O princípio da noite da traição – perspectivas

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                      © João Tomaz Parreira

 

Da nomeação à representação icónica do traidor e da aceitação por parte deste de trair Cristo, os Evangelistas são comedidos em revelar explicitamente o nome de Judas. Só o Evangelho de Mateus, em discurso directo, nos informa que Jesus disse ao próprio que era ele, Judas, que o trairia, porque este lhe perguntou. “Porventura sou eu, Rabi?”, “ Tu o disseste.” – respondeu Jesus Cristo.

E cremos por todos os contextos dos sinópticos e do impar Evangelho joanino, que nenhum dos outros onze discípulos soube clara e explicitamente quem seria o traidor. É, todavia, João quem revela o mistério a João.

Visto de longe, isto é, perspectivando este acto dito fundacional que levou Jesus Cristo historicamente ao Calvário, baseando-nos nos quatro Evangelhos, permitimo-nos pensar o que estava a ocorrer naquele momento, psicológica e fisicamente, com palavras e olhares. Uma comoção, diríamos uma perturbação da alma colectiva que entristeceu o Cenáculo como uma preparação para a Morte.

Jesus Cristo quis muito aquela última Ceia com os discípulos. “ Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” – confidenciou-lhes o Mestre. A hora em si mesma já estava trespassada de tristeza. Comer sozinho seria experimentar ou sofrer uma solidão peculiar. A partilha de comida e bebida, por outro lado, chegava até ao mais íntimo da condição sócio-cultural daqueles dias.

O filósofo e crítico literário George Steiner (Paris, 1929-), a este propósito escreveu um célebre ensaio denominado “As duas Ceias” (Two Suppers), no qual compara a Última Ceia dos Evangelhos e “O Banquete” de Platão” sob a égide do Amor Ágape, que, segundo ele, está no conteúdo de ambas.

Aquele filósofo parece privilegiar na Última Ceia o que poderia ter sido Alegria e foi Tristeza, do ponto de vista humano, e não foi só por causa do anúncio do Mestre sobre “alguém” dos doze que o iria trair. Foi também pela Sua solidão, não obstante estar acompanhado. Na obra “O Leitor” narra uma parábola: numa remota vila da Polónia havia uma pequena sinagoga. Uma certa noite enquanto fazia a sua ronda, o Rabi entrou e viu Deus sentado a um canto escuro. Caiu por terra e gritou: “Senhor Deus o que fazes aqui?” O Senhor respondeu-lhe não com voz de trovão, nem num turbilhão de vento, mas com uma voz suave: “Estou cansado, Rabi, estou cansado até à morte”.

Do mesmo modo, aquela Última Ceia antecipava já a tristeza até à morte de Jesus no Getsémani.

Um de vós me há-de trair”

Há uma questão simples que carece de respostas há dois milénios, para podermos entender o ambiente do Cenáculo.

Na arte pictórica interpretativa do momento do anúncio da traição, Leonardo da Vinci pôs ao nosso dispor a surpresa e a tristeza dos apóstolos, no mural “A Última Ceia”, sobretudo o choque que o rosto de Judas reflecte. Mas isso foi na Arte, na realidade andou por estes caminhos do espanto?

Partindo da chamada “harmonia dos Evangelhos”, da JFA revista e corrigida, percebemos que sim, mas pergunta-se:

1.Jesus falou em voz alta?

2. Só os que estavam perto de Jesus ouviram?

3. Ouviram o nome ou discerniram quem era o traidor?

4. Viram todos a quem Jesus deu o bocado de pão ensopado?

5. Todos tomaram atenção à saída de Judas depois disso?

Ficam as questões.

As respostas estão obviamente nos quatro Evangelhos, mas o mistério também. Mas é o chamado Evangelho Teológico, como era conhecido o de João logo nos inícios da era cristã, que reproduz toda a factualidade e o cerne psicológico da particularidade da ocasião.

Mateus e João desenvolvem na sua diegese o conflito interior pelo qual passaram os Doze. Ao descreverem esse conflito fazem com que o leitor o sinta, mesmo sem o auxílio, por exemplo, do melhor retrato já referido que é, sem dúvida, a tela de Leonardo da Vinci. Acerca desta pintura escreveu alguém que a mesma “não é tanto uma excelsa obra de arte. É igualmente uma minuciosa representação da resposta dos Doze às palavras de Jesus: “Um de vós me há-de trair”.

À luz da historiografia bíblica de hoje, dir-se-ia, com um pouco de exagero, que o acontecimento poderá levar-nos à política religiosa judaica de então e, assim, à religião, estando ambas em conflito. A traição e a necessidade de que assim começasse a acontecer profeticamente para a nossa Salvação.

 E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos.” (Zac XIII, 6)

E não só os cravos perfuraram as mãos do Filho de Deus, mas também a traição do amigo que lhe feriu a alma. Nunca se é traído senão pelos seus, costuma-se dizer. Quem sabe se não foi pela traição no Hamlet de Shakespeare que o dito se generalizou.

Bendita esperança

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© José Brissos-Lino

 

A palavra esperança vem do termo latino spes (verbo esperar: sperare). Significa: “espera aberta; que não versa sobre resultados externos (como a expectativa), mas sobre a realização do ser pessoal (ou sobre uma mudança radical da condição humana)” (1). De uma maneira genérica pode abranger “toda a tendência para um bem futuro e possível, mas incerto” (2).

Portanto, será mais do que expectativa, confiança, ou a capacidade de aguardar algo de bom que ainda não chegou, ou até mesmo mais do que uma disposição do espírito que induz a esperar aquilo que se virá a realizar ou suceder. Deduz-se que se fala de esperar por algo positivo, “um bem” (3). Segundo Leonardo Boff, a esperança “é principalmente futuro. É projeto, prospecção, distensão para o amanhã” (4).

A esperança apresenta-se portanto como um conceito dinâmico, qualquer coisa animada por uma natureza propulsora. Note-se que a esperança cristã constitui um conceito teológico, diferente da esperança comum, por assim dizer. Perante a revelação de Deus na história o Seu povo caminha fortalecido para o futuro, à semelhança dos hebreus no deserto, a caminho da Terra Prometida, sempre em movimento.

Deus de esperança

Em termos bíblicos, o Novo Testamento apresenta Deus como “o Deus de esperança”:

“Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo” (Romanos 15:13).

