Os Cânticos dos Degraus: o clímax de uma estrutura poética

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   © João Tomaz Parreira

 

Os “Cânticos dos Degraus”, ou Salmos de peregrinação, fazem parte do Saltério como uma das chamadas colectâneas menores. São os salmos das ascensões, das romagens, ou da procissão ao Santuário (120-134).

O código do uso destes salmos, o seu sentido desde o destinador (os autores) para o destinatário, estava na aplicação específica de cada um desses escritos, eram usados como hinos litúrgicos, porções das Escrituras que davam alento e traduziam uma experiência do hebreu, particular ou colectiva, com Yahweh. Foram elaborados a partir do Eu poético, o elemento individual, e do Nós, o elemento comunitário, o poeta enquanto indivíduo e enquanto povo, assumindo as suas dificuldades e as suas acções de graças.

Com as particularidades do discurso poético da poesia hebraica bíblica (e somente esta era conhecida), desde os versos aos paralelismos e ao não uso da rima, não dispensando porém o ritmo do verso medido, toda a estrutura da linguagem acompanhava, dir-se-ia, o movimento ascensional que os Cânticos dos Degraus definiam e propunham.

Estes salmos perfeitos em sua beleza clássica não precisaram de ser longos, embora as ascensões ou as peregrinações fossem, elas mesmas eventualmente longas e por caminhos imperfeitos e a rasarem os abismos.

A ideia senão mesmo a imagem formal de cada um desses 15 salmos é uma subida, o discurso poético vai subindo de tom até um clímax final, quer fonética quer semanticamente.  Como se cada um partisse de baixo e fosse ascendendo em emocionalidade até um lugar alto.

O termo clímax significa um momento de maior intensidade na acção. Todos os quinze salmos dos Degraus traduzem-se numa acção, não são apenas salmos contemplativos ou de louvor estático. Como poesia, mas, também, como uma oração, os Cânticos de Romagem são uma conversa inteligente com Deus.

De todo o conjunto há três salmos que são paradigmáticos neste aspecto, os salmos 121,122 e 123, embora todos os restantes mostrem o mesmo padrão ascensional, os montes, o templo, a alegria, o olhar colocado em Deus, o escape quando os pés vacilam, o dia e a noite como metonímias poéticas do sol e da lua, e outras comparações metafóricas.

Escolhemo-los pelo seu forte impacto inteligível desde a primeira leitura. Sobre eles nos deteremos, com brevidade, como sistemas significantes (a linguagem poética, a antevisão das dificuldades, o sonho do regozijo ao chegar à presença divina  na Casa do Senhor). Cada palavra como que acompanha a ascensão, marca o ritmo da subida.

Salmo 121

Este salmo não introduz, como outros, um imperativo verbal, introduz antes uma inevitabilidade do salmista, o olhar para fora, para o aparente problema: os montes. E uma pergunta que pode indiciar perplexidade, é, normalmente, da dúvida que partimos para uma certeza. O primeiro verso, onde se averigua a dificuldade, e a questão colocada, não rompem com a Aliança com Jeová, e o poeta que questiona, ele mesmo dá a resposta que vem do seu coração. Ele olha para dentro de si próprio e aí estão todas as respostas: a identidade de onde provem o socorro e as capacidades inefáveis de quem socorre.

Desde aqui até ao verso 8 há um claro clímax, uma ascensão, que culmina: “O Senhor guardará a tua entrada / e a tua saída, desde agora e para sempre”. A dúvida inicial transforma-se numa afirmação de certeza. O peregrino sabe agora  o favor divino com que pode contar.

Do ponto de vista da chamada psicologia social ligada à semiologia, este salmo está carregado de sinais ( do grego sémêion), e cada um deles desde os montes, o sol e a lua, os pés que podem resvalar, o subentendido abismo, fornecem todo o pano de fundo para a compreensão do poema como um lenitivo para uma subida que se mostra árdua, mas com final feliz. 

Salmo 122

No primeiro verso deste Salmo, parece que o clímax está no início. Reproduz o contentamento espiritual, a emoção palpável de David, que nos diz numa versão comum da Bíblia Para Todos (BPT): “ Que alegria quando me disseram vamos ao templo do Senhor”. É um salmo de peregrinação sobre o Templo. Antevê, no princípio da subida, a majestosa visão da Casa do Senhor, em Jerusalém.

Curiosamente, o salmo 122 introduz no saltério uma percepção de movimento: “Já estamos mesmo a chegar às tuas portas, Jerusalém”.

De acordo com Hermann Gunkel (Alemanha, 1862-1932), o salmo 122 é um dos mais paradigmáticos no que concerne à peregrinação ou à romagem. Esse estudioso das civilizações do Egipto e da Mesopotâmia e das suas ligações com os Salmos, enquanto poesia hebraica, “recapturou o valor dos salmos”, não apenas como literatura, mas sobretudo como parte da Bíblia Sagrada, designadamente a Bíblia Hebraica ou Tanakh, integrando os chamados “Escritos” ou Kethuvim

É um salmo onde de igual modo se prescreve uma obrigação: “É lá que vão as tribos, as tribos do Senhor, para cumprir a obrigação de Israel.”.

