade é que o universo religioso presta-se ao proliferar do achismo na medida em que, procurando as mensagens religiosas sossegar as consciências, elas abrem caminho à aceitação fácil de um quietismo que permita ao crente prosseguir sem sobressaltos no estado de graça de que desfruta. Ora, encarando e anunciando a mensagem cristã apenas na sua vertente religiosa, o escritor cristão não pode ignorar essa realidade e deve esforçar-se por não cair no logro de escrever para agradar ao seu leitor ou para se limitar a relatos de circunstância.

É também verdade que qualquer facto é interpretado segundo o quadro ideológico de quem o analisa e o enfrenta. O escritor cristão, como qualquer outro ser pensante, tem também o seu quadro ideológico mais ou menos definido. Por isso, não admira que o seu discurso reflicta o quadro em que ele se move. Mas uma coisa é a interpretação de um facto, outra bem diferente é a sua distorção, obrigando-o a encaixar-se nos quadros conceptuais de quem o analisa e sobre o qual escreve. Como já foi dito atrás, o Cristianismo caracteriza-se por ser uma mensagem que está mais dependente da factualidade do concreto do que da elaboração de uma argumentação de axiomas dogmáticos. É verdade que, como qualquer sistema ideológico, o Cristianismo provoca e muitas vezes motiva emoções (seria estultícia negá-lo), mas estas deverão ser sempre a consequência e não a causa.

Perguntar-se-á: como conseguir que, havendo tantas interpretações dos factos quanto os analistas, não haja distorção dos factos abordados? Tal como no universo das medições há sempre um padrão face ao qual as medições apresentadas são contrastadas, assim também o discurso do escritor evangélico ao discorrer sobre a pessoa e mensagem do Nazareno tem de ser contrastado com o padrão aferidor que é a revelação divina dada aos homens. Ela própria faz-se eco desta realidade no episódio da pregação de Paulo aos crentes de Bereia. Perante uma argumentação baseada em factos de que Paulo era testemunha (ainda que teológica e não presencialmente), os Bereanos confrontaram-na com o padrão aferidor que eram as Escrituras veterotestamentárias à sua disposição. E embora confrontados com factos novos, não tiveram pejo em os aceitar como válidos porque os concluíram avalizados pela Revelação.

Esta questão da autoridade é de extrema importância e a sua realidade deve estar sempre presente no espírito do escritor cristão. É que a pós-verdade impõe-se não apenas por ignorância ou laxismo de quem lhe está sujeito, mas pela existência de uma agenda escondida de quem a propaga, recorrendo muitas vezes a um excesso de informação e à referência a uma autoridade. Ora, a autoridade a que o escritor cristão deve estar sujeito não é nem o seu programa ou nome pessoais, mas a autoridade da Revelação, que o mesmo é dizer que é com ela que o seu discurso deve estar sintonizado.

Permanece, contudo, sempre no horizonte uma questão inescapável: o conflito real versus verdade. Sem entrar em grandes elaborações sobre a natureza e a realidade concreta do real, podemos dizer que entramos em contacto com o real através dos factos. Ou, inversamente, que o real se manifesta através dos factos. No entanto, a verdade pode nem sempre coincidir com o facto tradutor do real e, por intermédio dele, com o real. Na realidade, a verdade tanto se pode construir sobre os factos como sobre o constructo conceptual do pensante, em que o facto pode ou não estar presente. E não se pense que essa é uma realidade estranha ao universo religioso e, por maioria de razão ao Cristianismo. A Escritura faz-se eco dessa realidade no magnífico capítulo onze de Hebreus, em que lemos que os crentes creram contra toda a esperança face aos factos que enfrentavam. A realidade dos factos era uma – a desesperança – mas a verdade que alicerçava os crentes, sem negar a factualidade do que enfrentavam, era outra, apontando para uma realidade que ultrapassava os factos. Naturalmente poderemos sempre perguntar: e essa esperança não traduzia o verdadeiro real? É nesta ambiguidade e aparente contradição que a pós-verdade joga: nem sempre o facto traduz o verdadeiro real. Ela escamoteia, contudo, uma verdade que não podemos ignorar: a fé baseia-se na veracidade e fidelidade de uma palavra autoritativa. Como cristãos, acreditamos que essa palavra autoritativa provém do Criador e Mantenedor do universo em que nos movemos. E tendo ele já falado, então todos os factos e todas as verdades têm de estar consonantes com essa mesma palavra autoritativa já anteriormente falada e que Ele colocou ao nosso dispor. Essa palavra é d’Ele e só d’Ele e colocar outra a par ou em sua substituição é roubar a glória que só a Ele pertence. Não a subvertamos, pois.