Deus não precisa de ter esperança, Ele mesmo, pois é o Eterno Incriado, o Alfa e o Ómega, tudo sabe, tudo conhece, mas é Aquele que suscita em nós essa tal disposição de espírito ou realização pessoal ou projecto, através do poder (virtude) do Espírito Santo. Mais. O propósito divino é que vivamos em esperança, de forma abundante. O apóstolo Paulo, conhecido como o primeiro teólogo da esperança, explicava aos cristãos de Roma que seria justamente a esperança vinda de cima que os encheria de “gozo (alegria) e paz” numa atitude de fé. Estas palavras podem ter sido motivadas devido às conhecidas perseguições aos cristãos na sede do império romano, assim como à intensa pressão idolátrica que sofriam.

Logo, a esperança que é proposta a todo o cristão não depende das circunstâncias do momento, sejam elas ambientais ou psico-emocionais. Pelo contrário, ela é dom de Deus e caracteriza-se como uma espécie de alegria funcional que se destina a encher os justos (filhos de Deus) até acima, tal como se enche totalmente um recipiente de água até transbordar: 

“A esperança dos justos é alegria, mas a expectação dos perversos perecerá” (Provérbios 10:28).

Mas a esperança cristã é também parceira da fé, da qual é impossível ser dissociada, pois é esta que nos permite manter viva aquela:

“Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça” (Gálatas 5:5).

Fé e esperança

Quem não preserva uma atitude de fé dificilmente terá esperança. O passageiro dirige-se à paragem do autocarro porque faz fé do horário estabelecido pela respectiva empresa de transportes colectivos. Aí chegado espera (tem esperança) de que o seu autocarro chegue, ainda que não o possa ver.

O Deus do Antigo Testamento revelava-se mesmo como fonte de esperança que brota durante toda a vida terrena do justo: 

Pois tu és a minha esperança, Senhor DEUS; tu és a minha confiança desde a minha mocidade” (Salmo 71:5).

O salmista parece considerar aqui a esperança como réstia de salvação, como luz no fundo do túnel, como bordão de arrimo nas duras veredas da vida, mas não se entende ainda o mecanismo da esperança, que vem a ser explicado mais tarde por S. Paulo, já nos escritos neotestamentários, no âmbito duma revelação progressiva.

A Esperança não é uma coisa invisível ou indefinida. Pode e deve poder ver-se:

“Onde, pois, estaria agora a minha esperança? Sim, a minha esperança, quem a poderá ver?” (Job 17:15).

Ou seja, a esperança do crente revela-se pelo seu testemunho e praxis, o que inclui pensamentos, palavras e atitudes. Se eu acredito que o autocarro está prestes a chegar à paragem não desisto, não me vou embora mesmo que se atrase um pouco.

Note-se que o pecador também tem esperança, só que a mesma não vai além da sua existência na terra:

“Morrendo o homem perverso perece sua esperança, e acaba-se a expectação de riquezas” (Provérbios 11:7).

Simone de Beauvoir achava “horrível assistir à agonia de uma esperança.” Mas também disse, por outro lado, que “em todas as lágrimas há uma esperança.” Ou seja, é triste perder a esperança. Mas a esperança cristã não se perde, renova-se porque está sempre associada à fé. A esperança cristã não se conforma aos limites existenciais ou quaisquer outros, porque provém do Criador, Aquele que do nada fez o universo (barah) chamando-o à existência pela palavra do seu poder. Até porque esta estirpe de esperança não é selectiva mas inclusiva, está ao alcance de todos, independentemente da sua condição social, até dos mais pobres e excluídos da sociedade:

“Assim há esperança para o pobre; e a iniquidade tapa a sua boca” (Job 5:16.

Cale-se a iniquidade fale a esperança. Fale porque está umbilicalmente ligada às palavras que proferimos. Ela deve ser confessada porque a confissão da fé tem a capacidade de não apenas manter viva a esperança, mas até de a transformar em realidade:

“Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23).

Uma disposição pró-activa e objectiva

Na sua essência a esperança cristã, longe ser um simples sentimento volátil ou indefinido, é sobretudo uma disposição pró-activa e objectiva. Ésquilo dizia que é a esperança que nos transporta até à meta. Mas, acima de tudo, a esperança cristã é um processo de construção que passa por várias fases, como depreendemos nos escritos paulinos:

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:1-5).

A fé é o princípio de todas as coisas no reino de Deus. Depois vem a tarefa da construção da Esperança, a qual, paradoxalmente, começa pela tribulação. É no meio das lutas, dificuldades de percurso, aflições e adversidade que é temperada a paciência ou longanimidade (“ânimo longo”). Dessa paciência resulta uma experiência, e vem a ser essa experiência que dá à luz a esperança. Essa esperança não é filha do acaso ou da inspiração do momento, mas da experiência de fé que resulta da paciência, que entretanto foi desenvolvida a partir da adversidade quotidiana.

A esperança cristã não é produto de mentalização, de algum tipo de indução ou técnicas de auto-ajuda de aparência cristã, antes radicando no terreno da luta pessoal e espiritual. E de facto, só uma experiência pessoal crítica poderia criar esta disposição pró-activa e objectiva a que chamamos esperança cristã.

Pablo Neruda inquiria: “Sofre mais aquele que sempre espera do que aquele que nunca esperou nada?” Mas a esperança a que o poeta chileno se referia não era a esperança cristã, pois esta sabe que espera com confiança. Nunca se trata duma espera inglória ou inútil. Um neófito terá fé mas dificilmente revela esperança. Não teve tempo para desenvolver no seu carácter cristão a tal experiência de que a esperança é feita. A sua fé ainda terá que passar pelo teste, terá que ser provada, para poder ser comprovada.

Tendo esperança já não há lugar à confusão, porque o teste da fé nos fez experimentar e tomar consciência espiritual do amor que Deus nos tem. Talvez por isso o apóstolo classifique a Esperança como uma das três grandes virtudes teologais, em conjunto com a fé e o amor:

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (i Coríntios 13:13).

De acordo com a experiência pessoal de Job, é a esperança por sua vez que alimenta a fé, como num sistema de vasos comunicantes:

“E terás confiança, porque haverá esperança; olharás em volta e repousarás seguro” (Job 11:18).

A esperança como arma poderosa

Em 1969 Nelson Mandela enviou uma carta de encorajamento à mulher, desde a prisão, na qual afirmava que a esperança é “uma arma poderosa e nenhum poder no mundo pode privar-te dela.” Era importante resistir à iniquidade do regime do aparthaid, mas isso só seria possível se a esperança – essa “arma poderosa” – fosse mantida viva, até porque não dependia do governo ou de qualquer outro poder.