Salmo 123

Este é um dos mais pequenos cânticos na sua estrutura formal linguística, nas versões das nossas Bíblias tem apenas 4 versos. Neles se salienta, apesar da sua brevidade, o olhar do peregrino e a sua dependência dos favores divinos.

Não tem propriamente um clímax observável na estrutura fonética nem na sintaxe. Termina mesmo de um modo dir-se-ia desalentador, do ponto de vista social e religioso, dando a entender que o autor e todos quantos o acompanham na romagem, “estão completamente saturados com as injúrias dos arrogantes”. Aqueles que à margem dos caminhos da subida vão lançando impropérios desencorajadores aos peregrinos?        #

 

 

 

 

 

 

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O juiz e a Bíblia

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Rui Miguel Duarte

 

O país recebeu com estupefacção e com justa indignação um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, assinado pelos juízes desembargadores Neto de Moura e Maria Luísa Abrantes, em que condenam a pena suspensa marido e amante de uma mulher pelo crime de violência doméstica.

A estranheza e a torpeza estão em terem revertido a culpa para a mulher e nos argumentos de autoridade utilizados. A vítima mantivera uma relação adulterina, o que constitui um “gravíssimo atentado à honra e à dignidade do homem.” Sendo o adultério uma conduta condenada socialmente, seria de ver “com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.” Em virtude da deslealdade da mulher, o marido teria caído em depressão e agido dessa forma.

Em apoio da decisão, os juízes citam a Bíblia, na qual lêem a condenação à morte a que a adúltera era votada, o facto de haver sociedades que as mandam lapidar e, por fim, o Código Penal de 1886, que “punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.”

Que interessa, para os doutos juízes, que os dois arguidos tivessem agido em “conluio” (é o termo usado), marido e amante (recorde-se) que tivessem, individualmente e em conspiração, perseguido, assediado, ameaçado, raptado, humilhado, torturado violentamente uma mulher com uma moca com pregos? Que interessa que tenham aceitado como demonstrado que os arguidos agiram conscientes de que da sua acção resultaria para a vítima “mau estar físico e psicológico, bem sabendo da especial censurabilidade das suas condutas, não se coibindo, no entanto, de as levá-las a cabo.”

Faz-se prova de que o arguido marido caíra em estado depressivo, sendo para essa patologia medicado, mas questiono se se trataria de uma verdadeira depressão, porquanto uma patologia destas conduz geralmente à prostração do doente em si mesmo, à inacção, não à conspiração contra terceiros. Mas faço-o sem ser médico, apenas na qualidade de curioso mais ou menos informado.

Toda a sentença se fundamenta em vetustos conceitos culturais sobre os sexos, a dignidade e honra de cada. Patriarcado serôdio, numa palavra, coisas que o Direito já há muito arrasou, pese embora, como se vê, não terem desaparecido de certas mentes. Nada direi sobre o aborto jurídico que este acórdão constitui, sobre a abominável fundamentação em que se apoia. Já muitos se pronunciaram, e bem, sobre o dever de a justiça decidir com base na Constituição da República, nas leis e nas convenções internacionais sobre violência doméstica e direitos humanos de que Portugal é signatário. Nada acrescentarei ao que já tem sido dito e escrito pela Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, e nos jornais e redes sociais. Pretendo comentar a citação da Bíblia. A minha Bíblia. Ao fazê-lo, não inauguro o gesto, pois já as cúpulas da Igreja Católica, justamente, o fizeram. Nisto assoma já um grito: DEIXAI A BÍBLIA EM PAZ! Grito incontido.

Como cristão, creio que a Bíblia é a palavra revelada de Deus para ensinar, corrigir, transformar o coração humano graças à presença de Deus em Cristo. Foi escrita em momentos diferentes, por homens, a partir das experiências destes, em relacionamento uns com os outros e com Deus. Ora, os Meritíssimos juízes citam uma lei, a de Moisés, que declara que o adultério merece a morte.

O adultério é, com efeito, um mal: um desvio do amor de aliança em que se fundamenta o casamento e a negação da promessa feita no dia do matrimónio. Causa sofrimento no cônjuge traído e não um apenas atentado à sua honra e dignidade. O “bom nome”, como sói dizer-se hoje. Sendo que o “bom nome” depende incomensuravelmente mais do que fazemos do que daquilo que nos fazem. Mais mal fizeram esses dois homens à sua própria honra e dignidade, muito mais mal fizeram os Meritíssimos juízes com este arremedo de acórdão do que pela aplicação recta da justiça.