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(*) pós-verdade – Segundo a definição do dicionário Oxford, é um substantivo que faz referência a “circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”. Segundo a Oxford Dictionaries, foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich.

A probabilidade de ser poema

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© João Tomaz Parreira

 

 

1Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.”

Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze.

A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider

( 1776-1848) no que concerne a autoria de Evangelho. Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral ( in “Probabilia”).

Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.

Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.

É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus Filosofias gnósticas do Século I.

Estruturalmente,  ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.

No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Biblia – Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.

De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética,  reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.

No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος)  Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.

“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”.  Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.

Contudo, quer este verso inicial quer todo  o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.

Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.

A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”.  A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo.

 

 

 

 

 

 

 

Fátima: 100 anos depois

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A tendência das análises costuma resvalar quase sempre para posições extremadas. O caso das denominadas aparições de Fátima não foge à regra. De um lado estão os que as consideram uma acção artificial premeditada por mão humana, com vista a enganar as crianças pastoras, analfabetas e mergulhadas no obscurantismo rural da época, ou que Lúcia terá tido uma perturbação psíquica do tipo alucinatório. Do outro lado estão os que levam à letra tudo quanto é (foi) descrito, de modo acrítico, alinhados com a crendice popular. Não creio que nenhum destes seja o caminho mais correcto e adequado para a reflectir sobre o fenómeno.

Julgo que nos últimos tempos a igreja católica tem começado a clarificar melhor os acontecimentos de 1917 na Cova da Iria, através dos seus teólogos e até de homens da hierarquia. Desde logo com a recusa do termo “aparições”, por inexactidão, visto que se terá tratado de uma experiência pessoal e interior, uma “visão mística” (D. Carlos Azevedo), uma “visão da consciência” sem qualquer “materialidade” (D. Januário Torgal Ferreira), ou algo que deve ser visto pelo “olhar interior da fé” (D. António Marto) e não propriamente uma aparição que, a sê-lo, teria que ser visível por todos.

Fátima funciona sobretudo como espaço físico e espiritual de catarse. Para ali são canalizadas as angústias, as dores, o medo e o sofrimento das pessoas.

O papa Francisco ensaiou mesmo um discurso um pouco ao arrepio da religiosidade popular, quando recordou que “Maria não é a ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores”, mas que ela mesma foi a primeira seguidora de Jesus Cristo, o Salvador. Francisco realçou o papel redentor de Jesus Cristo, ao afirmar: “a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências” do pecado da humanidade “juntamente com a justa pena”.

Januário Torgal Ferreira lamenta a pouca ligação de Fátima ao mundo real, mas o papa não se cansou de lembrar “cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente”, assim como os “excluídos e abandonados a quem negam o futuro”, e invocou os “órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado”. Exortou os católicos à necessidade de praticarem a misericórdia. Apelou aos peregrinos para abandonarem “qualquer forma de medo e temor, porque não se coaduna” com “quem é amado”, e sublinhou o perdão: “a misericórdia de Deus perdoa sempre, perdoa tudo”.

Mas Fátima interpela também a política. Januário Torgal Ferreira criticou publicamente a tolerância de ponto que foi dada pelo governo aos funcionários públicos e António Marto esclareceu que nunca a pediu ao governo, pois, sendo fim-de-semana, a medida revelou-se desnecessária. A verdade é que o governo a decretou suscitando assim algumas reacções isoladas. Julgo que se aplica aqui a velha máxima de “ser mais papista do que o papa”.

 

Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 19/5/17.