Uma das fotos icónicas do líder sul-africano é aquela em que ele olha pela janela, com um olhar sereno e esperançoso, na cadeia de Robben Island. Faz lembrar C. H. Spurgeon quando dizia que “a fé sobe pelas escadas que o amor construiu, e olha pelas janelas que a esperança abriu.” A fé faz agir, mas a esperança faz sonhar acordado. Era assim que grandes pensadores da Antiguidade, como Aristóteles, viam a esperança, como “o sonho do homem acordado.”

A esperança cristã tem igualmente um carácter hamartológico, está ligada à nossa Salvação:

“Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?” (Romanos 8:24).

Talvez por isso o general De Gaulle achasse que “o fim da esperança é o começo da morte.” Mas a esperança cristã não fenece porque se inspira no binómio morte-ressurreição de Cristo. Por isso ela está intimamente associada à vida.

O carácter profético da esperança

Segundo uma carta da famosa Comunidade Taizé (2003/3), a esperança cristã, sendo qualquer coisa muito mais complexa do que uma simples expectativa positiva, não significa alienação, desejo, mas assume um carácter profético que interfere no estilo de vida do presente:

“A esperança bíblica e cristã não significa uma vida nas nuvens, o sonho de um mundo melhor. Não é uma simples projecção do que gostaríamos de ser ou de fazer. Leva-nos a ver as sementes deste mundo novo já presentes no dia de hoje, por causa da identidade do nosso Deus, por causa da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Esta esperança é ainda uma fonte de energia para viver de outra forma, para não seguir os valores de uma sociedade assente sobre o desejo de posse e de competição.”

A esperança dá-nos um novo olhar sobre o mundo, que procede da comunhão com o Cristo ressuscitado. Mas também nos impulsiona a um estilo de vida alinhado com os valores do Evangelho. Sobretudo, a esperança cristã opõe-se à filosofia deste mundo.

“A esperança cristã emerge como uma negação à tendência materializante de uma concepção cosmológica pessimista que tende limitar a transcendentalidade da vida aos ditames de um tempo pensado cronologicamente (início, meio e fim). O mundo da vida se nomotiza (ganha sentido) por meio dela (esperança cristã).” (Claudio Ivan de Oliveira).

Para o Papa Francisco (2013), a esperança cristã é uma “espera fervorosa”, mas que não se deixa limitar por uma atitude passiva ou inerte. Pelo contrário, é uma espera apaixonada pela “realização última e definitiva de um mistério, do mistério do amor de Deus”.

No fundo, como escreveu Adel Bestavros, esperança é “paciência consigo mesmo”. (5) A nossa grande dificuldade em viver a esperança cristã não provém das circunstâncias, da nossa estrutura emocional ou do mundo envolvente e muito menos de Deus, mas sim do nosso próprio interior, do nosso ser espiritual. Somos impacientes e inquietos demais para aprender a esperar em Deus, com toda a confiança.

E por vezes também temos dificuldade em compreender que a adversidade é o primeiro degrau para subir a escada que dá acesso à bendita esperança que Deus nos propõe como forma de vida.

 

(1) Russ, J. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994, p. 89.

(2) Cabral, R. (Dir.). Logos. Enciclopédia Luso-brasileira de filosofia. V 2. Lisboa/São Paulo: Verbo, 1990, p. 227.

(3) Cf. tb. ESPERAR. In: Lalande, A. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 326-327.

(4) Boff, L. Vida para além da morte. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 17.

(5) Cit. por Thomás Halík, Paciência com Deus. Prior Velho: ed. Paulinas, 2016, p. 5.

“Falar com Deus em castelhano”

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 © João Tomaz Parreira

Esta expressão “ falar com Deus em castelhano”, que nada tem de estranha, é de uns versos de Miguel Torga (1907-1995), dedicados num poema a Miguel de Unamuno (1864-1936), no livro “Poemas Ibéricos”.

Torga diz de Unamuno, poeta e filósofo espanhol em honra do qual tomou o nome Miguel no pseudónimo, que “ falava com Deus em castelhano/ Contava-lhe a patética agonia / Dum espírito católico, romano, / Dentro de um corpo quente de heresia”. Mas todos nós, de resto, falamos com Deus na nossa língua pátria.

Foi assim que o viu e sentiu os seus escritos, mas Miguel de Unamuno não foi “um corpo quente de heresia”, não foi de todo um herético, antes foi, por exemplo, um dos maiores leitores do Apóstolo Paulo, ainda que sob o prisma do sentimento trágico do Mundo.

E não foi assim que o apóstolo sentiu essa tragicidade, por exemplo, ao chegar a Atenas?

Também quando vislumbrou a tragédia espiritual que se podia estar a abater sobre os crentes cristãos da Galácia, conduzidos ao espartilho dos judaizantes? Da rejeição e troca do Evangelho da Graça de Cristo por “outro evangelho”?

O mesmo sentimento de quase desânimo quando se dirigiu à comunidade cristã de Corinto, considerando os crentes ainda “meninos”, carnais, e submetidos a uma disputa de “lideranças”?

Outrossim quando, com a sua transparência e honestidade, profundamente ética e cristã, reconheceu que miserável homem que era (Ro 7:24), que não fazia o bem que queria, mas o mal que não queria esse fazia, não é com certeza o retrato da tragédia do ser humano, do seu sentimento de incapacidade própria perante o Bem e o Mal por causa do Pecado e da Queda?

Paulo sentiu como poucos esse sentimento trágico da vida, por isso se propôs anunciar o Evangelho da Graça de Deus como algo vital, necessário, imprescindível, o poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crêr.

Do sentimento trágico da Vida

A obra mais notável deste humanista – daí com certeza Torga falar de heresia- que foi Unamuno, é esse Del sentimiento trágico de la vida, publicado em 1913, e na sua profundidade teológico-filosófica está repleto do corpus e do pensamento do autor das Cartas aos Romanos, aos Gálatas, etc.

Neste livro, trata o autor de El Cristo de Velásquez (poesia) acerca da vida dos homens e dos povos, designadamente o espanhol em período de convulsões e prestes a iniciar-se a hecatombe da Europa, traça-lhes o destino da tragédia, com o ímpeto agónico (de agonia, no sentido de luta) de um religioso preocupado com o Homem e da necessidade deste de Deus. “A este Dios cordial o vivo se llega, y se vuelve” ou “Crêr en Dios es, en primera instancia al menos, querer que le haya, anhelar la existência de Dios” – escreve o autor basco. Neste sentido também vai outra obra de 1924, A Agonia do Cristianismo.