Voltemos à Bíblia. Ora, como lemos no Novo Testamento, Jesus Cristo cumpriu a velha Lei para que os homens, crendo n’Ele, fossem declarados justificados por Deus. A Lei servia para mostrar ao homem que os padrões divinos estão muito acima do que ele pode cumprir e que esse cumprimento é efectivamente impossível. Os Meritíssimos juízes, ao citarem a Bíblia, esqueceram-se dela. Designadamente do que disse e fez Jesus quando lhe levaram uma mulher adúltera (João 8:1-11). Jesus não nega a falta da mulher, mas perdoa-a, recomendando-lhe que mude de vida. Quanto aos seus moralistas acusadores, próceres dos Meritíssimos juízes da Relação do Porto, despediu-os com muito maior severidade: são corruptos na sua conduta e interpretação da Lei. A sua consciência culpada remeteu-os ao silêncio envergonhado: culpados hipócritas não estão em condições de julgar outros.

No mesmo Evangelho (4:1-26), relata-se o encontro com a samaritana. Nele, Jesus transpôs a barreira da multi-secular discriminação dos Samaritanos pelos Judeus, a barreira da distância recomendada entre um homem e mulher estranhos (como é hábito nos países islâmicos), ficando-se a saber que essa mulher tivera cinco maridos — sem que saibamos se por viuvez ou por ter os maridos dela se terem divorciado — e vivia em concubinato com um sexto homem. Não teria passado sem censura dos Meritíssimo Juízes da Relação do Porto. No entanto, Jesus, um homem e judeu, tratou-a como um igual, um congénere da mesma humanidade.

O testemunho neotestamentário reabilita e eleva o papel e dignidade da mulher como nenhum outro. E recoloca o homem no papel de protector da mulher. Amar é tratar bem, de forma a não provocar nelas amargura (Colossenses 3:16). A responsabilidade do marido é acentuada em termos fortes na I Epístola de Pedro 3:7: saber tratar a mulher com inteligência e tacto, como alguém fisicamente mais fraco e que por isso carece de protecção, a ainda com honra, porque homem e mulher são herdeiros da graça da vida em idêntica posição. Não sendo assim, existirá barreira às orações dos homens diante de Deus.

Mas também na I Epístola a Timóteo 3:2: o bispo (ou presbítero, homem com função de liderança numa igreja) deve ater-se a uma única mulher. Enormemente contundentes são igualmente as palavras da Epístola aos Efésios 3:25: os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a igreja, tendo-se entregado por ela. Trata-se, por conseguinte, de um amor sacrificial, que pode levar a que o marido esteja pronto a morrer pela esposa: morrer em vida, figuradamente, entendido como dar-se a si mesmo e pôr de lado a sua conveniência e interesses próprios para o bem e segurança da esposa e, literalmente, morrer para a vida, morrer pela esposa.

Há muitas lições da Bíblia a que os Meritíssimos Juízes não atentaram. Mas evidentemente, estamos no Novo Testamento. A Lei de Talião terminara com o sacrifício de Cristo. Prestemos, contudo, uma atenção maior ao Antigo Testamento, à velha Lei de Moisés. Levítico 20:10 prescreve que o homem que comete adultério merece a morte. Deuteronómio 22:22 determina que tanto é culpado o homem como a mulher que praticam tal acto. No II livro de Samuel, caps. 11 e segs., lê-se a aventura de David, o rei, com Bateseba, mulher de Urias, militar do exército israelita, e de como o rei ordenou que este marido fosse deixado sozinho no núcleo de uma batalha, no ponto onde a refrega mais quente era, de modo a ser morto e assim ficar escondida a vergonha de Bateseba ter engravidado de David, não do marido. A ira de Deus recaiu sobre o rei, adúltero e assassino. Pela Lei, merecia a morte.

Não sobreviveu a criança, sobreviveram os pais, acabando David por receber Bateseba como esposa, uma entre várias. Desse casamento, nasceu Salomão. David reconheceu amargamente o seu erro e foi tratado com misericórdia (leia-se o Salmo 51 a esse respeito). Em vários livros proféticos do AT, a relação de Deus com Israel, Seu povo, é alegorizada como a relação de um homem com uma prostituta, em virtude da infidelidade daquele. Assim, por exemplo, o livro de Oseias. Indignação divina, anúncio de justiça pelo delito sobre o adúltero povo, e misericórdia, paciência que se renova. Nenhuma lapidação.

No relato genesíaco, lê-se que a mulher foi criada do lado do homem. Não raro, e justamente, nos sermões das igrejas protestantes e evangélicas se ouve que isto tem um significado profundo e óbvio: a mulher está ao lado do homem; homem e mulher são companheiros, iguais em dignidade e direitos e de vida. Semelhantemente, no casamento romano, a mulher pronunciava a fórmula ubi tu Gaius, ego Gaia “Onde tu fores Gaio, eu serei Gaia”. O esposo respondia: ubi tu Gaia, ego Gaius “onde tu fores Gaia, eu serei Gaio”. Com esta fórmula se pretendia notar que, idealmente, o casamento era uma fusão de duas pessoas iguais. “Serão os dois uma só carne”, nas palavras do Génesis.