 

O “Consolador” na viagem de “O Peregrino”

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© João Tomaz Parreira

 

Uma grande obra viva da imaginação, é assim que pode ser tratada a alegoria «O Peregrino» de João Bunyan, justamente considerado o maior ficcionista inglês do século XVII e que utilizou para a sua prosa um único modelo – a Bíblia, por isso lhe chamaram mais «Bispo Bunyan» que romancista.

Com tradição literária desde os poetas latinos a Dante, por exemplo, a alegoria tomou nesta obra-prima da literatura cristã do século XVII um lugar especial, de realismo quase moderno – como alguém escreveu -, o da realidade moral e espiritual da vida progressiva do cristão, do seu trajecto para a Cidade de Deus.

Estudos feitos sobre essa obra, no âmbito da história da literatura inglesa, dão conta de que se trata, com efeito, de «uma história realista, contemporânea e autêntica», não obstante a sua vasta formulação espiritual.

É nesse desenvolvimento do seu conteúdo espiritual que as principais personagens simbólicas de «O Peregrino» ganham o significado teológico que a Bíblia Sagrada lhes confere. Uma dessas personagens, por assim dizer, do romance alegórico de Bunyan, com o seu significado simbólico e a sua realidade bíblica, é, sem dúvida, o Intérprete. (Págs. 37-47, Edições NA, 1977)

Foi este tratado ao longo dos últimos três séculos por diversas entidades académicas e personalidades evangélicas como uma das figuras tipológicas mais influenciadoras do sucesso da viagem do Cristão, constituindo uma das etapas fundamentais da sua viagem sonhada, quando cheio de ânimo deveria parar na «residência do Intérprete» e ali «ouvir coisas muito úteis e excelentes». Por aproximação que deixa entrever através dos véus literários da sugestão, do mistério, da alegoria, e das citações bíblicas, a sua condição de guia, é tratado também como sendo a figura do Consolador.

Separando o simbólico do teológico, não é difícil entender qual é o papel neotestamentário do Espírito Santo na vida dos crentes.

Os detalhes existem no decorrer do diálogo entre o Intérprete e o Cristão. O trajecto cristão é feito de lutas mas de poder para vencer as mesmas. E esse poder só pode ser o poder do Pentecostes, do Consolador, do Guia que é, também na acepção do livro de Bunyan, a Terceira Pessoa da Trindade. Jesus Cristo ensinou que uma das funções do Espírito Santo é ser o intérprete e guia a toda a verdade, «porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão-de vir.» (1)

O pormenor de uma das falas do Intérprete, dirigindo-se ao Cristão, que flutua entre a esperança e o temor, é um bálsamo desta alegoria sobre a presença indispensável do Espírito Santo na nossa vida: «Parte, pois, e que te acompanhe o Consolador, sendo sempre teu guia até à cidade (celestial) » (pág. 47)

São importantes também para a pedagogia que Bunyan coloca objectivamente neste capítulo, os actos simbólicos encenados para ilustrar realidades espirituais.

A renovação pentecostal do crente («o azeite deitado no fogo por Cristo», pág.42), o perigo mortal da blasfémia contra o Espírito Santo, o não causar tristeza a essa Divina Pessoa, o Dia do Juízo Final ou uma referência ao novo filho pródigo, que é aquele que quer apenas os bens terrenos, actuais, e não se preocupa com as coisas mais excelentes, os bens futuros, celestiais. Indubitavelmente um retrato antecipado do homem «materialista religioso» pós-moderno.

Finalmente, nesse romance que o próprio autor certamente não chamaria assim, existe a honestidade de afirmar várias vezes que se trata de «um sonho».

«Em breve adormeci e tive um sonho». No início da obra, o escritor introduz o leitor num ambiente que, apesar de tudo, tem pouco de onírico e bastante de realista.

A intenção de Bunyan não foi fazer uma nova doutrina sobre a carreira cristã, mas ao mesmo tempo que pregava, no seu livro, o Evangelho, foi estabelecendo com as vicissitudes pelas quais passou a personagem principal, passo a passo a caminhada da vitória. É com um sentimento de honestidade que a meio do livro (pág.97) reafirma- «Vi, então, no meu sonho ».