Ao passarmos pelo índice da obra “Del sentimiento…” a dimensão das temáticas tratadas dá-nos desde logo a grandeza desse tratado, diria de Teologia, são 12 capítulos repletos de Deus e do Homem, do Apóstolo Paulo e da Fé.

Depois de ler o Apóstolo Paulo, a Carta aos Hebreus e Miguel de Unamuno, só posso concluir que a Fé (a “Pístis”, no grego, confiança) é, também, um binóculo que transporta para perto de nós o que não está claro e ainda está distante. A Fé já tem em si mesma a demonstração do que se não vê.

 

     

 

 

 

 

 

Do amor

 

 

 

 

 José Brissos-Lino

 

 

“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (1 João 4:16)

 

A teologia joanina é bastante enfática quando identifica a essência divina, o íntimo do Deus-Pai revelado nas Escrituras, com o princípio do Amor: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 João 4:8).

O Deus cristão não está preferencialmente identificado – do ponto de vista da sua essência – como Justiça, por exemplo, ao contrário do Deus Iavé, do Antigo Israel, ou como Verdade, ao contrário da proclamação de Jesus de Nazaré: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6).

A ênfase do amor como essência divina seria revolucionária à época, pois quanto à descoberta da verdade já os gnósticos a procuravam e supervalorizavam, embora enquanto conhecimento místico alcançado. E quanto à justiça, estaria entranhada na cultura judaica, através da lei de Moisés. O amor, sim, era um conceito inovador – um estágio avançado da revelação divina, que é progressiva, como se compreende – nas culturas do mundo antigo, invariavelmente estribadas na violência e não na misericórdia, na lei do mais forte e não na compaixão, e no princípio de Talião.

Se virmos com atenção, a autoapresentação do Cristo comportava já em si mesma todas estas vertentes. Quando declarou ser o Caminho estava a falar de justiça: “Guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (Salmo 23:3b). Isto é, pelas veredas da vontade divina, que é a verdadeira justiça de Deus.

Quando o Mestre afirmava ser a Verdade, estava a assumir ser a perfeita revelação do Pai: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hebreus 1:3). Mas também a segurança da imutabilidade: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Portanto, uma verdade eterna, que não muda.

Todavia, quando se afirma como Vida, no fundo fala de Amor. A Criação procedeu de um acto de amor: “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” (Isaías 64:4), “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19), e a vida humana normalmente é gerada da mesma forma, como fruto do amor de um homem e uma mulher.

Mas o princípio do amor levantava questões de difícil resolução. Era muito mais fácil uma pessoa guiar-se pela verdade ou pela justiça, do que pelo amor. Este era muito mais desafiador porque expõe a pessoa face ao outro, entregando voluntariamente ao outro a capacidade e a margem de manobra para o rejeitar a si mesmo. Pode-se dizer então que praticar o amor de Deus exige coragem.

O amor como dom

O amor de Deus não se vende nem se compra. É uma dádiva do céu, um dom divino. Não se encontra nas páginas dum código de justiça nem na descoberta duma verdade, por mais profunda que seja. Transcende a lei e o conhecimento. Funciona noutro plano.

O amor divino, enquanto dom, nunca é outorgado a um só indivíduo, para seu exclusivo benefício ou usufruto. Com a concessão do dom Deus pretende provocar uma reacção em cadeia, semelhante ao princípio da fusão nuclear, descoberta pelo homem no século passado mas inscrita no sol e nas grandes estrelas desde a Criação. O princípio da bomba atómica é justamente a reacção em cadeia de fusão nuclear. Cada acção vai provocando a próxima acção e assim sucessivamente.

A outorga do dom do amor pretende provocar este tipo reacção. Libertar amor gera mais amor. Uma pessoa que se sente amada tende a amar os que estão à sua volta.

O exercício do amor como mandamento

“E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5:5).

Jesus mandou aos seus discípulos que amassem o próximo. Não foi (nem é) um conselho, mas uma ordem. Só por aqui se pode comprovar que o “amor de Deus” (é desse tipo de amor que falamos) não é um sentimento, qualquer coisa volátil, flutuante, intermitente, nem tão pouco algo volitivo (dependente da vontade de cada um no momento). É um imperativo.

O amor-mandamento não se inscreve numa economia de trocas, não está dependente da atitude do outro ou da sua receptividade ou resposta à nossa abordagem.

Não está limitado pelo tipo de relações interpessoais que se desenvolvam com a pessoa em causa, por questões de empatia, simpatia ou identificação com o outro.

O amor-mandamento também não está condicionado aos méritos pessoais ou merecimento do outro.

Não tem que ver com o nosso estado psico-emocional pontual, de maior ou menor fragilidade, equilíbrio interno ou harmonia com o mundo envolvente.

Simplesmente, tem que ser. E, como diz o povo, o que tem que ser tem muita força. Mas porque razão tem que ser? É simples. O cristão é apenas um canal do amor divino derramado no seu coração. A recusa em amar o próximo, em todas as circunstâncias, não é mais do que a recusa em ser um instrumento nas mãos de Deus. Não se espera dum canal que obstrua o seu caudal, mas que o escoe. Não somos torneiras mas canais.

Se optarmos por obstruir este canal que somos, o caudal do amor cessa e o canal fica seco, ou seja, reduzido à morte espiritual. Portanto, a boa saúde e, em última análise, a vida espiritual do discípulo depende da sua capacidade de ser um canal, fiel na transmissão do amor divino para os outros, através da sua pessoa.

Quando se ouve um discípulo dizer que não é capaz de amar o próximo, significa que não está disponível para ser um canal do amor de Deus.

Assim, do ponto de vista teológico podemos dizer que o amor não é um sentimento, uma emoção ou produto da vontade humana, mas sim um produto do Espírito Santo que habita no crente. Segundo a Carta aos Romanos (5:5) o amor de Deus “está derramado” no íntimo do cristão, por operação do Espírito de Deus.

Mas está lá a fazer o quê? Para que efeito? Em parte para benefício e usufruto próprios, é certo. A consciência e percepção do amor de Deus (que Deus nos tem) é essencial para a “respiração” da fé pessoal do crente, muito em especial face a circunstâncias e vivências adversas. Mas não é tudo. Nem talvez o principal. O amor de Deus está lá para ser encaminhado para o irmão e o próximo, pois é essa a essência do Evangelho.