Ainda no Antigo Testamento, o capítulo 31, o derradeiro, do livro de Provérbios contém uma descrição da mulher. É um texto belíssimo. A mulher figura aí como mãe de família, patroa, gestora da casa e dos recursos domésticos como de uma pequena empresa, previdente e organizada, como educadora e líder que provê ao bem-estar de marido e filhos. Muito longe do retrato de uma mulher passiva, confinada ao gineceu, à submissão pela submissão, a um mero papel cosmético e de genitora. Uma tal mulher confere estabilidade ao lar e boa fama ao marido, envolvido na vida pública. Este, em contrapartida, admira a esposa e prodigaliza-lhe elogios.

Os Meritíssimos juízes, para fundarem na Bíblia a sua decisão, teriam muito mais onde procurar sobre a mulher, a sua dignidade e papel. Não o fizeram. Retiraram dela o que lhes interessou. A Bíblia, embora retrate culturas em que a mulher era tratada como ser menor, honra a mulher. Porém, séculos e geografias têm havido em que não é assim. Os homens adulteraram (sim!) o que ela ensina. Séculos de civilização judaica farisaica e grega.

Contra a tradição judaica, bateu-se Jesus. Entre os Gregos, é sabido que o bom Aristóteles questionava se a mulher teria alma; a ela estava reservado o papel de parir filhos e viver no gineceu, enquanto o marido exercia cidadania e procurava satisfação com prostitutas e jovens adolescentes do mesmo sexo. Os dois milénios de civilização dita cristã não foram menos culpados: o homem, rei, nobre ou plebeu, frequentava bordéis e tinha amantes, gerava com gáudio filhos bastardos, enquanto a mulher sofria em casa a rejeição, o ser apenas uma entre as parceiras de cama do marido. Que o homem cometa adultério e vá às “putas”, é normal; que a mulher o faça, exige lapidação!

A Bíblia, em suma, nada tem a ver com isto. A Bíblia carece de ser interpretada e citada na transparência do que nela está escrito, não apenas de uma parte. Hermenêutica e rigor científico. A Bíblia foi usada – nos termos de Umberto Eco, a propósito do uso que fazemos de um texto, colocando nele os nossos juízos culturais e morais prévios de modo a extrair dela justificação para eles. O texto, cada texto, tem as suas regras próprias; do leitor modelo é requerido que jogue essas regras, nele dispostas pelo autor. Com efeito, ela tem sido o pretexto para muitas abominações praticadas pelo homem, desde guerras santas ao segregacionismo branco sobre os negros. No entanto, ela não é ouvida nem achada em nada disto. Bem pelo contrário: ela foi e continua a ser uma fonte de sabedoria.

Tivésseis dado à Bíblia a honra devida, tivéssei-la, pelo menos, lido e, lendo-a, entendido, poderíeis ter-vos permitido ser influenciados pelas suas palavras. Quão justas teriam sido, Meritíssimos juízes, as vossas sentenças (Provérbios 8:15-16) e quão justamente teríeis cumprido a missão que vos é cometida. Não o tendo feito, uma outra jurisdição pende sobre vós. Sim, a da Bíblia que levianamente usais (Isaías 1:17, 20): Defendei os oprimidos; se o não fizerdes, sereis devorados pela espada.

DEIXAI A BÍBLIA EM PAZ!

 

 

Nos 500 anos da Reforma, um ponto prévio sobre anti-semitismo

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João Tomás Parreira

 

O ponto prévio a que aludo em título, faz parte da minha certeza de que todos os evangélicos que neste ano de 2017 se vão debruçar em conferências, em colóquios, ou simples evocações em púlpito sobre o meio milénio da Reforma luterana, não esquecerão um simples facto.  Que a “história faz-se com textos”.  Foi o historiador Lucien Febvre que aduziu ao estudo da História esta fórmula. Acrescentando que “toda a história é escolha”.

As 95 Teses de Vitemberga, que hoje as nossas Igrejas Evangélicas recuperam, e os livros de Lutero “Do Cativeiro Babilónico da Igreja”, “O Pai Nosso” ou “Da Liberdade Cristã”, exempli gratia, são o caudal do grande rio luterano, que a História da Igreja após 1517 alimenta.

Mas é preciso também percebermos que nas margens desse rio há pontos de interrogação e zonas perigosas. É natural que assim seja, porque manter e bem Martinho Lutero como ícone do protestantismo, um ícone severo diga-se em abono da História, devemos em bom rigor histórico entender que existe uma historiografia por detrás do Monge, que nem por isso o torna, aos nossos olhos, menos Homem cristão. Não podemos por de parte a orteguiana (de Ortega Y Gasset) consideração de ao homem corresponder a sua circunstância.

Não tomemos um ar de espanto se dissermos que Lutero foi anti-semita e que influenciou o anti-semitismo católico na Alemanha e depois protestante a partir do Século XVI.  Ora o anti-semitismo poderia ter sido apenas uma corrente do pensamento cristão sobre as coisas do judaísmo, porém, o facto é que conduziu ao Holocausto no século XX. Culpa de Lutero? Claro que não, mas as suas palavras não terão deixado de pesar.

Martinho Lutero afirmou: “os judeus são para nós um pesado fardo, a calamidade do nosso ser, são uma praga no meio das nossas terras”, frases que foram já consideradas como um “massacre homilético” de 1543, “Sobre os Judeus e as Suas Mentiras”. “Possamos libertar-nos desta carga demoníaca insuportável- os Judeus!”