No fim do mesmo, torna a escrever «E nisto… acordei, e vi que tudo fora um sonho».

Com efeito, é uma meditação religiosa e ao mesmo tempo a narratividade da história realista do cristão, e hoje como há três séculos, o leitor avisado e crente sincero despe as alegorias da fantasia natural para as vestir com os trajes da realidade do quotidiano.

O cristão, filho de Deus, nascido de novo, na sua vivência diária, já não vive hoje na figuração da realidade através de alegorias, mas na realidade ela mesma de que foi chamado pelo Pai para «a comunhão de seu Filho Jesus Cristo», sabendo que se lhe aplica uma benção trinitária: a graça de Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo, com qual sempre terminamos nossas reuniões religiosas.

Embora não exista nenhuma igreja denominacional explícita em «O Peregrino», há, sim, um compromisso, para além de tudo o mais, do cristão que avança, vitorioso, mesmo confrontado com situações-limite até à cidade celestial. O cristão que, simultaneamente personagem e pessoa real, nesta história «conhecia e praticava a difícil arte de ser paciente na tribulação e de transformar os obstáculos em trampolim para o sucesso».(2)

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(1) João 16, 13; (2) João Bunyan, Ensaio Biográfico, de Carlos Dubois, Juerp, 1968

 

O Circo mediático em Fátima

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Paulo Mendes Pinto

São difíceis os tempos que vivemos hoje em dia na incapacidade de distinguir as naturezas das coisas. Facilmente informação se transforma em espectáculo, não apenas por ser diversão, mas por trazer a mais ridícula e degradante subversão da ideia de conhecimento para dentro da função de informação que certos canais deveriam, em meu entender, ter.

Por estes dias estou com a SIC em Fátima.  Fui convidado para fazer parte de um painel de “comentadores” entre os quais se encontram sacerdotes, Frei Fernando Ventura e o Pe. José Maria Brito, a teóloga Teresa Toldy, e o jornalista António Marujo. Isto é, estou enquadrado por um grupo de gente que conhece o fenómeno religioso e o questiona, seja pelo lado da crença, ou não.

O santuário instalou uma grande estrutura, um plateau, onde quatro canais televisivos instalaram os seus estúdios com o próprio santuário como fundo. É desse local, com uma vista impressionante, que somos entrevistados, que damos a nossa opinião, que questionamos e reflectimos, tentando dar algo de significativo ao telespectador.

Mas o circo mediático, na sua azáfama e procura do mais especial para transmitir, subverte a natureza do próprio evento. Esse plateau, instalado no extremo oposto ao altar onde tudo se vai passar, passou a ser uma segunda fonte de atracção, rivalizando, para muitas centenas de supostos peregrinos, com a imagem da Virgem Maria.

Ao nosso lado, noutros dos estúdios vizinhos, figuras mediáticas, em nada detentoras de interesse algum em termos religiosos ou de conhecimento, funcionam como imanes e a multidão aproxima-se, assenta arraias para ver, de costa um Goucha um Marco Paulo ou uma Fátima Lopes.

Grita-se pelo Manuel Goucha e mandam-se beijinhos. Ele vira-se para trás e corresponde simpaticamente. Marco Paulo chega a cantar com o público, já muito longe de serem peregrinos. Fátima Lopes é ovacionada quando entre no plateau – grita-se “tu és linda!”

Sem palavras, assisto a este circo. Muito se poderia dizer da fraca cultura da nossa população. Muito se poderia dizer sobre este povo que vai a Fátima mas vira costas ao santuário quando vislumbra uma estrela televisiva.

Mas muito mais se poderia dizer sobre as estações que decidiram seguir este modelo. Muito mais se poderia dizer sobre estas máquinas de fazer audiências que conteúdo nenhum apresentam para melhorar o nosso mundo, a não ser, possivelmente, chorudas contas bancárias.