O cristão comprometido com Cristo e sua Igreja é um agente divino na terra, um discípulo, uma testemunha (marturia), um canal de bênção para os outros. O projecto de vida que Iavé reservou a Abraão foi, em última análise, que o patriarca se constituísse bênção para as nações: “E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção” (Gênesis 12:2). Espera-se que os cristãos, como descendência espiritual do patriarca aliançado com Deus, retomem o estabelecimento de tal propósito – ser uma bênção na vida dos outros.

O amor e a última ceia

Esta partilha do amor de Deus pode comparar-se, de certo modo, ao partir do pão na última ceia de Cristo. Esta ceia comunitária fala de partilha do dom que está presente. O pão, depois de abençoado, torna-se bênção divina para os que o tomarem. Neste episódio há três momentos importantes a reter: primeiro o Mestre tomou o pão.

O pão, nas mãos santas de Jesus já não é só pão, um mero alimento confecionado a partir de cereais. Agora é também um instrumento divino, tal como a ferramenta na mão do carpinteiro.

Depois abençoou-o, ou seja, tornou-o dom de Deus, revestido de um simbolismo único, mas também de uma eficácia distinta (para que não haja “fracos”, “doentes” e “adormecidos” na congregação”, v. 30).

Finalmente partiu-o e distribui-o aos presentes. Ou seja, o dom de Deus não pode deixar de ser partilhado com todos os presentes, isto é, todos aqueles que se apresentarem à mesa. Daí a exortação enfática “esperai uns pelos outros” (v33b).

Na cultura da fé cristã tudo fala de partilha, de bênção, de propósito e de compromisso com Deus e o semelhante.

Uma questão de natureza

O exercício desse amor-mandamento, projectado nas nossas relações interpessoais, é denominado pelo apóstolo Paulo como “fruto do Espírito”, dentre outras evidências da presença e influência divinas em nós, através de Jesus Cristo, nosso Mediador: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.” (Gálatas 5:22)

Mais. Jesus ensinou que seria pelos frutos que poderíamos conhecer a natureza do homem, da mesma forma como é pelo fruto que se identifica uma árvore: “Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?” (Mateus 7:16)

Pode alguém dizer que, se o amor é mandamento, então onde está a sua espontaneidade? E, por consequência, o seu valor? É aqui que entra a questão da natureza.

O homem “nascido da água e do espírito” (João 3:5) – condição sine qua non para entrar no reino de Deus – sofre uma mudança substantiva na sua natureza espiritual, na essência do seu ser. A teologia paulina da salvação afirma que o tal foi “vivificado com Cristo” (Efésios 2:5), pois antes estaria “morto em ofensas e pecados” (Efésios 2:1). A hamartologia mostra que a vida de Deus habita agora no convertido, através do Espírito Santo, e que as evidências da sua vida só podem ser as do Espírito que em si habita.

Apesar disso S. Paulo defende que persiste no crente uma luta latente e constante entre a “carne“ e o “espírito”, que pode fazer tropeçar e cair de forma recorrente o convertido, mas a marca distintiva da sua natureza será sempre a da “nova criatura”: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura” (Gálatas 6:15). 

O amor como entrega

O amor, portanto, é a marca distintiva mais decisiva na vida cristã. O apóstolo disse-o à comunidade cristã de Corinto de forma eloquente, na sua célebre definição do amor agape (I Coríntios 13), onde traça a natureza do amor de Deus como sendo essencialmente uma motivação e atitude de entrega ao outro sem condições.

Brunner (1889-1966), grande teólogo suíço do século XX, caracterizou a comunhão dos santos observada durante a igreja do primeiro século, como “um dar e receber recíproco”, retomando a fórmula de Lutero. (1)

Como não podia deixar de ser vamos encontrar o exemplo maior do dar e da entrega na vida de Jesus Cristo, nosso modelo e exemplo, “o qual se deu a si mesmo por nós” (Tito 2:14a), e, por amor, “se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:2).

O amor como marca distintiva

Jesus deixou bem claro qual era o selo do discipulado perante o mundo (oikoumene): “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35). Assim, o amor divino é o emblema, a marca, o distintivo do cristão comprometido com Cristo. Não há outro. Nem a doutrina, nem a tradição, nem a história, nem a confissão/denominação, nem a estrutura ou organização eclesial.

 

 

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  • Brunner, E. (2000). O Equívoco da Igreja. São Paulo: ed. Novo Século, p 68.

A figueira de Jericó

Microconto

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Capa de um opúsculo devocional da I.Metodista. Arte africana contemporânea, Peter Kasamba do Uganda ("Zaqueu, desce depressa")

 

 

As folhas verdes foram partindo pelas nervuras. Rangiam os ramos sob o meu peso como um aviso. Eu não tinha nenhum padrão de altura que achasse inacessível, só o facto de ser de pequena estatura. Por isso subi à árvore. Vistos lá de cima, os homens eram todos do mesmo tamanho.
-Que estás a fazer aí em cima? – foi uma voz de baixo, inqualificável, que ouvi, entre risos que mal disfarçavam o escárnio.
Mais tarde recordar-se-ia de tudo isso – disse-me passados muitos anos.

Zaqueu foi sempre um mau amigo e não andava nunca empenhado em auxiliar os outros.

Números apenas que concorriam para a sua riqueza, era o que pensava dos outros. E contribuintes.
Mas nesse dia aventurou-se a sair de casa e a meter-se no meio da multidão. Um publicano não era nobre na sua terra. Era rico. Os seus vestidos, bastante compridos e de bom linho, não estavam preparados para subir às árvores, emaranhavam-se nos ramos e ficavam sujos de pó. Ninguém estava a entender aquela atitude. Era por certo má vontade das pessoas de Jericó acerca de Zaqueu, porque afinal a multidão procurava a mesma coisa.

-É lamentável, subir a uma figueira! – e o murmúrio era quase inaudível.

É certo que a multidão estava agitada, mas mesmo assim podia-se escutar as críticas irónicas dos que estavam sob a árvore. – Se ele caísse, era bem feito – isto ouviu-se distintamente.Tiveram oportunidade para o insultar. Contudo, só lhe disseram que viria aí um profeta ou o messias e que ele era um pecador e um publicano e que se tivesse vergonha nem sequer estaria ali.

Mas Zaqueu não se importava com o que ia ouvindo, mostrava-se, isso sim, afoito. Nem uma vez se desequilibrou, nem sacudiu o pó das roupas. Via-se que era importante para ele estar ali.