A virulência destas palavras de Lutero têm também cinco séculos, para sermos evangélicos intelectualmente honestos teremos de as não omitir hoje. Veremos se há coragem protestante nestas comemorações para abordar esta temática.
A própria Igreja Evangélica Luterana na América reconheceu, em 1994, “as diatribes anti-semitas de Lutero e os seus escritos contra os judeus” e expressou o seu profundo pesar.

 

 

Nem só de pão vive o homem, mas também

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Rui Miguel Duarte

 

Não aprecio particularmente pão branco. Nele, só gosto da parte menos branca, a côdea, e quanto mais morena melhor. Pélo-me por pão de outras cores: amarelo (broa de milho); o preto alemão; os vários pães de cereais franceses, e com figos e nozes. Tenho uma epifania com a broa de Avintes.

 

Acho sinceramente que quem gosta de pão branco tem um gene regressivo. Mas há um pão branco que me reconcilia com a cor e a espécie. Ele é a quintessência, a causa efficiens principalis de toda a panificação, o pão vivo e o maná. Com azeitonas, é outra epifania. Com marmelada ou queijo, proporciona uma experiência estética e sensorial mais perfeita e intensa do que uma sinfonia de Beethoven e é mais belo do que o coro dos cativos hebreus na Babilónia no Nabucco de Verdi. O pão acompanhando o vinho sobre a mesa da casa portuguesa de que fala a canção deve ser pão desse. Talvez o pão com que foi alimentado Elias pelos corvos e que Jesus e os seus discípulos comiam com peixe grelhado fosse um proto-pão desse. Os Antigos é que sabiam.

Comer um casqueiro alentejano deveria ser obrigatório para todos os mortais em todos os continentes e um ritual religioso a exigir mais devoção do que uma peregrinação.

Uma banal confissão, uma impressão sensorial e papilar, daquelas a que a maioria das mensagens publicadas no Facebook se reduz, gerou uma viagem. Uma viagem à degustação do pão. Gosto de pão, embora nem todos os tipos de pão colham as minhas preferências. E é verdade: o texto acima transcrito dever ser lido autobiográfica, embora não psicologicamente. Restrinjam-se, pois, as abordagens a uma hermenêutica que não deve passar de gustativa: gosto de pão e sou comedor de pão. Ponto.

Apresentem-me um pão acabado de sair do forno, estaladiço, do dia. Num restaurante, as esperas pela refeição são distraídas com pão, acompanhado das inevitáveis azeitonas, manteiga, paté ou queijo.

Tenho a certeza de que muitos — senão a maioria — dos leitores me entenderão. Entre tantas variedades de bases, acréscimos, cores, formas e — sobretudo — aromas, estou certo de que há sempre um tipo de pão preferido de cada um.

O pão pão, e o pão que provém das palavras. Neste gosto de textos viajaremos ao mundo do pão. Não tanto do pão que se come — sobre esse, quanto melhor é comê-lo do que falar dele; e enquanto se come não se fala. O pão como ícone, metonímia, como signo linguístico, cultural, literário e civilizacional. Viajaremos por civilizações, culturas, o pão de provérbios e ditados populares, o pão constante desde a Antiguidade até hoje. Asmo ou fermentado, o pão será sempre o pão. E na nossa casa há pão.

No acesso aos textos antigos, os a Bíblia, dos Clássicos gregos e latinos e de outras origens, procederei como se quer de um filólogo, fornecendo os textos nas línguas originais e traduções de minha lavra. Nos casos, porém, da existência de traduções em português, é destas traduções que citarei. Apresentar trabalho próprio, quando há trabalho alheio de reconhecida qualidade e por mãos competentes, não só seria, por assim dizer, um delito de lesa filologia como desonra científica a quem referência e honra merece. E este livro reclama-se de um duplo carácter, científico e de divulgação.

Venha o pão e vinho.

 

Fonte: Jornal Online Tornado.

A heresia do desamor

 

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José Brissos-Lino

 

Um grupo de 79 signatários, dentre os quais não constam cardeais, bispos, teólogos ou figuras de maior expressão no catolicismo, entendeu dirigir ao Papa e ao mundo uma correcção (“Correctio filialis de haeresibus propagatis”), através dum documento tornado público, onde acusam insistentemente o papa Francisco de espalhar heresias na fé católica. Baseiam-se em particular na exortação apostólica “Amoris Laetitia” (A Alegria do Amor), e em geral em “outras palavras, actos e omissões de Sua Santidade.”

Simples leigos ousam “corrigir” assim o papa, acusando-o de heresia, e explicando que quem o faz “peca mortalmente e perde a vida eterna”. Estes leigos sabem que têm as costas quentes pela ala mais conservadora do Vaticano, havendo entre eles sedevaticanistas (que consideram que a Igreja não tem Papa desde Pio XII), membros da TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica brasileira de extrema-direita, que apoiou a ditadura militar e as prisões, torturas e mortes de opositores ao regime, e um inimigo feroz das investigações contra os milhares de casos de abuso de menores na Austrália. O banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi é o líder do manifesto

O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, e o ataque a Lutero e ao ecumenismo.