Não falo como crente, porque o não sou.  Mas falo como indignado em relação ao aproveitamento mediático em que os crentes são apanhados, usando-se das fragilidades sociais e culturais como ferramenta para inebriar e afastar os peregrinos daquilo que era o seu foco: a peregrinação, a crença na Senhora de Fátima.

É difícil fazer concorrência a isto; é difícil fazer concorrência a este estado de coisas.

Contudo, fico contente por estar no estúdio ao lado, da SIC.

Custa-me muito ver isto. A náusea é grande.

 

Fonte: Público.

 

 

MOAB, uma “mão de Deus”?

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Paulo Mendes Pinto

 

Nos últimos dias, uma palavra entrou pelos nossos ouvidos significando aquela que é chamada pelos seus criadores como a “mãe de todas as bombas”. Numa visão tão forte de si mesmos como criadores de morte e de destruição, a sigla pela qual é conhecida esta bomba não podia ser isenta de significado, não podia ser apenas o alinhar de um grupo de letras que, por acaso, resultara na expressão MOAB – Massive Ordnance Air Blast.

De facto, MOAB é das palavras bíblicas com mais significado. E o seu uso pressupõe, obviamente, o conhecimento do que ela implica, das tonalidades do seu significado, da profundidade de uma postura e de uma ideologia que pode ser indicada através dessa opção. O acaso é a última dimensão a ter em conta perante os usos desta palavra.

No campo mais simples de significado, Moab é o nome de uma faixa de terra montanhosa hoje em dia parte da Jordânia. Na Antiguidade, esta faixa pertencia ao chamado Reino Moabita, um reino vizinho de Israel, um inimigo de peso no domínio regional.

Este pequeno reino, tal como o era Israel, que surge referido várias vezes na Bíblia (II Reis 3, e Gn 19, 37), tem atestada a sua existência através da arqueologia. Contudo, antes de se olhar brevemente para o que o texto bíblico nos diz deste reino, vejamos a própria palavra.

Como para muitos outros topónimos antigos, a sua etimologia é incerta. Contudo, as várias hipóteses apontadas pelos investigadores merecem o nosso olhar. Uma das mais interessantes, remete o pensamento para um particípio, logo, Moab seria “a desejável [terra]”.

Mais perto de nós, Rashi, um importante pensador judaico medieval, do séc. XI, aponta uma alternativa que nos obriga a seguir outra interpretação. Para este pensador, Moab seria, originalmente “Mo’ab”, sendo que “ab” é a palavra semita mais comum para “pai”. Assim, Moab seria “do Pai”. Com esta leitura, Rashi justificava, devido à soberba do uso de tal nome, a forma como Israel tratara os moabitas na guerra descrita no livro II Reis.

Ainda mais perto de nós, o orientalista alemão Fritz Hommel (1854-1936) avançava com a possibilidade de Moab ser uma abreviação/contracção de “Immo-ab”, podendo-se interpretar essa nova versão como a “sua mão é seu Pai”.

Nestas duas leituras, a dita bomba ganha um poder quase divino e ordenador. Se, ironicamente, Moab pode ser “a desejável”, ficando-se sem saber se o desejo é em relação à terra onde ela vai cair ou se a sua queda e destruição é desejo de quem a lança, por outro lado, seguindo o comentarista medieval, Moab é sinónimo de injúria perante Deus, e por isso é vingança justa e merecida. No limite, seguindo as leituras mais recentes, o uso de uma bomba com este nome está como que legitimado por Deus por ser uma arma em que “sua mão é seu Pai”, numa legitimidade teológica plena.

Estamos, mais que perante um nome radicado numa leitura judaica, num uso que parece ser mais típico dos grupos e igrejas neopentecostais que em muito usam na sua pregação as imagens do Deus de Israel como o Deus dos Exércitos, o Deus vingador.

O irónico é que, realmente, o reino do Moab surge quer na Bíblia, quer nos vestígios arqueológicos. E se, na Bíblia, Israel vence de forma inquestionável, na famosa Estela de Mesa, onde se encontra a versão moabita dessa mesma guerra, a situação é muito diferente….

No texto bíblico (2 Reis 3, 4-27):

Então Mesa, rei dos moabitas, era criador de gado, e pagava de tributo, ao rei de Israel, cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã.