-Zaqueu subiu àquela figueira brava e recusa-se terminantemente a descer- foram dizer aos serviços dos impostos e à sua própria casa, à esposa. Esta achou muito estranha a atitude do marido.

O rumor da novidade vinha dos lados da entrada da cidade. Há anos que aquela porta e aquelas pedras não eram cruzadas por alguém importante. Ouviam-se ao longe louvores, falava-se de que houvera um milagre. Um cego conhecido recuperara a visão. Lá para a entrada, ou no caminho, não se sabia ainda muito bem onde, houve um milagre.

Um milagre naqueles dias, de poeira e calor intenso nos caminhos, não importava o tempo que fizesse, fazia aglomerar muita gente. Estava ávida de qualquer coisa sobrenatural que viesse dos céus, essa gente não suportava já as asperezas da terra.

Tenha sido ou não um dos que O acompanhavam, uma dúzia de pessoas, vinte ou o vozeario inconfidente da multidão, a divulgar o nome, nunca se soube. Chamavam-lhe Jesus. Oriundo da Nazaré, era novo, tinha pouco mais de 30 anos, exibia um vigor de quem poderia viver até à velhice; alto e com uma tez escura, os seus olhos tinha a cor da bondade; as vestes estavam a meio caminho entre as de Salomão e a beleza dos lírios.

Os olhos de Zaqueu foram abrindo caminho entre a multidão, e do cimo da árvore não era difícil perceber quem seria Jesus, pois este distinguia-se pela maneira como a gente mais próxima o rodeava.

– Zaqueu – e o seu nome pronunciado por Jesus, desnudou-o, como se estivesse a descrever perante os mais próximos a necessidade de Zaqueu – desce depressa porque convém-me visitar-te hoje”.

-Eu?- pronunciou esse eu com o medo de estar a descobrir uma grande dúvida sobre si próprio. Desceu uns ramos e saltou contente e cheio de vigor para o chão.

Daí a muitos anos, muito tempo depois daquela Páscoa, Zaqueu, que já não poderia subir a nenhuma árvore, lembrava-se desse dia.

 

© J.T.Parreira

 

O aviário

 

José Brissos-Lino

 

A chamada Visão Celular, mais conhecida por G12, não passa de um aviário espiritual e vai completamente ao arrepio dos princípios bíblico-teológicos de discipulado.

Alguém saído do sistema – e bastante arrependido de lá ter estado durante cinco anos, apesar da sua comunidade de fé ter sido das que mais cresceram em termos numéricos – caracterizou a prática do falso profeta René Terra Nova, como sendo uma “esperta e poderosa estratégia de marketing” utilizada para transmitir as suas ideias e atrair a si especialmente pessoas de quatro tipos, a saber:

  • As pessoas carentes de uma figura forte (os simples que choram ao chamar-lhe “pai”).
  • Os líderes que desejam aprender o modelo para utilizar na restauração do seu ministério falido.
  • Os indivíduos que parasitam o sistema vivendo à sua custa.
  • Os “sadomasoquistas espirituais” que, apesar de tanta punição, sacrifício e submissão, adaptam-se ao modelo por gostarem de sofrer.

Roseleine Perez assegura que estes quatro tipos de pessoas representam a grande maioria dos convertidos a Terra Nova e ao G12.

O segredo

O arrependimento lúcido desta pessoa e a sua experiência no sistema permitiram-lhe finalmente compreender que há três principais molas propulsoras que fazem funcionar a engrenagem.

Desde logo uma lavagem cerebral, ou seja, um conjunto de técnicas que levam ao controle da mente e à doutrinação em massa. Em todas as etapas da chamada “Visão Celular” se podem observar mecanismos de indução, fortes estratégias de manipulação das emoções com vista a prejudicar discernimento espiritual, o julgamento e aumentar a promover a sugestibilidade: “Os métodos coercivos de convencimento, os treinamentos intensos e cansativos que minam a autonomia do indivíduo, os discursos inflamados, as músicas repetitivas e a oratória cuidadosamente persuasiva são recursos que hoje reconheço como técnicas de lavagem cerebral, onde há mudanças comportamentais gradativas e por vezes irreversíveis.” Um dos exemplos mais eloquentes desta prática é os chamados “Encontros”, onde se aposta na despersonalização da pessoa, proibindo-lhe os contactos com o mundo exterior, assim como qualquer partilha posterior com pessoas “de fora”, evitando assim o questionamento daquelas práticas.

Depois, há que ter em conta também a personalidade de Terra Nova, que umas vezes é duro e autoritário, mas outras engraçado, carismático e charmoso.

Mas também a encenação. Nas sessões para “receber legitimidade” como apóstolos de Terra Nova, as exigências são absurdas e a ostentação escandalosa: compra de “distintivos sacerdotais” caríssimos, hospedagem obrigatória num hotel de luxo predeterminado, luxuosos trajes de gala, e participação obrigatória num jantar caríssimo com Terra Nova e afins, após a cerimónia.

Finalmente, deve considerar-se a ganância do ser humano face às promessas de sucesso rápido e infalível. O conceito da “Visão Celular” é sedutor, encantador e mexe demasiado com o ego.

Como subcultura religiosa que é, o G12 desenraíza espiritualmente os fiéis, desde logo através da terminologia utilizada, por ser completamente nova, surgindo como uma espécie de novo dialecto para um tempo novo num contexto inovador, que não permite verificações por comparação:

Ganhar, consolidar, discipular, enviar, almas, células, famílias, Peniel, Iaweh Shamá, honra, conquista, ser modelo, unção apostólica, atos proféticos, mãe de multidões, pai de multidões, conquista da nação, mover celular, riquezas, nobreza, encontro, reencontro, encontros de níveis, resgatão, Israel, festas bíblicas, atos proféticos, congressos, redes, evento de colheita, prosperidade, recompensa, multidão, confronto, primeira geração dos 12, segunda geração dos 12, toque do shofar, cobertura espiritual, resultado, resultado, resultado, etc…

Resultados nefastos

Segundo o testemunho de Roseleine Perez, o sistema G12 provoca danos profundos naqueles que nele se envolvem, como os seguintes:

Perda do foco: “Quase perdi Jesus de vista!”.

Menosprezo da família: “Minha família ficou relegada ao que sobrava de mim.”

Abuso espiritual sobre a comunidade: “Fui responsável por manter minha comunidade de fé em regime escravo (apesar da embalagem maravilhosa), por ajudar a alimentar a ganância de muitos.”