Embora reconheçam a necessidade de obedecer aos superiores, todavia reclamam o direito de “serem governados de acordo com a lei.” Não se importam de utilizar o episódio em que Paulo confronta Pedro (Gálatas 2), para daí concluir, pela mão de textos de Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona e do próprio Código de Direito Canónico, que estão à vontade.

Esquecem-se, porém, que a repreensão paulina nada tem que ver com matéria de fé e doutrina, mas de comportamento dúplice, face a judeus e gentios. E esquecem-se, sobretudo, que Pedro não era superior de Paulo, sendo que ambos eram apóstolos e não existia hierarquia na igreja do I século, apenas uma autoridade apostólica comum a ambos.

Além disso Paulo não considerou Pedro herético, ao contrário do que os subscritores afirmam repetidamente sobre Francisco, ao longo de todo o documento.

Os autores afirmam adesão sincera à doutrina da infalibilidade papal, mas depois desvalorizam-na por completo ao admitir que, afinal, ela não é para levar a sério, a não ser quando o papa é da sua linha doutrinário-conservadora, segundo se entende. Acto contínuo, chegam ao ponto de questionar a “validade da renúncia” de Bento XVI ao pontificado, sugerindo que Francisco ocupará ilegitimamente a cadeira do Vaticano…

Como se isto não bastasse, os subscritores passam a acenar com dois fantasmas, aos quais tentam colar Francisco. O primeiro é o Modernismo e o segundo os ensinamentos de Lutero. Deste modo se desmascaram por completo nas suas intenções e filiações.

Francisco é um crítico severo dos abusos do sistema capitalista, que já classificou como “ditadura subtil”, e pouco “amigo” dos bancos: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto.” Já o banqueiro arvorado em líder e porta-voz dos conservadores rebelados acha o capitalismo uma coisa quase divina.

Investigado pela justiça italiana em 2007, o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi – sempre identificado pela imprensa católica conservadora como “economista” – é amigo do homem forte do papado de Ratzinger, o todo-poderoso cardeal Tarcísio Bertone que está envolvido num escândalo de desvio de dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, do Vaticano, para obras no seu apartamento de luxo. Bertone nomeou então Gotti para gestor das finanças da Cidade do Vaticano. Em 2009 foi nomeado por Bento XVI presidente do IOR, o Banco do Vaticano, mas passado um ano foi acusado pela Procuradoria de Roma de violações às normas contra a lavagem de dinheiro nas instituições financeiras, e em 2012 foi afastado do Banco.

Richard Gaillardetz, teólogo do Boston College e ex-presidente da Associação Católica Teológica dos EUA afirma, porém, que os signatários “são figuras marginais” na Igreja e “devem ser reconhecidos como vozes extremistas e automarginalizadas”.

Os signatários atacam Francisco, mas o seu objectivo final é fazer parar a opção da igreja católica pelos pobres e frágeis e revogar o Vaticano II, advogando a restauração do Concílio de Trento (1545-1563), que marcou o rompimento da Igreja com a Modernidade nascente e significou uma declaração de guerra à Reforma Protestante.

Como escreveu Inês Cardoso no Jornal de Notícias: “O que está em confronto, nas posições que agora se manifestam publicamente, não é apenas a conceção do sacramento do matrimónio ou um princípio teológico. É toda uma visão das relações humanas que ao longo dos séculos colocou completamente a tónica na culpa, relegando para plano muito secundário o perdão e o acolhimento.

Mergulhando na Bíblia, Jesus Cristo é alguém que se senta à mesa dos pecadores, perdoa o cobrador de impostos que enriqueceu por vias tortuosas, arranca a mulher adúltera à pena de morte e está sempre, sem exceção, do lado dos fracos. Historicamente, a Igreja fez demasiadas vezes o inverso. E com isso contagiou uma forma de ser que se foca social e culturalmente no apontar de dedo às diferenças, e menos do que devia no respeito pelo outro. As religiões influenciam inequivocamente o meio em que intervêm. É pena que a laicização nos leve a ignorar debates que acabam por nos tocar, mesmo que nem o notemos.”

 

 

Uma viagem com C. S. Lewis

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                                          © João Tomaz Parreira

 

O Narrador entrou numa fila extravagante para apanhar um autocarro, uma pequena multidão heteróclita esperava já o mesmo transporte. Essa paragem parecia ser o único lugar com vida de uma cidade deserta e sem beleza.

É o início do livro de C.S.Lewis cujo título original é “The Great Divorce” e na tradução em língua portuguesa “A Viagem”.

A passagem para o português, por Richard King e Lurdes Oliveira, usa  vocabulário e sintaxe cuidados, dialogia e harmonia entre as  frases, concordâncias irrepreensíveis, respeitando a semântica do autor, e como complemento útil, excelentes notas referenciais do editor. Reconheço desconhecer o original, mas a leitura desta tradução é, sem dúvida, uma reescrita.