Sucedeu, porém, que, morrendo Acabe, o rei dos moabitas se rebelou contra o rei de Israel.

[…]

também entregará ele [Deus] os moabitas nas vossas mãos.

E ferireis a todas as cidades fortes, e a todas as cidades escolhidas, e todas as boas árvores cortareis, e entupireis todas as fontes de água, e danificareis com pedras todos os bons campos.

[…]

E arrasaram as cidades, e cada um lançou a sua pedra em todos os bons campos, e os entulharam, e entupiram todas as fontes de água, e cortaram todas as boas árvores […].

Na Estela de Mesa (c. 830 a.C.), hoje no Museu do Louvre:

No que toca a Omri, Rei de Israel, este humilhou Moabe durante muito tempo, porque Quemós [deus de Moab] estava irritado com sua terra. E o seu filho seguiu-o e disse também: Hei-de humilhar Moabe. No meu tempo [do rei Mesa] ele o disse, mas eu triunfei sobre ele e a sua casa, enquanto Israel tinha perecido para sempre! Omri tinha ocupado a terra de Mádaba e Israel tinha habitado lá no seu tempo e durante metade do tempo do seu filho [Acabe, filho de Omri], por 40 anos; mas Quemós habitou ali, no meu tempo.

Como se vê, o uso do significado de MOAB deveria implicar um mais correcto conhecimento, ou a administração Trump corre o risco de estar a criar uma nova guerra assente em “factos alternativos”, como no caso do texto bíblico, mais recente que a Estela de Mesa… É por isto que o uso da simbologia deve ser ponderado e deve resistir à tentação do significado fácil.

 

Fonte: Público.

Poesia e memória (no evangelho de Lucas, 24, 5-6)

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© João Tomaz Parreira

Why Seek Ye The Living Among The Dead? Why seek ye the living among the dead? He is not here, but is risen – estrutura de linguagem poética
 Remember how he spake unto you when he was yet in Galilee, Saying, The Son of man must be delivered into the hands of sinful men, and be crucified, and the third day rise again – memória (Versão King James)

Poesia e memória, seguindo os estudos linguísticos de Saussure e Hjelmslev no que concerne à poética,  é o que encontramos nesta afirmação cheia de significantes e de conteúdo da linguagem dos anjos,  tornada humana na sua discursividade. Porque segundo o Evangelho, o significado já não estava no sepulcro e assim só nos sobram as palavras.

Poesia e memória, isto é, uma estrutura poética na forma de se expressarem os seres angelicais no sepulcro vazio; e um avivar da memória das mulheres que foram, no domingo de manhã, ao túmulo onde puseram Jesus Cristo.

O modo expressivo como os “dois homens em traje resplandecente” falaram às mulheres, grafado sobretudo na estrutura linguística da versão inglesa da Bíblia King James, exibe uma linguagem poética com ritmo, com ideias, com acento poético, diríamos poesia pura. Sabemos desde o século XVIII, pelo menos, que o verso branco, falta de rima, não significa que não é poema.

Why seek ye

The living among the dead

He is not here,

But is risen

Não há nestes “versos” nenhum esquema rimático, mas existe uma melopeia. Há uma métrica subliminar, também explícita, em que planam as palavras. Estão aqui, num tempo em que não havia fotos, toda a verdade, a história e o retrato completo da Ressurreição de Jesus Cristo.

A versão em português de A Bíblia para Todos (BPT), exara assim as palavras dos “dois homens, vestidos com roupas brilhantes”: 

“ Por que procuram entre os mortos aquele que está vivo?”

Dois versos de uma musicalidade próxima da redondilha maior (no primeiro), secundado com a afirmação da história do Cristianismo no que concerne à Ressurreição.

“Não está aqui porque ressuscitou”, num decassílabo perfeito.

A memória, para além da poesia, insere-se na memorabilia que os anjos usaram para recordar às mulheres, que foram ao túmulo, as próprias palavras de Cristo.

“Não se lembram do que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o Filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite? Elas então lembraram-se daquelas palavras.”