Farisaísmo: “Colaborei com a neurotização da fé de muitos, devido à perseguição desenfreada em nome duma perfeição e santidade inalcançáveis.”

Burnout (esgotamento): “Fiquei neurótica e procurei ajuda psicológica devido a crises interiores inenarráveis, por ter desenvolvido síndrome de burnout, hoje sob controlo.”

Heresia: “Vendi a ideia da aliança incondicional do discípulo com o discipulador, afastando subtilmente as pessoas da dependência de Deus.”

Abuso espiritual sobre os fiéis em particular: “Invadi a vida de muitos a título de discipulado, cuidando até de quantas relações sexuais as discípulas tinham por semana, sem que isso causasse ofensa ou espanto.”

“Opinei sobre o que o discípulo deveria comprar ou não, tendo “direito” de vetar o que não achasse conveniente. A menor sombra de discordância por parte do discípulo era imediatamente reprimida, sem qualquer respeito. Quando isso acontecia os demais tomavam como exemplo e evitavam contrariar o líder.”

“Ouvi o testemunho duma discipuladora que, para confrontar e educar uma discípula, havia chegado à loucura de bater nela, para que a mesma parasse de falar em morrer. Esse é o argumento dos incapazes, dos que não conseguem levar cada triste, cada suicida ou deprimido às garras da graça de Cristo, mas que querem se fazer os solucionadores das misérias do povo.”

Deturpação da Palavra: “Aceitei que fosse tirada a Bíblia ao povo. Em vez de estudar assuntos que traziam crescimento tornámo-nos robôs numa linha de montagem, manipuláveis, dogmatizados.”

Espírito de competição: “Fomentei a disputa de poder entre os irmãos ignorando os sentimentos dos que iam ficando para trás.”

“Perdi amigos e sofri demasiado com tais perdas.”

Não há atalhos para o crescimento espiritual. O tempo é fundamental, assim como a experiência pessoal e a relação com Deus. O sistema massificador do G12 apela à falta de maturidade de fiéis e líderes, tirando partido das fraquezas e falta de maturidade, prometendo “galinha gorda por pouco dinheiro”.

Conclusão

O sistema celular, ou G12, não passa duma espécie de aviário espiritual onde se tentam criar discípulos à força e em grande velocidade, o que, como bem sabe quem tem experiência cristã e conhecimento da Palavra, não é possível, por ser contrário à natureza do próprio discipulado.

Um cristão não cresce espiritualmente através de truques como se faz com os frangos (rações e hormonas), mas sim com tempo e devoção a Deus, nem cresce através de aliança e submissão cega a qualquer líder (dono de aviário), mas sim com uma experiência de vida e relação pessoal com Cristo, em compromisso com Aquele que é o único Senhor. Até porque, como está escrito, um planta e outro rega (mas estes não são nada, note-se!), mas quem dá o crescimento é Deus:

“Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:7).

O sistema apoia-se numa praxis que se pode classificar como de abuso religioso, uma vez que exige submissão cega e acrítica ao líder, em todas as suas afirmações e desafios, sob pena de se ser considerado rebelde, mas apenas promove a burrice ou embrutecimento espiritual.

 

Veja aqui o testemunho da sobrevivente Roselaine Perez: 
http://www.genizahvirtual.com/2014/11/uma-sobrevivente-da-visao-celular-de.html

 

Olímpico, o corpo como medida de todas as coisas

Paulo Mendes Pinto

 

 

Na Grécia Antiga, o topo do monte Olímpo era o espaço mitológico que acolhia a geração dos chamados deuses olímpicos. Era uma geração centrada em Zeus, gerida por um grupo de irmãos que dividiram a soberania do mundo (Poseidon ficara com o domínio sobre os mares, Hades sobre o mundo dos mortos, e Zeus com os ares e a própria Terra).

Mas Olimpo era também o local onde tinham lugar os mais importantes festivais em honra do deus, mais propriamente, em Olímpia.

Quando pensamos nas heranças que vamos gerindo no nosso horizonte simbólico, uma das que ocupa um lugar de destaque é, naturalmente, o movimento olímpico.

Bastante diferentes do que eram na sua versão antiga, esses mesmos muito diferentes entre si ao longo do milénio que duraram, os Jogos Olímpicos não deixam de ser uma das maiores, senão a maior, das continuidades da humanidade.

Em muito diferem os actuais dos antigos jogos. Na Antiguidade, os atletas vencedores eram, de facto, heróis; Na Antiguidade os jogos implicavam uma trégua sagrada que, imagine-se, era respeitada; Por fim, na Antiguidade, não se competia por prémio algum, senão a honra (pelo menos durante os séculos iniciais).

Porque se competia em Olímpia? Porque se faziam tréguas efectivas antes de cada jogo? De facto, em Agosto, de 4 em 4 anos, saiam os arautos de Elide, a cidade-estado junto de Olímpia, em direcção a toda a helade. Proclamavam as tréguas sagradas e convocavam para os jogos.

A chave de compreensão deste fenómeno reside no facto de os participantes não concorrerem simplesmente entre si. Nos jogos em honra das divindades, as divindades também participavam: nenhum atleta ganhava se os deuses o não quisessem. Não é que os deuses fizessem com que os mais fracos ganhassem, mas quem ganhava era, sem sombra de dúvida, um herói no mais estrito sentido da palavra, era tocado pelos deuses.

Ora, quando se concebia que num evento estariam, no fundo, também os deuses a participar, porque os jogos eram em sua honra, eles lá estariam presentes para receber as suas homenagens. Nada, ninguém poderia faltar a essa chamada. Era mais importante do que faltar à guerra, virar costas aos inimigos, e ir a Olímpia aos jogos, tal como aconteceu nas guerras contra os Persas, e vir a ter os favores de Zeus em lutas futuras, do que perder esses favores divinos, passando para o lado dos incumpridores dos deveres para com os deuses.

Ir aos jogos era como que um dever para com o equilíbrio cósmico. Os deuses estavam à espera dos jogos. Todos queriam ver quem era o mais próximo dos deuses, o vencedor.

Esse, o que vencia, era tocado pelos deuses, era próximo dos deuses, erasacer, era victor. Nas suas cidades eram recebidos como heróis, em triunfo, em apoteose.

E eram recebidos em triunfo não simplesmente porque venceram, mas porque, vencendo dessa forma, nesse local, nesses jogos, traziam para a sua cidade, para os que estavam próximos de si, toda essa capacidade de superação. Em várias cidades os vencedores dos jogos eram obrigados a rituais religiosos que potenciavam essa proximidade com o divino a toda a comunidade.