Sem meios, de momento, para fazer comparatismo com a tradução brasileira (O Grande Abismo, da Editora Vida), o que posso aduzir é que a versão A Viagem fazia falta na nossa língua comum.

O editor, meu amigo de há muitos anos,  João Pedro Martins, do Desafio Miqueias,  e o ilustrador da capa, também meu amigo Natanael Gama, fizeram um trabalho excelente.

O grafismo da capa, estruturado numa “linguagem gráfica” de BD (banda desenhada), reflecte essa viagem, que metaforicamente parece ser nocturna,  isto é, com suficiente mistério e encantamento, como quando o dia nos dá os seus primeiros sinais envolto em neblinas.

Esta obra de Lewis é um contraponto, para não dizer confronto a uma outra, centenária, do poeta William Blake em que este faz um casamento entre o Céu e o Inferno. Assim, estando o leitor no domínio do que está para além de si e no diáfano espaço do celestial, dir-se-ia que a leitura de “A Viagem” se fará sempre com a predominância da sétima função da linguagem, para usar a expressão de Roman Jackobson, a linguagem mágica e encantatória.

De resto, como sabemos, desde As Crónicas de Nardia, C.S.Lewis sempre a utilizou nas suas alegorias.

O livro que comecei a ler não foge a esta “regra”, que em Lewis é um estilo irrefragável. É uma metáfora, é uma grande fábula,  e se quisermos dizer de outra maneira, mais “bíblica”, é tipológico. Dir-se-ia que parece, no âmbito das intertextualidades, o Huis Clos (À Porta Fechada) de Jean-Paul Sartre,  mas com uma multidão de protagonistas.

Do ponto de vista literário, que deve ser sempre aquele pelo qual abordamos a obra de Lewis, temos pela frente literatura do fantástico, que antecipou, de certa maneira com conteúdo teológico-cristão,  a literatura sul-americana de Gabriel Garcia Marquez a Julio Cortázar. E séculos antes do autor de “Crónicas de Nardia”, John Bunyan com “O Peregrino”.

Em “A Viagem”, Lewis reflecte sobre a temática que é da bagagem do Cristão: a concepção do Céu e do Inferno. A vida – vivências, circunstâncias, conflitos, concordâncias – para além da morte.

Ambos os lugares não se interpenetram, tão-pouco se equivalem, não devem equivaler-se porque são equidistantes na vida do Cristão.  Num “Study Guide” da obra, assinada pelo próprio autor, ao que suponho, lemos no início desse Guia de leitura que “não há um céu com um pouco de inferno”, nem o contrário.

O que existe entre ambos, é um abismo.

Percorrendo as páginas e tendo encontros com as personagens, temos a sensação de que nos deparamos com um texto, que é mais do que ficcional, é uma mitopeia, uma “mythopoeic fairy”, (conto de fadas ou mitopoema, para usar um neologismo traduzido do inglês).

É a imaginação a funcionar, tal como no clássico do século XVII de Bunyan, numa metalinguagem que se percebe ser (nas págs. 28 e 30) do âmbito do sobrenatural, melhor dito, do maravilhoso ou do domínio do extra-subjectivo. Como os filósofos, C.S.Lewis interpreta aqui a vida para além da morte de modo variado e, por vezes, iconograficamente, para transformar isso nas relações do quotidiano. Um dos referentes, a Morte, tem um código próprio, tal como o céu e o inferno na linguagem lewisiana para nos falar de A Viagem.

“- Prefiro morrer”- diz uma personagem (o Fantasma, que é uma mulher).

– Mas já morreste! Não adianta ignorar isso”- disse o interlocutor ( o Espírito).

É uma obra estruturada no onírico – no final (pág.150), percebe-se isso -, como O Peregrino baseado num sonho, com as personagens dramáticas inominadas, sejam o Inteligente, o Poeta Desgrenhado, o Grandalhão e o Baixinho, o Luminoso, o Fantasma Esquálido e o Fantasma Episcopal, o Espírito, como no romance de Bunyan são, por exemplo, o Cristão, o Obstinado e o Adaptável, etc.

Não é uma obra com citações bíblicas a propósito e a despropósito, como encontramos hoje em alguns livros “evangélicos” que usam as Sagradas Escrituras como pretexto para escrever um “best-seller” de auto-ajuda por detrás do texto sagrado.

É uma obra de induções, isto é, induz-nos ao pensamento bíblico e conduz-nos à teologia, repondo desde a época em que foi escrito, 1945, até hoje, a concepção perdida da existência do Inferno e do Céu e da viagem do Crente e do Ateu para esses lugares.

Não é uma obra apocalíptica, no sentido da escatologia.  O que é, de facto, é apenas um romance cujo locus é o após-a-morte, mas com diálogos como se fossem uma conversa entre as personagens em vida, e, no entanto, elas são dramatis personae que morreram e vivem já no plano da vida eterna.

No que concerne a aspectos teológicos sem mais, que são detectáveis,  Deus e Jesus Cristo, o Cristianismo e a Verdade perpassam neste livro na forma de diálogo ou nas chamadas discussões de sociedade teológica.