Mas a potenciação era também em sentido contrário. É famosa a participação de Nero numa das edições do jogos: mesmo caindo várias vezes e não tendo chegado ao fim da prova, foi declarado vencedor da corrida de quadrigas.

*

Não se sabe ao certo quando começaram os jogos junto ao monte Olimpo. Pelas suas memórias, os gregos fizeram remontar esse início ao ano de 776 a.C., data a que fixaram um calendário pan-helénico.

Possivelmente, os jogos, tal como centenas de outros que tinham lugar ao longo dos anos, em muitas outras cidades, remontam a alguns séculos antes, eventualmente ao século XI a.C.

A Ilíada e a Odisseia mostram-nos algumas situações que podem ser imagem de modelos de festival de que os Jogos Olímpicos nasceram. Primeiro, no canto I, depois de o deus Apolo ter sido apaziguado, jovens tocam, declamam e dançam – será esta como que a matriz que se encontra nos Jogos Pítios, em Delfos, em honra desse deus? Depois, mais tarde na narrativa, após a morte do jovem amigo de Aquiles, Pátroclo, jogam-se desportos de competição em sua honra – estes são a matriz dos Jogos Olímpicos.

Esta matriz encerra um profundo significado religioso e estruturante da sociedade. Os jogos podem ser fúnebres, ou de acolhimento a um forasteiro, o máximo ponto da devida hospitalidade. Mais que de esforço físico em busca da superação e do transcendente, o dito transcendente que temos não é apenas o ir mais longe com as capacidades do corpo, mas sim o ir mais longe no Ser e na sua relação com dimensões que em nada se esgotam no corpóreo.

Na Odisseia, encontramos uma situação muito interessante – não pela descrição, em si, dos jogos, mas pelos valores que lhe são associados (Canto VIII, vv 100-173):

 

Agora saímos lá para fora para celebrarmos os jogos

Atléticos, para que o estrangeiro conte depois aos amigos,

Quando chegar a casa, como nós somos excelentes

No pugilato, na luta, nos saltos e nas corridas”.

[…]

“Agora vem tu também, ó pai estrangeiro, experimentar

Qualquer contenda atlética, se porventura sabes alguma.

Para mim tens aspecto de atleta. Na vida não há maior glória

Para o homem do que os feitos alcançados peplos pés e pelos braços.

Experimenta pois qualquer coisa, e afasta as dores do espírito!”

[…]

Mas afinal é verdade que nem a todos os homens os deuses

Concederam os dons da beleza, compreensão e eloquência.

Pois ao homem que é inferior no aspecto físico,

Beleza dão os deuses às suas palavras, de forma que outros

O contemplam com prazer, porque fala sem hesitação,

Com doçura e pudor; e assim é preeminente entre o povo

Reunido, e na cidade todos o fitam como se fosse um deus.

(Seguimos a tradução de Frederico Lourenço, Lisboa, Cotovia, 2003.)

 

Aqui, pela boca de Ulisses, vemos a tensão existente entre o belo e bom, a capacidade física e a capacidade intelectual. Ulisses, nos versos seguintes, afirmará a sua capacidade física, mas antes, com esta afirmação que aqui se transcreve, afirma a intelectual, aquela que na vida da cidade mais importa.

A polis deveria viver numa tremenda encruzilhada de valores e significados nos séculos VIII e VII quando nascem os Jogos em Olímpia e quando escrevem Homero e Hesíodo. Uma das encruzilhadas residia exactamente no corpo e em tudo o que dele advinha, especialmente a noção de herói. De resto, esta tensão teria nascido da revolução militar que se operara na passagem para a Idade do Ferro, em que o guerreiro isolado da Idade do Bronze é posto de parte em face da eficácia do trabalho de equipa do “cidadão-soldado”, do hoplita, da nascente cidade-estado.

Mas esta questão da heroicidade que, inevitavelmente nos deixa perante a pergunta: “o que fazer com o corpo bem dotado?”, leva-nos para um patamar importantíssimo de História das Mentalidades, um núcleo de pensamento que nos faz enveredar pelo pensamento teológico.

Não muito depois destes autores, no final do século VI, Xenófanes questiona a natureza dos deuses, partindo exactamente da centralidade do corpo humano. Para este filósofo pré-socrático, os deuses nunca poderão ter forma humana como normalmente se representa. A sua transcendência reside, exactamente nisso mesmo, em não ser, de certeza, como os homens. Alguns dos seus fragmentos são bastante elucidativos:

Fr. 15
Mas se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos
ou se fossem capazes como os homens de pintar obras com as mãos,
os cavalos como os cavalos, os bois como os bois
pintariam o aspecto dos deuses, e fariam o corpo deles
tal qual cada um deles o tem.

Fr. 34
E ninguém portanto conhece ou conhecerá jamais
a verdade sobre os deuses e todas as coisas de que falo; (…)

Fr. 23
Um deus, o maior entre os deuses e os homens,
que em nada se assemelha aos mortais, nem no corpo nem na mente.

 

O corpo, era até aqui, de forma inquestionável, “a medida de todas as coisas” como diria um século depois Protágoras. Contudo, na sua relação com o divino, o corpo ganhava novas formas de diálogo na sociedade.

Naturalmente, tem todo o sentido o campo de questões em torno da forma como os gregos viviam e acreditavam em tudo o que as narrativas mitológicas lhes transmitiam. No célebre título de Paul Veyne, “Acreditavam os gregos nos seus mitos?”, encerramos um universo tremendo de problemáticas que podemos fazer migrar para o que aqui nos centra: os jogos.

De facto, em que acreditavam os gregos quando iam aos jogos? Que eles tinham sido fundados por Héracles? Lembravam-se das “ascensões” de Dionísio e de Apolo ao Olimpo, como quem revive um texto sagrado?

Sim, é de religião que devemos falar ao tratar dos jogos na Antiguidade. Mas é, acima de tudo, de integração no cosmos, de forma de ver o Mundo e o Homem. É uma Antropologia o que temos na longa afirmação dos jogos na Grécia. Uma visão do Homem que assenta na sua própria superação. Na afirmação de valores de competição através da busca dos limites.

Milenar, imagem de toda uma civilização, foi necessário um édito religioso para por termo aos Jogos em honra de Zeus Olímpico. De facto, em 394 Diocleciano decretava o fim dos jogos. Seriam retomados mil e quinhentos anos depois, em Atenas.

Nada de mais humano, nem nada de mais divino.

 

Fonte: Público.