Há, porém, uma metáfora que, neste livro de CSL, é indubitavelmente da teologia por muito que o homem queira esquecer-se, o Inferno. Mesmo quando o narrador adoça o termo com uma, impressionante chamando-lhe “cidade sombria”, “cidade cinzenta”, com “a sua contínua esperança de alvorecer.”

A linguista búlgara Julia Kristeva escreveu que “a presença da linguagem é sensível nas páginas da Bíblia”, uso esta frase a propósito de A Viagem para dizer o contrário, que a presença da Bíblia confere sensibilidade à linguagem desta e das demais obras de C.S.Lewis.     

 

A “Revolta de Nika”

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Paulo Mendes Pinto

Os verdadeiros desportistas, têm de afirmar altíssimo que o seu corpo, as suas capacidades, a sua luta pela superação não podem ser mais o campo para a afirmação animalesca daqueles que nunca souberam o que é o desporto

Foi memorável a minha primeira visita a Istambul. Os monumentos, todo um património único, a envolvente, a sociedade turca. Mas o que mais me marcou foi a conversa que no final da visita à Basílica de Santa Sofia tive com o guia local que me acompanhou.

O ponto de partida foi simples: quando ele me diz que a actual basílica, com quase mil e quinhentos anos de idade, não era a original, que a anterior tinha sido destruída por um incêndio; questionei se se sabia da razão. E foi aí que se abriu todo um dossier de uma imensa actualidade.

Num país também tão afectado hoje em dia com os actos nada civilizados de muitos dos que vão aos eventos desportivos, o dito guia atirou, como quem arremessa algo muito pesado, a simples frase: “A Santa Sofia foi destruída num confronto de claques desportivas”. Na altura ele contou-me um pouco da sua versão, uma versão talvez pouco rigorosa a nível histórico, mas muito sentida. Regressado a Portugal, fui tentar saber um pouco mais desse terrível evento, no qual me custava a acreditar e que, ironicamente, tinha destruído a “Santa Sabedoria”, levando o seu nome à letra.

Enfim, como em tudo, muito se pode enquadrar em termos de contexto, em termos de toda uma situação social, no fundo, de um clima de revolta latente. Mas, como causa próxima, sim, foi um grande incidente entre claques, perante a atribuição da vitória a um cavalo e não a outro, que levou a uma rebelião que incendiou parte da cidade antiga de Constantinopla, e que terminou com um banho de sangue onde terão morrido mais de 30.000 pessoas.

Hoje, longe das corridas de cavalos da Antiguidade, muito mais longe das lutas de gladiadores, parece pouco termos aprendido nestes quase dois milénios que medeiam entre nós e os acontecimentos de Constantinopla no ano de 532.

Mais uma vez, os nomes trazem-nos ironia: o nome da dita revolta, «Revolta de Nika», quer dizer “revolta da vitória”, como se fosse essa busca sôfrega de vencer o mal do desporto quando não se consegue viver a disputa pela disputa.

Mas foi por achar que o desporto é uma ferramenta excepcional para transmitir valores, que aceitei ser Embaixador do Plano Nacional para a Ética no Desporto – do IPDJ. E é pela actual situação de constantes atropelos de uma ética-mínima que tenho de elevar a voz e dizer o quanto me envergonha aquilo a que hoje teimamos em chamar desporto, mas nada dessa noção tem.

Os agentes, todos eles, têm de olhar para o que se está a passar e têm de mostrar à “república”, ao comum que somos, que repudiam este estado de coisas afastando-se da voragem de dezenas de horas semanais de instigação ao confronto em comentários televisivos perfeitamente alienadores e vazios. Os dirigentes têm de ter consciência do mal que estão a fazer à sociedade como exemplo, quando instigam e quando possibilitam que claques estejam num constante ponto de ruptura com o fair-play e muito próximo da violência, quando não da própria ilegalidade e da criminalidade.

Mas, por fim, os verdadeiros desportistas, têm de afirmar altíssimo que o seu corpo, as suas capacidades, a sua luta pela superação, aquilo que é o desporto, não podem ser mais o campo para a afirmação animalesca daqueles que nunca souberam o que é o desporto, tendo apenas feito carreiras no mais vil caciquismo, na mais baixa imposição do medo, no mais repugnante domínio das hostes pelo cortar das consciências.

Hoje, após semanas em que vimos árbitros a serem agredidos em pleno jogo, quando ouvimos alguns dirigentes com discursos inflamados que apenas fomentam a luta e o ódio, quando vemos claques a cantar músicas que desejam a morte….

Muito está mal. Urge olhar para a Constantinopla do ano 532, para ver novamente a Hagia Sophia a arder, e perceber que quem está a arder somos nós enquanto sociedade, na nossa incapacidade de tornar o desporto em algo de superior e sublime.

Como cidadão, tenho vergonha.

Estamos tão longe do desporto!….

NOTA: o autor é Embaixador do Plano Nacional para a Ética no Desporto – do IPDJ

 

Fonte: Público.